N.88 - Março/Abril (March/April) de 1999

 

QUESTÕES LINGUÍSTICAS EM ORNITOLOGIA:

I. LIMÍCOLA OU LIMNÍCOLA?

Fernando Costa Straube* – Curitiba-PR

 

"O termo limnologia origina-se da palavra grega limné, que significa lago. Assim, se nos basearmos apenas na etimologia, [tratar-se-ia] da ‘ciência dos lagos’. No entanto, hoje define-se limnologia como sendo o estudo de todos os corpos d’ água continentais, sejam quais forem suas origens, dimensões ou graus de salinidade" (Esteves & Barbosa, 1986).

A formação das palavras, na língua portuguesa, é tão rica quanto

confusa; em um de seus processos, a composição, permite-se o artifício do hibridismo, ou seja, a participação de elementos provenientes de línguas distintas. Exemplos de uso rotineiro que o ilustram são: monocultura (mono, do grego + cultura, do latim), televisão (tele, do grego + visão, do latim), alcoômetro (álcool, do árabe + metro, do grego).

Em um artigo recentemente publicado (Mikich & Lara, 1996) no periódico "Estudos de Biologia" (1996:vol.4, nº 40:55-70), que é editado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, consta no título e em todo o corpo do texto: "aves limnícolas". Antes de ser publicado, a primeira versão desse importante estudo à Ornitologia paranaense foi-me submetido pelos próprios autores para críticas e sugestões, mas ali constava originalmente "aves limícolas". Alterou-se, portanto, um vocábulo consagrado por outro, aplicado erroneamente.

Não importa exatamente qual a origem ou os motivos de tal alteração; o objetivo do presente estudo de caso volta-se pois, e somente, à análise crítica de ambos os termos e o direcionamento futuro de suas aplicações em textos científicos ornitológicos.

O termo limnícola, embora mais um dos tantos neologismos que sem o crivo de um léxico avolumam-se na literatura biológica, é bastante útil para designar espécies que habitam ambientes aquáticos lênticos e lóticos, como lagoas, lagos, poças e águas acumuladas na cisterna das bromeliáceas, bem como rios, riachos e arroios. É uma palavra híbrida, resultado da união de limno (do grego, traduzido como lago) e cola (do latim, traduzido como habitante). Refere-se, portanto, a espécies que habitam ambientes continentais de água doce, mas nunca marinhos, tal como apontado por Mello-Leitão (1946) para um vocábulo cognato: "limnóbio (s.m.): associação de seres vivos que se encontra nas águas doces...". Para Lincoln & Boshall (1987) a definição de limnícola é muito mais restritiva: "living in lakes".

Já o termo limícola que, ao contrário do anterior consta no mais básico dos dicionários, o nosso conhecido Aurélio (Ferreira, 1986), é mais abrangente e une duas palavras latinas (limo, que significa limo, lodo ou lama e o já mencionado cola) e é uma alusão às espécies que vivem à beira de ambientes aquáticos, sejam marinhos, dulcícolas ou estuarinos, notadamente os representantes da ordem do Charadriiformes. É, ainda, um termo amplamente utilizado, consagrado por ornitólogos do mundo inteiro e não apenas por eles, como pode-se constatar nos clássicos dicionários de termos biológicos de Henderson (Holmes, 1985) e Cambridge (Lincoln & Boshall, 1987).

Assim, é mais do que evidente que aves que vivem em uma praia, utilizando-se do ambiente marinho, tal como enfatizado no artigo em discussão, jamais poderiam ser chamadas de limnícolas. Então, na forma como apresentado no referido artigo, o vocábulo está incorretamente utilizado. Além disso, ao adotar o termo também modificou-se a designação oficial de organizações internacionais dedicadas ao estudo de aves limícolas (não limnícolas).

Outro problema diz respeito à própria paisagem da Ilha do Superagui. Ali também existem hábitats de "água doce", alguns deles bem estudados por pesquisadores paranaenses contemporâneos (P.Scherer-Neto, V.S.Moraes, R.Krul, M.Bornschein, B.Reinert, M.Pichorim). Neles ocorrem espécies tipicamente limícolas (e várias também limnícolas), peculiares dos campos e banhados litorâneos do Paraná.

Como já apresentado, o termo limícola também não é totalmente apropriado para as espécies que habitam a região litorânea das dunas e ante-dunas, uma vez que refere-se a lodo ou limo, situação diferente do substrato arenoso desses locais. Seria apreciável, então, à guisa de erratum, o vocábulo arenícola ou, ainda, psamícola (ou sua variável menos restritiva: psamófila, reconhecida em alguns dicionários), ambos realmente adequados para designar espécies de aves que habitam ambientes arenosos, como foi o caso do artigo ora retratado.

Concluindo-se, espera-se que comissões editoriais de periódicos científicos mantenham-se atualizadas na terminologia dos temas a serem divulgados, evitando a utilização de vocábulos incorretos ou neologismos sem fundamento etimológico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Esteves, F.de A. & Barbosa, F.A.R. 1986. Eutrofização artificial: a doença dos lagos. Ciência Hoje 5(27):57-61.

Ferreira, A.B.de H. 1986. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1838 pp.

Holmes, S. 1985. Henderson’s dictionary of biological terms. Nova Iorque, Longman, 510 pp.

Lincoln, R.J. & Boxshall, G.A. 1987. The Cambridge illustrated dictionary of Natural History. Cambridge, University Press. 413 pp.

Mello-Leitão, C.de .1946. Dicionário de biologia: pequeno vocabulário de têrmos técnicos empregados em ciências biológicas: Botânica, Ecologia, Genética, Zoologia. São Paulo, Companhia Editora Nacional. 646 pp.

Mikich, S.B. & Lara, A.I. 1996. Levantamento das aves limnícolas da Praia Deserta, Ilha do Superagui, Guaraqueçaba (Paraná-Brasil). Estudos de Biologia 4(40):55-70.

 

Em 1997, submeti essa questão conceitual sob forma de artigo, para publicação nos "Estudos de Biologia", sendo o mesmo rejeitado, por ser considerado "ofensivo". Depois disso, nenhuma atitude foi tomada para corrigir o equívoco lingüístico em quaisquer das edições subseqüentes do periódico, razão pela qual divulgo a questão por outro veículo informativo.

 

* Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais. Rua Pres. Carlos Cavalcanti, 954, São Francisco. Caixa Postal 1644. Curitiba, Paraná. 80 001-970. Tel/fax (041) 322 7784; e-mail: juruva@aol.com.br .

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Última modificação (
Last modified): 05 março, 2014