ISSN 0104-2386

N.92 - Novembro/Dezembro (November/December) de 1999

 

GALLERIA BIOGRAPHICA IV

O Professor Wilhelm Behn (1808-1878) e a Ornitologia Brasileira

 

José Fernando Pacheco – Rio de Janeiro-RJ

O Professor Wilhelm Friedrich Georg Behn é um dos menos mencionados naturalistas que excursionaram pelo Brasil. Os mais curiosos, não teriam dificuldade em descobrir que três espécies ou subespécies de aves perpetuam o seu nome. Exemplo melhor disto é Myrmotherula behni, cuja população privativa do "Pantepui Venezuelano" atinge os limites setentrionais do Brasil, na fronteira norte de Roraima; as outras duas seriam Brotogeris versicolurus behni e Trogon curucui behni, ambas descritas da Bolívia.

Os poucos dados biográficos de W. Behn fornecidos a seguir foram sumarizados sobretudo a partir de consulta a obra de Gebhardt (1964:29). Ele nasceu em 25 de dezembro de 1808, em Kiel, e faleceu em 14 de maio de 1878 em Dresden. Depois de realizar os estudos médios em Göttingen e Kiel se aperfeiçoou, em seguida, em Berlim e Paris, onde graduou-se em 1837. Quando era Diretor e Professor do Instituto de Anatomia e do Museu de Zoologia, em Kiel, foi comissionado pelo Rei da Dinamarca Cristiano VIII para integrar a equipe zoológica da corveta Galathea, que empreenderia viagem ao redor do Mundo.

Em seu retorno à Europa, três anos depois, reassumiu o mesmo cargo de Professor de Anatomia e Zoologia em Kiel. Suas obrigações acadêmicas adiaram constantemente o desejável estudo do material zoológico reunido durante a viagem do Galathea. Em 1865/66 atingiu o posto de Reitor da Universidade de Kiel. Com a anexação do Ducado de Schleswig-Holstein (do qual Kiel era a sede) pelo Império Prussiano, algumas divergências políticas culminaram na sua transferência para a Deutsche Akademie der Naturforscher Leopoldina, em Halle.

Behn e o Brasil

Suas conexões com a ornitologia brasileira podem ser com algum esforço resgatadas; pois, ele próprio nada publicou a respeito dos resultados científicos de sua expedição pela América do Sul. W. Behn dentre os zoologistas que expedicionaram com a corveta dinamarquesa Galathea fora companheiro do jovem compatriota Johannes Theodore Reinhardt (1816-1882). Este melhor conhecido entre nós por sua associação com o célebre Peter Lund, com quem convivera por oito anos e por seu livro de 1870 "Contribuição ao conhecimento da fauna ornitológica dos campos do Brasil" (Pinto 1979:107, 115). Este livro em dinamarquês é a fonte clássica mais rica e importante da ornitologia de Minas Gerais.

No porto de Cobija, em 23 de fevereiro de 1847, Behn e um assistente desembarcaram da Galathea para uma travessia por terra do Pacífico ao Atlântico, superando os Andes e todo o Planalto Brasileiro (Pelzeln 1871:396). