ISSN 0104-2386

N.91 - Setembro/Outubro (September/October) de 1999

 

A importância da literatura especializada na criação de aves

André Nemésio – Belo Horizonte-MG

 

Como conheço melhor a literatura sobre periquitos, darei enfoque à esta, mas creio que a maior parte das informações deste artigo seja válida para o atual estágio da criação de todas as espécies de aves no Brasil.

 

Quando a revista Melopsittacus circulou pela primeira vez, em fevereiro de 1997, assinei, como editor da referida revista, um editorial que, creio, em muitos aspectos continuará sempre sendo "atual". Neste editorial destaquei a importância do conhecimento para toda e qualquer atividade humana, incluindo, obviamente, a criação de animais, as aves aí incluídas. Existem várias razões pelas quais os ingleses ainda mantêm a supremacia na criação de periquitos de exibição (por esta razão chamados, apropriadamente, periquitos ingleses) e, certamente, continuo a crer que a abundância de literatura disponível para os criadores constitui uma destas razões. Destaquei, também, que a literatura por si só não bastaria, pois os americanos do norte têm a mesma literatura que os ingleses à sua disposição - visto que falam a mesma língua - mas não o mesmo sucesso que seus colegas do outro lado do Atlântico. Entretanto, não há um único país do mundo onde haja criadores de periquitos ingleses com sucesso internacional em que não exista uma boa literatura disponível na língua nativa. Na Inglaterra e na Austrália, assim como nos Estados Unidos, o inglês é a língua oficial e é nesta língua que a maior parte da literatura especializada em periquitos está disponível. Mas os americanos do norte e os australianos não se aproveitam somente da coincidência de falarem a mesma língua dos criadores britânicos: eles também contribuem, de forma decisiva, na publicação desta literatura. O melhor livro escrito em língua inglesa, na minha opinião, The Complete Book of Budgerigars, foi publicado originalmente na Austrália, por um criador australiano, John Scoble. Se, nos Estados Unidos, não há um livro nativo da mesma envergadura que o livro de John Scoble, devemos nos recordar que a maior editora especializada em literatura para criação de animais do planeta, de salamandras a cães, tem sua sede em Neptune, New Jersey, Estados Unidos: a TFH Publications, há décadas sob o comando do Dr. Herbert Axelrod. Caso os americanos do norte fracassem em escrever excelentes livros nesta área, a TFH corrige o lapso, traduzindo para o inglês - ou publicando originalmente em inglês - livros escritos pelos maiores especialistas de outros países. Assim, podemos encontrar, publicados por esta editora, por exemplo, os livros Encyclopedia of Budgerigars, traduzido do alemão, de autoria de Georg A. Radtke, e Budgerigar Handbook, cujo original também é alemão, do autor E.H. Hart. Bons livros, embora um pouco desatualizados. A TFH Publications é a editora que publicou, recentemente, o livro de Agapornis escrito pelo brasileiro Alessandro D’Angieri. Se os melhores livros para criadores de periquitos não foram publicados ou escritos nos Estados Unidos, porém, o mesmo não pode ser dito com relação aos artigos científicos. Centenas de artigos brilhantes ou foram escritos por cientistas norte americanos ou publicados por periódicos sediados nos Estados Unidos.

 

O fato dos dois livros sobre periquitos publicados pela TFH que mencionei acima terem os seus originais em língua alemã não é coincidência. Nesta língua encontramos uma imensa quantidade de livros e artigos sobre periquitos, incluindo o melhor livro sobre periquitos, na minha opinião. Das Wellensittichbuch (literalmente, "O livro do periquito ondulado"), do autor alemão Theo Vins, é uma obra magnífica, abordando com profundidade todos os temas concernentes ao periquito australiano. É óbvio que tem seus pontos fracos, mas a qualidade do texto e das pesquisas, incluindo um aspecto que eu prezo bastante, que é a consulta e a indicação bibliográfica das consultas, tornam este livro sem precedentes na literatura mundial voltada para a criação de periquitos. É soberbo e merecia uma edição em inglês.

