N.90 - Julho/Agosto (July/August) de 1999

 

 

Entrevista de José Fernando Pacheco

O biólogo José Fernando Pacheco, carioca, 38 anos, é um dos mais destacados ornitólogos brasileiros da atualidade. Em entrevista concedida, num barzinho de Copacabana, em junho deste ano, ele revela para os leitores o seu envolvimento e seus pensamentos sobre a nossa ornitologia.

 

AO: Quando e como começou o seu interesse pelas aves?

Sr. Pacheco: No início, meu interesse era amplo por bichos em geral. Na minha infância, não perdia os documentários da TV sobre a vida animal. Desde cedo lia (repetidamente) com muita atenção as enciclopédias de animais e fazia anotações; afinal, não queria perder nenhum detalhe. Num determinado momento, já adolescente, resolvi colocar em prática aqueles "meus conhecimentos" e aproveitei minhas férias para ir ao campo em busca dos animais. Isto foi no início de 1976 e eu já estava andando por dias pelas pastagens cheias de cupinzeiros da região de São João Del Rei, quando percebi que a minha tentativa não me fez achar nenhum ‘bicho de pelo’, isto é, nenhum mamífero. Em compensação, possivelmente centenas de aves cruzaram a minha frente; algumas grandes (seriemas, gaviões) e outras pequetitas. Voltei da viagem me perguntando quais seriam aquelas muitas e atraentes aves e onde poderia buscar informação sobre elas. Nessa época eu não tinha binóculos e literalmente estivera engatinhando atrás delas, o que ainda precisei fazer por mais alguns anos.

AO: O que fez daí em diante na busca desse objetivo ? Como foi a sua trajetória ?

Sr. Pacheco: Nesta época descobri a existência de três livros sobre aves brasileiras, os dois volumes do Eurico Santos: "Da Ema ao Beija Flor" e "Pássaros do Brasil" e um livro de fotografias do antigo MEC, de capa dura branca. Não era suficiente, queria mais informação. Anotei as referências bibliográficas dos livros do Eurico Santos e passei a procurar por elas nas bibliotecas. Esgotei minhas possibilidades de busca em bibliotecas escolares e passei a dedicar mais tempo na Biblioteca Nacional. Lá terminei por descobrir que havia no Rio uma biblioteca especializada em História Natural: a biblioteca do Museu Nacional. Que maravilha ! Não podia ser melhor aos meus intentos. Podia enfim encontrar bibliografia mais técnica sobre aves brasileiras ! Tudo o que eu queria. Passei a freqüentar o Museu Nacional quase diariamente. Passei a dividir o meu tempo entre o trabalho (era office-boy), o estudo secundário e a dedicação aos livros de aves. A obsessão era tanta, que cheguei a copiar o Catálogo do Olivério Pinto inteiro à mão !

Por uma contingência acabei conhecendo a seção de aves do Museu Nacional, em 1977. Estava procurando por um livro na biblioteca e fui informado que o livro estaria "na carga do Prof. Sick da seção de aves". Bati na porta e fui atendido gentilmente pelo naturalista Herbert Berla (Veja AO 87) e descobri que o Prof. Sick estava viajando. Contudo, Berla me disse que o livro que procurava estava lá e que poderia consultá-lo. Depois disso, acabei fazendo amizade com Berla, o que facilitou o meu acesso à seção para consultar os muitos livros de uso interno (e melhor, todos especializados) que ficavam nas estantes. Pouco tempo depois, Berla começou a mostrar-me as peles da coleção e contar as histórias das expedições em que ele próprio havia participado. Nada poderia ser mais atraente para mim, naquela época.

Mal cruzei com Sick neste primeiro ano de visitas ao Museu Nacional. Os nossos horários não coincidiam e Berla havia dito que eu deveria evitá-lo, porque Sick seria muito rigoroso e não permitiria o acesso de estranhos [como eu] à coleção e aos livros. Não arrisquei e segui a risca esse conselho.

Paralelamente, passei a excursionar por muitos lugares do Sudeste, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Mais tarde, entrei para o Exército (onde permaneci por 11 anos) e passei a freqüentar o Museu Nacional mais espaçadamente. No final dos anos 1970, Sick e seus dois discípulos mais próximos, Dante M. Teixeira e Luiz P. Gonzaga estavam às voltas com a descoberta da arara-azul-de-Lear e isto era o tema de quase todos os assuntos conversados por lá. Em 1980, comecei a conversar mais detidamente com Sick sobre as minhas experiências no campo. Ele se mostrava interessado em algumas observações e combinava novos encontros em seu apartamento, que eu não desperdiçava por nada. Sick estava nessa época se aposentando no Museu Nacional e passando a se dedicar integralmente ao fechamento de seu livro "Ornitologia Brasileira, uma introdução" (publicado em 1985).

Passei os anos 1980 trabalhando com informática no Exército e excursionando nos momentos de folga para todo lado. Ainda no Museu Nacional e por convite de Dante M. Teixeira, que ingressou na instituição após a saída de Sick, inventariei boa parte da coleção de aves entre 1980-1987, o que me garantiu um bom aprendizado na identificação das peles. Na maior parte deste período freqüentava o Museu Nacional num máximo de duas visitas semanais. Além desta "tarefa de gabinete" , tudo era motivo para agendar uma saída de campo, por mais curta que fosse. Aproveitava o horário de educação física para andar nas trilhas do Morro do Leme, ou fazer corridas com os soldados na Floresta da Tijuca; afinal, tudo era pretexto para levar o binóculo. As viagens mais longas a serviço eram com muito mais razão acompanhadas de investigações nas florestas próximas. Neste ínterim me formei em Biologia, cursando uma faculdade [Celso Lisboa] à noite.

Nesta época – um jovem tenente do exército – era para Sick somente, em resumo, um diletante apaixonado e um observador de aves dedicado. Ele não estava errado porque eu era e ainda sou [também] essencialmente um observador de aves.

AO: Qual foi a importância do Clube de Observadores de Aves na sua trajetória ?

Sr. Pacheco: Em janeiro de 1985, por iniciativa de Luiz Claudio Marigo, Luiz P. Gonzaga, Paulo Sérgio M. da Fonseca, Lila Ferrez e minha própria, foi fundado o núcleo carioca do Clube de Observadores de Aves. Graças ao COA eu tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas (incluindo a minha atual esposa, Claudia Bauer) e ganhar vários e permanentes companheiros de excursão. Eu tenho registrado até hoje cerca de 1.500 saídas de campo, sendo grande parte delas realizadas em companhia de alguns desses colegas do COA.

A redescoberta em 1987 do papa-formigas-de-cabeça-preta (Formicivora erythronotos) aconteceu no âmbito do COA do Rio. Esta ave que estava desaparecida há mais de 150 anos foi encontrada pelo casal de sócios do COA Cacilda e Fernando Mauro de Carvalho na região de Angra dos Reis. Graças ao meu bom contato com essa dupla de talentosos e meticulosos observadores, recebi por oferta deles a chance de divulgar esse histórico achado em periódico científico. Dessa forma, eles tornaram-se padrinhos generosos da minha primeira publicação.

Coincidentemente, nessa época as reuniões do COA eram feitas em Laranjeiras, bairro onde Sick residia. Pois é com muito orgulho que nós, associados do COA carioca, podemos dizer que desfrutamos da companhia assídua de Helmut Sick em nossas reuniões, até pouco antes de sua morte em março de 1991.

AO: Quais foram as pessoas que influenciaram o seu estudo ?

Sr. Pacheco: Eu recebi influências positivas de muita gente. Não seria possível relacionar com rigor as muitas pessoas que tive a oportunidade de me aproximar e aprender com elas. São muitas também as influências recebidas de autores de livros e artigos que optamos por ler ao longo de nossos estudos. Numa tentativa de listar somente as figuras que mais me ensinaram na ornitologia, irei mencionar alguns nomes especiais. Tive a chance preciosa de manter um bom contato, por cerca de uma década, com o grande Helmut Sick. Isto se constituiu numa experiência com resultados visíveis (e duradoura) em minha vida profissional. Contudo, numa busca mais profunda preciso admitir que o ornitólogo que mais me influenciou foi Luiz Pedreira Gonzaga, atual Professor da UFRJ. Não a minha preparação como observador, mas sobretudo a minha formação de ornitólogo se deve a ele. Mesmo uma boa parte da influência que recebi de Sick se fez de maneira indireta, através do Luiz. Tenho um profundo respeito por ele e reconheço que Luiz deve ser certamente um dos mais brilhantes e completos ornitólogos de nosso país.

