N.89 - Maio/Junho (May/June) de 1999

 

É de Minas Gerais o exemplar único e original de Nemosia rourei ?

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro-RJ

 

Nemosia rourei - Desenho de Eduardo Brettas

 

A saíra-apunhalada (Nemosia rourei) foi descrita na segunda metade do século passado, através de uma única pele enviada do Brasil pelo naturalista Carl Euler ao Museu de Berlin (Cabanis 1870). Neste período, Carl Hieronymus Euler era regular colaborador dessa instituição, enviando peles e escrevendo artigos sobre biologia reprodutiva no Journal für Ornithologie, oriundos de atividades de campo na sua Fazenda Bom Valle, município de Cantagalo, no interior do Estado do Rio de Janeiro. No caso da Nemosia rourei, entretanto, Euler a enviou informando em carta, que se tratava de pele coletada pelo Sr. Jean de Roure, em Muriahié, margem (!) norte ou esquerda do rio Paraíba do Sul. Acrescenta ainda que em 30 anos de atividade coletora, nem Roure em Muriahié tampouco ele em Cantogallo haviam encontrado esta espécie (Cabanis 1870), o que atestaria uma singular raridade. Esta localidade-tipo foi associada especificamente com a cidade de Muriaé, na zona da mata de Minas Gerais apenas por Sick (1979) e, por conseguinte, por todos os demais autores recentes. Na informação original não há indicação de província, hoje estado.

Esta não havia sido a primeira vez, que Euler fez referência a Jean de Roure, a quem chama de amigo. Um ano antes, Euler (1869) informa que o Senhor de Roure mantinha uma coleção [de aves], e que as vendia para os museus europeus, mencionando especificamente o Museu da Basiléia, na Suíça. Contudo, ele menciona que Roure há mais de 30 anos mantinha atividades nas montanhas de Nova Friburgo, mais precisamente em Macahé-Flusse, o que corresponderia a região atualmente conhecida como Macaé de Cima (cabeceiras do Rio Macaé).

Retrabalhando todos os dados bibliográficos existentes, após nossa recente redescoberta da espécie (Bauer et al. 1998, Pacheco 1998), para a elaboração do artigo formal do episódio, percebemos que algumas especulações deveriam ser divulgadas à parte. Em especial, a aparente contradição entre Euler (1869) e Cabanis (1870) sobre qual seria a região primordial de atividades de Roure, ganhou peso e nos chamou a atenção para uma possível falha na localidade indicada de coleta de Nemosia rourei, na descrição original. Diante do exposto, resolvemos reunir o que havia em favor ou contra a hipótese de considerar Muriaé como localidade dúbia.

Vejamos, primeiramente, algumas razões desfavoráveis à hipótese de falha na citação de Muriaé como localidade-tipo:

1) Jean de Roure poderia ter mesmo coletado Nemosia rourei em Muriaé e não teve participação na confusão sobre a localização e a informação sobre a quantidade de tempo dispendido em sua atividade coletora na área, ambas cometidas por Euler.

2) Se é possível admitir que Cabanis (1870) transcreveu erroneamente a localidade mencionada em carta, porque Euler (falecido em 1901) não teria se interessado em retificar essa falha em vida ?

3) A existência [original] de Nemosia rourei na ornitologicamente bem explorada Nova Friburgo, não foi corroborada por nenhum outro coletor. Em Nova Friburgo passaram Hermann Burmeister e Peter Lund (Pinto 1979), além de ser clássica localidade de diversas coleções ornitológicas enviadas à Europa, como as de Beske, Schaufuss, Youlds, dentre outros (Ihering 1900).

Em seguida, vejamos as razões favoráveis à hipótese de falha na origem:

 

1) O Senhor João (=Jean) de Roure, conforme já mencionado por Euler (1869), viveu efetivamente na região de Nova Friburgo, onde era fazendeiro na Freguesia sede da Vila de São João Baptista (Haring 1870:251).

