N.89 - Maio/Junho (May/June) de 1999

Observações sobre a nidificação do bacurau-tesoura, Hydropsalis torquata torquata, com uma comparação com outros taxa do gênero

Marcelo Ferreira de Vasconcelos – Belo Horizonte

Hydropsalis torquata é o nome válido para a espécie correntemente tratada como H. brasiliana (Teixeira 1992, Pacheco e Whitney 1998). Devido ao pequeno conhecimento acerca da reprodução dos Caprimulgidae no Brasil, em esparsas contribuições (Sick 1950, Novaes 1957, Bokermann 1978, Salles 1988, Teixeira 1991, Moraes e Krul 1995, Alvarenga 1996, Andrade 1996, Vasconcelos et al. 1996, Leite et al. 1997), o objetivo deste trabalho é o de relatar algumas observações sobre a nidificação do bacurau-tesoura, Hydropsalis torquata torquata, verificada no estado de Minas Gerais, comparando-as com as de outros taxa do gênero.

As observações foram realizadas nos dias 27 e 28 de setembro de 1997 na Estação de Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental de Peti (EPDA-Peti/CEMIG) (19o54’S, 43o23’W) nos municípios de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo, Minas Gerais. A área apresenta uma cobertura vegetal com predominância da floresta estacional semidecidual, enquanto a vegetação rupestre surge em alguns afloramentos rochosos, sendo H. t. torquata facilmente encontrada neste último tipo de habitat (Fig. 1).

Figura 1. O bacurau-tesoura, Hydropsalis torquata torquata, pousado à noite em um afloramento rochoso na Estação de Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental de Peti. Foto: M. F. Vasconcelos.

Figura 2. Sítio de nidificação de Hydropsalis torquata torquata com um ovo encontrado na Estação de Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental de Peti. Foto: M. F. Vasconcelos.

 

O sítio de nidificação de H. t. torquata foi encontrado na tarde do dia 27 de setembro de 1997 (16:30 h), em um afloramento rochoso a cerca de 800 m de altitude. A vegetação era baixa, com a ocorrência de arbustos, bromélias (Dyckia sp., Vriesia sp.) e canelas-de-ema (Vellozia sp.). Com a minha aproximação a cerca de 2 m do sítio de nidificação, uma fêmea de H. t. torquata alçou vôo, mostrando sua cauda em forma de "tesoura-curta", indo pousar atrás de um aglomerado de bromélias espinhosas (Dyckia sp.) a cerca de 10 m de onde estava pousada. No exato local onde a ave estava pousada, antes de minha aproximação, foi encontrado um ovo de coloração rosa-alaranjada com pintas e manchas marrom-rosadas, medindo 27,2 x 20,6 mm (Fig. 2). O ovo estava posto em um local rodeado de arbustos baixos de cerca de 1 m de altura sobre um substrato de solo escuro, não estando sobre serrapilheira, de modo que o mesmo se encontrava relativamente evidente para ser localizado por um observador ou predador (Fig. 2). Voltei ao local às 17:10 e às 17:30 h e observei novamente a fêmea incubando, que igualmente, com minha aproximação, voou para o mesmo local observado anteriormente.

No dia seguinte, retornei à área às 05:30 h e às 06:30 h. Nestas duas ocasiões a fêmea foi novamente encontrada sobre o ovo, voando quando da minha aproximação a cerca de 2 m de distância. Às 10:30 h, voltei ao local, encontrando a fêmea novamente sobre o ovo. Às 14:30 h, foi verificado, entretanto, que a ave não se encontrava sobre o ovo, e sim, pousada a poucos centímetros de distância do mesmo (cerca de 10 cm), com a cabeça orientada na direção do ovo. À noite (22:30 h), voltei a observar a fêmea sobre o ovo, sendo a ave espantada novamente.

As características desta nidificação de H. t. torquata lembram bastante as de outros taxa aparentados.