 

Sei que uma frase escrita no primeiro parágrafo pode ter levado o leitor mais atento a uma posição de desacordo. Quando eu disse que nenhum país do mundo com criadores de renome internacional carecia de literatura especializada abundante, muitos podem ter se lembrado que os periquitos brasileiros têm boa reputação no exterior, assim como muitos criadores, embora praticamente inexista uma literatura especializada nesta terra tupiniquim. Iniciando na década de 1970, temos o Reginaldo Lopes Rendeiro e, de 1980 para a frente, Renato Uchôa, José Alberto dos Santos, Ênio Cunha, Jorge de Pina, Sérgi Cunha e, mais recentemente, Rolli Bruch e Ruy Henry Isaack, produziram periquitos capazes de disputar, em pé de igualdade, qualquer competição no hemisfério norte. É bom observar, entretanto, que todos estes criadores têm boa fluência na língua inglesa, à exceção de Rolli Bruch que, em compensação, é fluente na língua alemã e um dos poucos criadores brasileiros que pode se dar ao luxo de ler o fantástico livro de Theo Vins.

 

No entanto, aos menos afortunados que não lêem livros em inglês ou alemão, a literatura disponível era, até o lançamento da revista Melopsittacus, virtualmente inexistente. Alguns criadores dirão que encontraram em livrarias um livro intitulado "O Periquito Australiano", de autoria de Mauro de Mello Mattos, publicado pela Ediouro. Para não me alongar muito nos comentários sobre este livro, digo que até o nome científico do periquito australiano está errado no livro. Só gasto espaço citando este livro porque, infelizmente, ele esteve à venda por muitos anos e muitas pessoas o adquiriram. Às vezes me telefonam para dizer que leram isto ou aquilo no referido livro mas não obtêm sucesso. Aos que já conhecem meus escritos, o comentário a seguir não causará espanto, visto que tenho o hábito de ser bastante sincero e objetivo: "se você é um dos infelizes que adquiriu o livro do Sr. Mattos, faça um favor a si próprio e aos seus periquitos - jogue o livro no lixo!". Assim ele não causará nenhum dano. As pessoas que escrevem devem ter um mínimo de compromisso com a ética, visto que, se foi escrito, certamente outras pessoas lerão. A informação equivocada pode levar o iniciante a cometer graves erros, muitas vezes sacrificando as aves, devido à incompetência de quem divulgou tal informação. Este é o caso do referido autor, com todo o respeito que me merece. Outra obra publicada em português sobre periquitos é o livro "O periquito e seus cuidados", de Ademir Eugênio Lopes. Embora menos ruim que o anterior, também deve ser evitado.

 

Como criticar somente é atitude, na pior das hipóteses, covarde, decidi dar minha contribuição à literatura especializada em periquitos editada em língua portuguesa. A revista Melopsittacus, que começou a circular em 1997, veio ocupar um pedaço deste espaço. Artigos sobre genética, nutrição, doenças, fisiologia, comportamento, reprodução e criação de periquitos estão disponíveis nas revistas. Entretanto, no segundo semestre de 1999 a revista Melopsittacus deixou de ser especializada em periquitos australianos e tornou-se uma revista de ornitologia e ornitofilia, embora tenha mantido o nome e o estilo.

 

Além da revista, publicamos dois livros neste período. O primeiro, "Herança de cores no periquito australiano" é, como o título indica, um livro especializado em genética, nos mecanismos da genética de cores dos periquitos. Foi uma primeira tentativa que, acredito, foi válida. Há ainda pontos a serem aperfeiçoados, obviamente, mas a intensa pesquisa - mais de 70 referências bibliográficas utilizadas - garante certa credibilidade e fidelidade nas informações. Finalmente, em novembro de 1998 publicamos "O periquito australiano - vida selvagem & criação em cativeiro", um antigo projeto, com cerca de 350 páginas, incluindo fotografias em cores, mais de 120 referências bibliográficas, a esmagadora maioria oriunda da área científica. A parte de "vida selvagem", que trata da biologia do periquito silvestre, na Austrália, mostrando a origem de vários comportamentos exibidos em cativeiro, é a mais ampla já publicada em um livro voltado para criadores. São quase 80 páginas dedicadas exclusivamente a este tópico. Na minha opinião este é, realmente, o ponto mais forte do livro. Nenhum outro livro abordou este tópico com tal profundidade, nem mesmo os ingleses e alemães acima mencionados. A segunda parte do livro, "criação em cativeiro", paradoxalmente a mais elogiada pelos leitores - talvez porque minha formação como biólogo faça-me ter maior interesse pela vida selvagem - compreende aspectos como nutrição (incluindo uma discussão muito profunda e cientificamente embasada sobre as farinhadas comerciais, as quais faço várias críticas), doenças, manutenção em cativeiro, criação e manejo e participação em exposições. Tomei o cuidado de inserir um glossário ao final de cada um dos livros, para auxiliar os leitores com os termos técnicos mais difíceis. Reconheço que o glossário do segundo livro poderia ser mais abrangente.

