N.90 - Julho/Agosto (July/August) de 1999

 

Questões lingüísticas em ornitologia II:

Anilha ou anel; bibliografia e literatura

 

Fernando Costa Straube – Curitiba-PR

 

Algumas palavras de ampla utilização em Ornitologia, assim como em várias ciências biomédicas, parecem ainda não admitidas na língua portuguesa por faltarem nos dicionários mais conhecidos. Outras, erradamente utilizadas, acabam por receber consagração ou permanecem em uso rotineiro.

Para esta série de pesquisas utilizei duas fontes básicas da língua portuguesa conforme seu uso no Brasil: os dicionários Aurélio (Ferreira, 1986) e a versão on line do Michaelis ( http://www.uol.com.br/michaelis ). Eventualmente, para fins de comparação, consultei outros clássicos como o dicionário de Biologia de Mello-Leitão (1946) e o de Henderson (Holmes, 1985), assim como outras obras afins.

É certo que algumas palavras, especialmente as relacionadas à Etologia, quase sempre oriundas da língua inglesa (exceção: lek, do sueco, traduzida como "jogo"), encontram sérios problemas de tradução, por falta de vocábulos que sejam abrangentes e ao mesmo tempo específicos. Em vários casos, são necessárias as simples conversões (estresse versus stress) ou adequações (basking versus assoalhamento). Em outros, tais mudanças poderiam significar a alteração completa do sentido da palavra, por exemplo lek, que não poderia ser simplesmente transformada em "leque" ou, então, preening, inadmissível como "coçação".

Não quero ser radical e xenófobo como foram alguns autores do início do século, preocupados com os galicismos (que hoje foram suplantados pelos anglicismos), tal como Castro Lopes (1909) que preferiu lucivéu a abajur, runimol a avalanche, comitissa a condessa, operinsurreição a greve, premagem a massagem, ludâmbulo a turista e haurinxugo a drenagem. O objetivo destes estudos é, única e exclusivamente, um estímulo às reflexões sobre a arte da escrita, que deve ser sempre complementada com a consulta aos dicionários e obras linguística especializadas.

Constatei que os botânicos, inclusive no Brasil, estão há vários anos preocupados com toda essa problemática conceitual, sendo criadas verdadeiras comissões terminológicas (Oliveira-Babinski & Mussa, 1985) ou construídos textos para divulgação em atividades acadêmicas (Hertel, 1959; 1984). O monumental dicionário de Houaiss, tão abrangente quanto esperado, é outro motivo de esperanças, ainda mais por que, no seu corpo consultivo, integram pesquisadores em Ornitologia brasileira muito conhecidos de nós. Aos estudiosos, aí vão alguns vocábulos que selecionei e que merecem ser questionados.

 

ANILHA

Anilha é palavra importada do espanhol (anilla - sendo que o "ll " foi transliterado para "lh", equivalente clássico em português), tal como castanhola, cavalheiro, ninharia, polvilho e muitas outras. Ela é uma variação do anillo (o mesmo que anel em português), cujo gênero gramatical foi especialmente modificado para designar o anel que se coloca na perna das aves para estudos biológicos, especialmente de migração. Mas ela não aparece na maioria dos bons dicionários da língua portuguesa. Esse sentido não consta no Michaelis on line; anilha ali é um "pequeno arco ou anel chatos; arruela".

O vocábulo anel caberia muito bem para tratar do que chamamos de anilha, uma vez que se refere a "uma pequena tira circular, geralmente de metal..., que se usa nos dedos como adorno ou símbolo" (Ferreira, 1986). É claro que anilhas não são presas aos dedos das aves e é por esse motivo que outro significado da palavra vem a complementar o primeiro: "qualquer objeto ou órgão de forma circular" (Ferreira, 1986). Anel (tal como anilla) vem do latim anellus, que é diminutivo de anulus, este significando "anel (de dedo), argola..." (Ferreira, 1991).

Outra possibilidade legitimamente portuguesa é cinta (ou cinto), mas que, além de ser geralmente presa à cintura, relaciona-se mais ao suporte de algo, à sua fixação ou ajuste.