No caso de H. climacocerca, outros autores citam que esta espécie também põe ovos sobre o solo, sem a presença de serrapilheira (Novaes 1957, Bokermann 1978, Hilty e Brown 1986), concordando com o observado para H. t. torquata neste trabalho. Entretanto, o número de ovos citado para H. climacocerca é de dois (Novaes 1957, Bokermann 1978, Hilty e Brown 1986), enquanto que foi registrado apenas um ovo nas observações em Peti para H. t. torquata. Contudo, como as observações foram realizadas em apenas dois dias, permanece a possibilidade da postura de outro ovo nos dias subseqüentes. As características de coloração e as dimensões dos ovos de H. climacocerca encontradas na literatura são variáveis (Tab. 1). Entretanto, em todas as descrições os ovos possuem manchas ou pintas da mesma maneira que o ovo de H. t. torquata observado.

Com relação à H. t. furcifera, Alonso (1974) encontrou apenas um ovo também posto sobre o solo, sem a presença de uma camada de folhas ou de serrapilheira sob o ovo. Belton (1994) cita para esta subespécie, a presença de dois ovos postos numa rocha de granito, também sem a presença de serrapilheira. Pereyra (1932) também cita a postura de H. t. furcifera consistindo de dois ovos. O sítio de nidificação de H. t. furcifera descrita por Alonso (1974) é bem semelhante ao encontrado neste trabalho para H. t. torquata, isto é, uma área aberta com a presença de uma vegetação rala de ervas e arbustos. Entretanto, nidificações desta ave em ambientes fechados são descritas por Voss e Sander (1981) e por Belton (1994) no meio de uma plantação de acácia-negra e no meio de uma capoeira, respectivamente. As dimensões do ovo de H. t. furcifera encontradas na literatura foram geralmente maiores que o encontrado para a subespécie H. t. torquata em Santa Bárbara (Tab. 2). As colorações dos ovos de H. t. furcifera descritas por Alonso (1974) e por Belton (1994) são as mais semelhantes à observada para H. t. torquata neste trabalho. Contudo, a coloração dos ovos desta subespécie descritas por Ihering (1900, 1914) e por Pereyra (1932) diferem ligeiramente das descritas por estes autores, sendo admitida uma certa variação de cor (Ihering 1914). Da mesma maneira que observado neste trabalho, Alonso (1974) cita apenas a fêmea no sítio de nidificação, entretanto, os tempos de observação dispendidos, neste e naquele, foram relativamente curtos para que se possa afirmar se ocorre ou não um revezamento de machos e fêmeas na incubação do ovo. Belton (1994) também cita apenas a fêmea observada na incubação. Desta forma, são necessárias maiores observações em diferentes horários, ao longo de alguns dias para se ter melhores noções a respeito dos comportamentos de incubação e de cuidados parentais nas duas subespécies de H. torquata.

A respeito das descrições dos ovos de H. t. torquata, também existe uma certa variação na coloração dos ovos (Tab. 3). As dimensões citadas na literatura (Ihering 1900, 1914, Schönwetter 1967) estão próximas às encontradas no presente trabalho. Entretanto, em nenhum destes estudos encontra-se a descrição do sítio de nidificação de H. t. torquata.

Além disso, em um pôster produzido pelo Museu de Biologia Mello Leitão (Conhecendo a natureza: 2. Ovos de aves) de Santa Teresa, ES, existe uma fotografia de um ovo de H. torquata (a subespécie não foi citada) com as características de coloração bem semelhantes às do ovo encontrado neste trabalho.

Embora Teixeira (1991) cite que a fêmea de H. torquata (a subespécie não foi citada) realize o comportamento de "asa quebrada", simulando estar ferida para distrair a atenção do observador ou do predador dos ovos ou filhotes, este comportamento não foi observado neste trabalho. Entretanto, segundo este autor, a fêmea realizou este comportamento em um sítio de nidificação onde havia um filhote recém-eclodido, sendo possível que ocorram mudanças comportamentais por parte das aves após a eclosão do ovo, como observado para outra espécie de bacurau (Nyctidromus albicollis) em Minas Gerais (obs. pess.).