Duas outras pessoas foram inegavelmente (e demasiadamente) importantes na minha formação e amadurecimento: Bret Whitney e Paulo Sérgio M. da Fonseca. Conheci o primeiro em 1986, quando de sua primeira visita ao país e depois nunca mais paramos de excursionar e trabalhar juntos. Com o Bret pude avançar rapidamente no conhecimento das aves amazônicas (ele já conhecia bem o Neotrópico antes mesmo de visitar o Brasil) e aprender muito sobre vocalização e técnicas de observação. O Paulo Sérgio (PS para muitos) que conheco há 15 anos é para mim um companheiro constante das minhas mais felizes descobertas na ornitologia. É dificíl não lembrar dele quando vejo algo interessante no campo e ele não está, para nos contagiar com a sua vibração característica. Sua grande e sortida biblioteca é a fonte de muitas de minhas pesquisas. Devo a ele muitas leituras preciosas de manuscritos incompletos e discussões sempre enriquecedoras sobre temas em que ocupei. Ele me ensinou muito com a sua amizade participante e generosa. Sua sagacidade nos levou a fantástica descoberta do Acrobatornis fonsecai em 1994 na Bahia, gênero e espécie novos (veja AO 74), que com toda a justiça permitiu a mim homenagear esse grande e mais próximo amigo.

AO: Quando você passou a se dedicar exclusivamente à ornitologia ?

Sr. Pacheco: Em 1990 eu saí do Exército e virei uma espécie de "free-lancer" da Ornitologia. Desde então, tenho sobrevivido especialmente do trabalho em consultorias técnicas a empresas e entidades ou de bolsas de pesquisa em projetos específicos. Até 1994 havia trabalhado no Globo Ecologia, formando dupla com o meu multi-talentoso amigo Chico Pontual, e em inventários da avifauna para projetos de pesquisa na Amazônia (Mamirauá, Jaú, Amapá, Carajás e Acre). No final de 94, por indicação do Luiz P. Gonzaga e Vânia Soares Alves iniciei a revisão e atualização do livro "Ornitologia Brasileira" de Helmut Sick, que tivera sua edição interrompida com o falecimento do mestre. Foi uma incontestável honra para mim poder prestar essa homenagem ao Sick, finalizando tão importante obra. Esta tarefa plenamente gratificante (nem precisava dizer) consumiu quase dois anos de trabalho, sendo oito meses quase integrais de dedicação.

AO: Quais foram os seus grandes êxitos na ornitologia ?

Sr. Pacheco: Já pude mencionar três deles; a redescoberta de Formicivora erythronotos, a descoberta do inimaginável Acrobatornis fonsecai e a honra maior de poder revisar a Ornitologia Brasileira, obra principal de Sick. São memoráveis ainda a descrição de três outras novas espécies (todas com Luiz P. Gonzaga), uma do Rio de Janeiro em 1990 (Formicivora littoralis) e duas da Bahia em 1995 (Synallaxis whitneyi e Phylloscartes beckeri).

No âmbito das redescobertas, cito a participação nos recentes encontros do ainda enigmático tietê-de-coroa Calyptura cristata, encontrado por R. Parrini na Serra dos Órgãos em 1996, um dos meus mais constantes parceiros de campo e sem dúvida um dos melhores na identificação de aves do nosso Brasil. E finalmente, a mais recente e igualmente extraordinária redescoberta foi a da saíra-apunhalada, Nemosia rourei encontrada inicialmente pela minha querida esposa Claudia Bauer, com os seus aguçados e sortudos olhos, durante o levantamento de dados para sua dissertação de mestrado realizado no sul do Espírito Santo (ver AO 82 e 89).

AO: Quais são os seus maiores interesses na ornitologia brasileira ?

Sr. Pacheco: Tenho especial interesse na distribuição e taxonomia das aves brasileiras e na trilha disso vem a dedicação paralela à pesquisa histórica e à conservação. Neste último caso, não haveria como não participar do movimento ambientalista. Um ornitólogo de campo passa a conhecer melhor as constantes ameaças à avifauna e naturalmente deseja conservar o foco principal de seus estudos. O meu interesse declarado por vocalização e morfologia se justifica na medida em que cada vez mais invisto no processo identificatório das aves no campo. Aliás, as descobertas e redescobertas que tive a oportunidade de participar derivaram desse investimento em forma de opção metodológica.

AO: Quais são os seus desafios atuais e futuros ?

Sr. Pacheco: Nos últimos anos tenho dedicado boa parte de meu tempo na divulgação dos meus resultados obtidos no campo e espero continuar agindo nesse sentido. Estou nos últimos meses participando ativamente da criação de um fórum no âmbito da ornitologia brasileira, dedicado a investigação e análise dos erros perpetuados na literatura. Nossa intenção é divulgar cada vez mais essas falhas porventura encontradas para impedir que elas sejam disseminadas desavisadamente.

Estou cursando o mestrado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pretendo defender uma tese, orientada pelo Prof. Ildemar Ferreira, que versará sobre a história da ornitologia no Estado do Rio de Janeiro, nos últimos dois séculos.

Por fim, quero continuar trabalhando com os temas mencionados na resposta anterior e produzir nos próximos anos livros que façam a consolidação desses interesses.

 

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014