ISSN 0104-2386

N.92 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1999

 

Entrevista com

Artur Galileu de Miranda Coelho

Galileu Coelho (rua Gastão Villarim, 42 Ap.202, Jardim Atlântico, 53140-320 Olinda-PE – Fone 081-4323085), como é mais conhecido, tem 55 anos, é naturalista, e foi o primeiro aluno do Prof. Helmut Sick. Em dezembro de 1999 concedeu, nas dependências da Universidade Federal de Pernambuco, esta entrevista para AO.

AO: Como surgiu seu interesse pelas aves?

Galileu Coelho: Desde menino me interessei pela Natureza. Colecionava dentes de peixes, formigas, insetos etc.dentro de caixa de fósforos aos 7 anos. Aos 12 gostava de observar as aves no colégio São Bento, onde estudava em Olinda. Em 1964 já começava a cursar História Natural, em Recife. Sempre me interessei por aves, mas naquela época não havia curso específico de ornitologia. Tive que fazer estágio em entomologia. Em 1968 o Prof. Dárdano de Andrade Lima, da Universidade Federal, reunindo ex-alunos, resolveu criar um grupo de Ecologia e me convidou para fazer parte dele. Coincidentemente, no ano anterior, o Prof. Helmut Sick havia passado por Recife e dado um curso sobre ornitologia, explicando a taxidermia etc. Naquela época a Laíse de Holanda Cavalcanti se interessou inicialmente pela ornitologia, depois preferindo se dedicar ao que mais queria e que hoje faz, o estudo dos mixomicetos. Com a minha chegada ao grupo e com algum conhecimento sobre aves que já tinha, recebi da Laíse todo o material que ela havia obtido do Dr. Sick e comecei a estudar mais as aves. Depois surgiu a oportunidade de fazer um estágio no Rio. De junho de 1969 a fevereiro de 1970 fiquei com o Dr. Sick (só agora estou sabendo que fui o primeiro aluno dele).

AO: Como foi seu relacionamento com o Prof. Sick?

Galileu Coelho: Para espanto do pessoal do Museu Nacional, que considerava o Dr. Sick muito fechado, sem muita comunicação, o meu relacionamento com ele foi muito bom. Alguns se admiravam: "É verdade que o Dr. Sick lhe explicou como se faz o registro de canto?" ou "Ele lhe mandou mesmo, no lugar dele, para Abrolhos, para fazer o levantamento da área?"

Tive o melhor relacionamento possível com Sick. Inicialmente ele me pediu para fazer um levantamento da coleção do Museu. Oportunamente ele viajava, mas na maior parte do tempo ele estava comigo. Mostrava-me bibliografias etc. Por ocasião do estudo em Abrolhos, ele precisava também viajar para Alemanha. Então ele me deu toda a orientação para a pesquisa. O trabalho depois foi publicado, tornando-se um dos primeiros em termos de aves e o primeiríssimo com relação ao Phaethon aethereus "rabo-de-palha", que ele faz muitas referências no "Ornitologia Brasileira". Uma coisa notável no ornitólogo é isso: se você dá uma informação, mesmo verbal, por telefone, ele registra e dá o crédito a você. E não é bem isso que se vê hoje – coisas estranhas acontecem por ai e não se pode nem falar...

AO: Do ponto de vista prático, como foi seu aprendizado com ele?

Galileu Coelho: Outra oportunidade interessante foi uma viagem que fizemos juntos para conhecer as regiões dos pinheiras do Brasil, indo até São Joaquim-SC; fomos eu, ele, sua esposa dona Margarida e Olmirio Roppa (motorista e coletor). Esta viagem foi fundamental para mim. Foi uma das coisas mais importantes que eu tive com Sick. Eu estava com ele, em todo momento, conversando, no campo; valeu quase que pelo estágio todo. Tive a oportunidade de ver com ele os dados do Cinclodes pabsti espécie que ele estava descrevendo e não tinha todos os dados. Eu fotografei a ave e o ninho. Também tive a oportunidade de visitar uma área bem interessante no interior do Paraná, de um holandês amigo dele, chamado Dubbs. Ficamos lá por uns três dias. Com um bom gravador National, gravava as vozes das espécies e depois ele explicava cada uma. Mostrava o canto de medo, de advertência etc. Fez muitas gravações. Daí o meu interesse por bioacústica até hoje. Eu identifico razoavelmente as espécies pelo canto. Teve um fato interessante: ele estava observando uma ave e anotou alguma coisa ali, um canto de medo. Só que ele não viu a presença de um gavião. Alguns meses depois eu falei sobre o gavião e ele se interessou pela hora etc. Fomos olhar os registros e ele vibrou muito, pois ele estava registrando pela primeira vez o canto de uma ave e identificou o canto de medo mesmo sem ter visto o fator que estava causando aquele medo. Em Barreiro Rico, interior de São Paulo, numa fazenda, propriedade de José Carlos Magalhães, ornitólogo amador, entramos na mata, à noite, para pesquisar o gênero Otus. O Sick estava com a gravação de um Otus watsonii da Venezuela, para atrair a Otus atricapillus; ela apareceu, o Roppa atirou, ele taxidermizou. Houve uma polêmica, pois o Hardy, especialista em corujas, não acreditava que essa espécie existisse no Brasil. Como eu fiz a gravação dela (o Sick havia usado o gravador dele para atrair), o Hardy, depois de ouvir o que gravei, passou a aceitar definitivamente o fato. Uma coisa que não esqueci naquele dia. Pela primeira vez fiz o Sick ter raiva de mim. Eu estava cercado de mosquitos e, para espantá-los, usei um galho de árvore. Tentando gravar a coruja, o Sick disse: "Ah, por que faz tanto barrulho?" A partir da bronca, tive que agüentar as picadas em silêncio...