2) Textualmente, Euler (1869) relacionou o nome de Roure à região das cabeceiras do rio Macaé, enquanto a associação de Roure com Muriaé fora feita apenas por um terceiro, i.e. Cabanis (1870).

3) As regiões de Cantagalo e Nova Friburgo não eram interligadas a região de Muriaé por estradas na época de Euler e Roure (Lamego 1963). Portanto, era certamente custosa a viagem entre essas duas regiões.

4) Se Muriaé é a localidade correta, mas não a localidade básica das atividades de seu amigo Roure, porque Euler teria informado a Cabanis (1870) que a ave era rara devido ao fato de seu amigo estar em atividade por lá a mais de 30 anos ?

5) A semelhança existente entre a localidade Muriahié e a localidade principal de atividade de Roure, Macahé, em suas grafias da época, pode sugerir uma falha de Cabanis (1870) na transcrição da localidade mencionada na carta de Euler. A localização dessa carta e a verificação de seu conteúdo poderiam confirmar definitivamente (ou não) esta sugestão.

6) Muriahié, atual Muriaé não está na margem (grifo nosso) esquerda do rio Paraíba do Sul, como textualmente informado na descrição original (Cabanis 1870). Está em verdade, precisamente, às margens do rio Muriaé, um dos principais tributários da margem esquerda do rio Paraíba do Sul.

7) Muriaé está a cerca de 100 km ao norte do rio Paraíba do Sul, na altura de Cantagalo, onde este rio divide os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A atual Muriaé já existia como cidade na época de Euler e Roure, contudo chamava-se mais precisamente São Paulo do Muriahé, nome oficial que foi usado entre 1841 e 1911 (Faria 1997).

Considerando que as especulações em favor de uma possível falha na menção de "Muriaé" como local de origem do exemplar-tipo de Nemosia rourei são mais atraentes, sugerimos considerar tal localidade mineira como duvidosa. Por outro lado, encorajamos reputar como possível a existência da mesma (ao menos originalmente) na região montanhosa de Nova Friburgo.

Referências

Bauer, C., J. F. Pacheco, A. C. Venturini, P. R. da Paz, M. P. Rehen e L. P. do Carmo (1998) O primeiro registro documentado do séc. XX da saíra-apunhalada, Nemosia rourei Cabanis, 1870, uma espécie enigmática do sudeste do Brasil. Atualidades Orn.82:6

Cabanis, J. (1870) Ueber neue brasilische Nemosie oder Wald-Tangare, Nemosia Rourei nov spec. J. Orn. 18: 459-460.

Euler, C. (1869) Beiträge zur Naturgeschichte der Vögel Brasiliens. J. Orn 17:241-255.

Faria, M. A. (1997) O que ficou dos 178 anos da história de Muriaé. Muriaé: Arte Urbana.

Haring, C. G. (1870) Almanak Administrativo, mercantil e industrial da Corte e da Província do Rio de Janeiro para o anno de 1870. Rio de Janeiro: E & H. Laemmert.

Ihering, H. von (1900) Aves observadas em Cantagallo e Nova Friburgo. Rev. Mus. Paulista 4:149-164.

Lamego, A. R. (1963) O Homem e a serra. 2. Edição. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Pacheco, J. F. (1998) Cherry-throated Tanager Nemosia rourei rediscovered. Cotinga 9:41

Pinto, O. M. O. (1979) A ornitologia do Brasil através das idades (Século XVI a Século XIX). São Paulo: Empresa Gráfica da Rev. dos Tribunais. (Brasiliensia Documenta, 13)

Sick, H. (1979) Notes on some Brazilian birds. Bull. Brit. Orn. Cl. 99(4):115-120

 

UFRRJ - Instituto de Biologia, Lab. de Ornitologia, Rodovia BR465 Km 7, 23851-970 - Seropédica, RJ.

 

 

AO - SERVIÇOS - LINKS
Você pode enviar perguntas ou comentários sobre este site para ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS.
Send mail to ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS with questions or comments about this web site.
Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014