Deste modo, devido às esparsas contribuições sobre a reprodução de H. torquata, a divulgação destes dados sobre a nidificação da espécie no estado de Minas Gerais é de importância para o conhecimento geral dos aspectos reprodutivos dos bacuraus do Brasil.

 

Tabela 1. Características dos ovos de Hydropsalis climacocerca.

 

Dimensões

Coloração

Autor

26,5 x 20 mm

Sem descrições.

Ihering (1900)

20,6 x 12 mm

Pardo com pintinhas mais escuras no pólo mais arredondado.

Novaes (1957)

25,7-28,8 x 18,6-20,1 mm

Cor de fundo rosa-clara a amarelo-cinzento, com presença de muitos riscos de coloração amarelo-escura a castanha, homogeneamente distribuídos. Também ocorrem pequenos pontos e manchas de coloração cinza.

Schönwetter (1967)

25,1-26,4 x 20-20,5 mm

Cor de fundo branco-sujo com dois tipos de manchas: umas menores de contorno definido, mais escuras de cor chocolate, outras maiores, de contornos irregulares, mais claras, cor castanho violácea.

Bokermann (1978)

Sem descrições.

Pardo-oliváceo com pintas escuras.

Hilty e Brown (1986)

 

 

Tabela 2. Características dos ovos de Hydropsalis torquata furcifera.

 

Dimensões

Coloração

Autor

28-29 x 21 mm

Amarelado, com numerosos pontos, linhas e garatujas cinzento-pardas.

Ihering (1900)

28,5-29,5 x 23-23,3 mm

Variando: ora branco-amarelado com mistura de cinzento, ora amarelado com leve tom cor de rosa. O desenho consiste em numerosos pontos e linhas largas escuras.

Ihering (1914)

Sem descrições.

Cor de fundo creme, com linhas negras, finas e sinuosas.

Pereyra (1932)

28,1-30,8 x 21,4-22,6 mm

Cor de fundo amarelo-castanha ou rosa-clara ou rosa mais forte, com manchas acinzentadas.

Schönwetter (1967)

31 x 21 mm

Bege, com estrias sinuosas de tonalidade castanha.

Alonso (1974)

Sem descrições.

Marrom-claro, fortemente manchado com marrom mais escuro.

Belton (1994)

 

Tabela 3. Características dos ovos de Hydropsalis torquata torquata.

 

Dimensões

Coloração

Autor

27 x 20 mm

Cinzento-claro com manchas profundas roxas e manchas e garatujas superficiais amarelo-cinzentas ou pardas desbotadas.

Ihering (1900)

28 x 20 mm

Pálido, amarelo-avermelhado, com manchas superficiais pardo-escuras e outras profundas mais pálidas e com linhas curtas e garatujas amarelo-pardas.

Ihering (1914)

24,6-28,7 x 17,9-19,9 mm

Variação: alguns ovos com cor de fundo amarelo-castanho-claro com pequenas manchas cinzas e castanho-claras. Outros com cor de fundo rosa-claro com manchas castanho-claras.

Schönwetter (1967)

27,2 x 20,6 mm

Rosa-alaranjada com pintas e manchas marrom-rosadas.

Presente estudo

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Alonso, C. 1974. Nota sobre la nidificación de Hydropsalis brasiliana furcifera (Vieillot) (Caprimulgidae, Aves). Neotropica 20:36-39.

Alvarenga, H. M. F. 1996. Sobre os hábitos de reprodução do curiango Nyctidromus albicollis (Gmelin, 1789). In: V Congresso Brasileiro de Ornitologia. Campinas, SP. p. 5.

Andrade, M. A. 1996. Observações sobre ninhos e ovos de algumas aves em Minas Gerais. Atualidades Ornitológicas 74:13-14.