 

No entanto, somente estas iniciativas não bastam. E não basta também que haja várias obras publicadas, mas de somente um autor. Outros autores, com outra linguagem, com outros pontos de vista, são sempre bem vindos e é o debate de idéias que amplia o conhecimento. A publicação das revistas e dos livros, mais que disponibilizar a literatura especializada em língua portuguesa, demonstrou a quem quiser ver que é possível fazer. É possível publicar algo de qualidade, tanto do ponto de vista do conteúdo quanto do ponto de vista gráfico, no Brasil. É nítido observar que, até mesmo a revista oficial da FOB, a Brasil Ornitológico, incorporou algumas de nossas inovações. Basta comparar as revistas publicadas antes e depois do lançamento da Melopsittacus. E isto é ótimo.

 

É importante, também, que se publique mais artigos sobre periquitos em outros órgãos de divulgação. São muito poucas as matérias publicadas na Brasil Ornitológico, no Atualidades Ornitológicas, na revista Pássaros, etc, sobre periquitos. Recentemente a revista Animal Pet – que não é especializada em aves, publicando artigos sobre cães, gatos, peixes, répteis e anfíbios – abriu uma seção sobre periquitos, para a qual tive o prazer de ser convidado a escrever uma série de artigos. Por outro lado, retorna-se ao ponto anterior, de se ter somente um autor escrevendo sobre o tema. É preciso que os criadores comecem a escrever e a dividir suas experiências. Além disto, é necessário abrir novos espaços, inclusive nos locais mais óbvios. Exemplo: atualmente, o maior torneio de periquitos em nosso país é o BW do Brasil Show. No entanto, o catálogo deste evento, durante as dez primeiras edições, não publicou um artigo sequer voltado para os criadores. Vez por outra, raramente, sai algo escrito por um juiz inglês que veio julgar a BW. Entretanto, erraram os que acharam que é um artigo útil para os criadores. Estes "escritos" - recuso-me a chamá-los de artigos - são, simplesmente, linhas com comentários favoráveis aos periquitos criados pelo promotor do evento (veja, por exemplo, os comentários feitos pelo Sr. Michael Holland no catálogo do 10° BW do Brasil Show). Os catálogos, graficamente de péssima qualidade, diga-se de passagem (aliás, têm piorado a cada ano que passa, o da 10ª BW tendo sido o pior deles - até o ridículo da capa ser muito maior que as páginas do "miolo". Literalmente, um lixo!), muito poderiam contribuir para os criadores, visto, inclusive, que poderiam ter sido a única fonte de informação para os criadores durante grande parte desta década, antes da Melopsittacus começar a circular. No entanto, a promoção do evento, burramente, enche o catálogo de anúncios (que poderiam ocupar espaço muito menor, como ocorre nas revistas inglesas Budgerigar World, The Budgerigar, na alemã Wellensittich e na brasileira Melopsittacus, sobrando muitas páginas para bons artigos). Mas é que a história se repete, parece que há alguns que sempre preferem que os iniciantes sejam, eternamente, ignorantes. Como não compartilho desta idéia, continuarei a escrever e publicar!

 

Depto. de Zoologia, Universidade Federal de Minas Gerais. Caixa Postal 1474 – Belo Horizonte - MG - CEP:30.123-970. E-mail: nemesio@dedalus.lcc.ufmg.br

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014