Também tive a oportunidade de ver, pela primeira vez, o Sick chorar. Quando visitamos em Blumenau-SC, outro amigo do Sick, chamado Huldof Schadrak, havia na sua propriedade um pequeno cervo, na verdade uma fêmea em cio. A esposa do Sick, sem saber, foi brincar com ela e foi agredida, sofrendo uma fratura da rótula. Atendida prontamente em um hospital de alemães em Blumenau, foi operada do joelho. Sick estava se despedindo dela para prosseguir viagem conosco e foi ai que o vi chorando. Depois seguimos até perto de Vacaria, no RS. Essa viagem foi muito proveitosa. Aprendi muito com a sua perspicácia, sua abnegação, seu cuidado, seu interesse. Como ele, já me perdi muitas vezes na mata. Quando escuto um canto vou atrás. Sobre ele existem vários relatos de ficar perdido na Amazônia. Eu aprendi isso com ele...

AO: Depois do estágio, como foi seu relacionamento com o Dr. Sick?

Galileu Coelho: Depois do estágio com Sick, continuamos a nos corresponder. Ele veio aqui em Pernambuco uma vez em 1979, quando passou pelo Raso da Catarina, junto com Dante e Gonzaga, e vieram aqui em Recife. Convidei-o para ir lá em casa e descobri que o Sick tinha dois hobbies: um era colecionar "Filosofia de pára-choques". Isso nunca foi divulgado. Eu sempre anotava, quando estava nas estradas, as frases dos pára-choques de camihões e enviava para ele. Consegui bastante quando fui de carro, por duas vezes para S.Paulo, fazer o mestrado com o Vanzolini. O outro hobby descobri quando ele conversava com minha esposa e manifestou o desejo de conhecer igrejas em Olinda. Ela disse: "A maioria das 32 igrejas de Olinda, incluindo os nichos, se encontra fechada para visitas, porque hoje é domingo". Mas ela foi criada ali e conhecia todo mundo. Conseguimos visitar umas10 igrejas e nelas ele ficava maravilhado, anotava alguma coisa e mostrava ser um grande conhecedor da arte. Conseguimos entrar na Capela Dourada do Convento de S.Francisco, onde poucos conseguiram visitar. Ele ficou maravilhado.

Sempre nos correspondíamos e mantínhamos certa intimidade, nunca deixando de trocar os cartões de Natal. Tenho ainda cartas dele onde me faz algumas advertências sobre algumas pessoas (do Brasil e de fora) que lhe pedem informações e que depois as publicam, como se fossem deles.

Depois do curso de especialização com o Dr. Sick, voltei para Recife e continuei no Departamento de Ecologia e comecei a dar aulas. Depois começamos também a fazer excursões e depois pesquisas. Começamos a coletar material com rede de captura. Uma vez aconteceu um fato interessante. O pessoal de São Paulo falou para o Dr. Dárdano que o Dr. Helio Camargo e seu pessoal gostaria de sair com o Galileu e viria com uma novidade para coleta de material, uma rede especial etc. E o Dr. Dárdano disse: "Só que já faz dois anos que ele usa essas redes"....

AO: Como está o trabalho da Universidade de Pernambuco?

Galileu Coelho: Com o início das coletas, começamos a fazer a coleção. Fazíamos as excursões e começamos a conhecer as aves do nordeste, especialmente as da Mata Atlântica. Até 1988 tínhamos cerca de 1200 peles. Só que eu nunca fui de matar os bichos. No início fazíamos mais. Levávamos numa mala as peles para o Vanzolini ou Hélio Camargo para , por comparação, identificarmos algumas espécies. Meu interesse é memorizar a voz, identificando a espécie sem necessidade de matar.

Com a chegada do José Maria aqui, estamos organizando todo o acervo. Já temos quase duas mil peles na coleção correspondendo a mais de 300 espécies. Estamos atualizando o check-list das nossas aves e imagino que chegaremos a pouco mais de 400 espécies.

AO: Sobre a descoberta do Antilophia bokermanni?

Galileu Coelho: Foi realmente surpreendente e emocionante. Ela passou desapercebida por uma dezena de ornitólogos que visitaram a chapada do Araripe e foi a sua vocalização diferente que nos fez prestar mais atenção e explorar o sítio, bastante íngreme, onde a espécie vive. Creio que a emoção do Weber Silva foi ainda maior, pelo fato de ser iniciante em Ornitologia, no momento em que nos deparamos com uma Antilophia branca.

AO: Como você vê a atual ornitologia brasileira e quais as perspectivas futuras?

Galileu Coelho: Vejo com esperança e entusiasmo, pelo interesse maior que tem despertado especialmente nos novos talentos que surgem, de modo que antevejo um real incremento da Ornitologia no Brasil.

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014