O termo cintagem, proposto por Olivério Pinto (1936), é não só interessante na questão lingüística; ele tem grande valor histórico, uma vez que se admite que, no Brasil, "...nenhuma marcação de aves está documentada até a década de 50" (CEMAVE, 1994). Publicado há mais de 60 anos, o artigo citado apareceu em um periódico pouco conhecido e ausente na maior parte das bibliotecas brasileiras, tanto que o título está ausente em quase todas as compilações bibliográficas da Ornitologia brasileira (e.g. Sick, 1997). Se lançado em revista de maior divulgação, o termo cintagem (e seu cognato: cinto), que está corretamente construído e é adequado à situação, seria utilizado, por certo, até os dias de hoje.

Apesar de consagrada, a palavra anilha encontra conflito com outra já admitida nos dicionários: anilho, que não serve-se propriamente para a questão.

 

LITERATURA E BIBLIOGRAFIA

Algumas pessoas, logo após a publicação do "Aves do Paraná" (Scherer-Neto & Straube, 1995), perguntavam o por quê de termos ali "duas bibliografias". Na realidade, a nossa lista contém apenas uma bibliografia (que consiste no capítulo 3) e uma lista de referências bibliográficas (um anexo final), que são coisas completamente diferentes. Essa dúvida é bastante comum e ainda mais comum é ver o uso incorreto dessas duas palavras e de suas tantas variantes.

Literatura é o coletivo de publicação; a literatura ornitológica do Brasil, por exemplo, compreende todos os livros e artigos publicados sobre aves brasileiras. Bibliografia é a publicação que as arrola; logo, a Bibliografia Ornitológica do Brasil é uma edição específica (ou uma série delas) que lista todos os artigos referentes àquele assunto.

Referência bibliográfica, por sua vez, é uma indicação codificada e normatizada que identifica um título, incluindo autor, ano e local de publicação.

Normalmente no final dos trabalhos científicos temos um sub-título chamado "Referências Bibliográficas", que nada mais é do que uma lista de publicações citadas no texto, contendo as devidas informações para que o leitor possa acessá-la.

Podemos associar essa questão, para fins didáticos, com listas avifaunísticas e espécies de aves. Uma composição avifaunística de determinado local (equivalente: literatura) baseia-se em uma lista (equivalente: bibliografia), composta por várias espécies (equivalente: referências bibliográficas) encontradas ali.

Na maior parte das situações, então, não é apropriado xeroxar (para essa palavra, em particular, vide Ferreira, 1986) uma referência ou uma bibliografia; copia-se um fragmento do texto, um capítulo de livro (ou ele inteiro), um artigo ou uma separata.

Agradecimentos: Sou grato a Sérgio A.A.Morato e Renato S.Bérnils pelas críticas e sugestões aos originais deste trabalho.

Referências bibliográficas

CEMAVE, 1994. Manual de anilhamento de aves silvestres. Brasília, Centro de Pesquisas para Conservação das Aves Silvestres/IBAMA. 2º ed., 146 pp.

Ferreira, A.B.de H. 1986. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1838 pp.

Ferreira, A.G. 1991. Dicionário de latim-português. Porto, Porto Editora. 1240 pp.

Hertel, R.J.G. 1959. Contribuições para a Fitologia Teórica. Humanitas 4(4):1-38.

Hertel, R.J.G. 1984. Atualização conceitual. Estudos de Biologia 9:1-18.

Holmes, S. 1985. Henderson's dictionary of biological terms. Essex, Longman Gr.Lt. 510 pp.

Lopes, D. de C. 1909. Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis com um neologico portuguez. Rio de Janeiro, Francisco Alves. 219 pp.

Mello-Leitão, C.de 1946. Dicionário de Biologia. São Paulo, Comp.Editora Nacional. 646 pp.

Oliveira-Babinski, M.E.C.B. de e Mussa, D. 1986. Problemas de terminologia morfológica e anatômica em língua portuguesa e de nomenclatura binomial de fitofósseis e vegetais atuais - relatório de debate. Bol. Inst. Geoc.USP 17:141-147.

Pinto, O.M.de O. 1936. A importância da cintagem na investigação biológica das aves. Boletim Biologico (nova série) 2(4):157-162.

Scherer-Neto, P. e Straube, F.C. 1995. Aves do Paraná: história, lista anotada e bibliografia. Campo Largo, Logos Press. 79 pp.

Sick, H. 1997. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 862 pp.

Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais. Rua Pres. Carlos Cavalcanti, 954, São Francisco. Caixa Postal 1644. Curitiba, Paraná. 80 001-970. Tel/fax (041) 322 7784; e-mail: juruva@milenio.com.br.

 

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014