Belton, W. 1994. Aves do Rio Grande do Sul: Distribuição e biologia. São Leopoldo: Editora Unisinos.

Bokermann, W. C. A. 1978. Observações sobre a nidificação de dois curiangos, Hydropsalis climacocerca (Tschudi, 1844) e Nyctiphrynus ocellatus (Tschudi, 1844) (Aves, Caprimulgidae). Revista Brasileira de Biologia 38:871-873.

Hilty, S. L. e W. L. Brown. 1986. A guide to the birds of Colombia. New Jersey: Princeton University Press.

Ihering, H. von. 1900. Catalogo critico-comparativo dos ninhos e ovos das aves do Brasil. Revista do Museu Paulista 4:191-300.

Ihering, H. von. 1914. Novas contribuições para a ornithologia do Brazil. Revista do Museu Paulista 9:411-448.

Leite, L. O., L. N. Naka, M. F. Vasconcelos e M. M. Coelho. 1997. Aspectos da nidificação do bacurauzinho, Chordeiles pusillus (Caprimulgiformes: Caprimulgidae) nos estados da Bahia e Minas Gerais. Ararajuba 5:237-240.

Moraes, V. S. e R. Krul. 1995. Ocorrência e nidificação de Macropsalis creagra na ilha do Mel, Paraná, Brasil. Ararajuba 3:79-80.

Novaes, F. C. 1957. Notas sôbre a ecologia do bacurau "Hydropsalis climacocerca" Tschudi (Caprimulgidae, Aves). Revista Brasileira de Biologia 17:275-280.

Pacheco, J. F. e B. M. Whitney. 1998. Correction of the specific name of Long-trained Nightjar. Bulletin of the British Ornithologists’ Club 118:259-261.

Pereyra, J. A. 1932. Los caprimúlgidos. El Hornero 5:41-46.

Salles, O. 1988. Alguns dados sobre a biologia do curiango. Atualidades Ornitológicas 22:1.

Schönwetter, M. 1967. Handbuch der Oologie, Band I (Nonpasseres). Berlin: Akademie-Verlag.

Sick, H. 1950. Contribuição ao conhecimento da ecologia de "Chordeiles rupestris" (Spix) (Caprimulgidae, Aves). Revista Brasileira de Biologia 10:295-306.

Teixeira, D. M. 1991. Notas sobre a reprodução de alguns bacuraus brasileiros (Aves: Caprimulgidae). In: XVIII Congresso Brasileiro de Zoologia. Salvador, BA. p. 361.

Teixeira, D. M. 1992. As fontes do Paraíso - Um ensaio sobre a ornitologia no Brasil Holandês (1624-1654). Revista Nordestina de Biologia 7:1-149.

Vasconcelos, M. F., C. C. Figueiredo e H. A. Carvalho. 1996. Acompanhamento de duas nidificações de Nyctidromus albicollis na Estação Ecológica da UFMG, Belo Horizonte, MG. In: V Congresso Brasileiro de Ornitologia. Campinas, SP. p. 123.

Voss, W. A. e M. Sander. 1981. Aves observadas numa monocultura de acácia-negra, Acacia mollissima Willd., nos arredores de São Leopoldo, RS. Brasil Florestal 46:7-15.

 

AGRADECIMENTOS

 

Sou muito grato ao amigo José Fernando Pacheco pela leitura crítica do manuscrito, pelo fornecimento de importantes referências bibliográficas e pelo seu grande incentivo. Agradeço à CEMIG pela hospedagem na EPDA-Peti e à Profa. Ivana Reis Lamas por ter organizado a viagem ao local. Finalmente, gostaria de agadecer aos amigos Iola Gonçalves Boëchat e Eric Johannes Lehne pela tradução do texto em alemão da obra de Max Schönwetter (1967).

 

Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre, ICB, Universidade Federal de Minas Gerais, C.P. 486, 30161-970, Belo Horizonte, MG. E-mail: bacurau@mono.icb.ufmg.br

 

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014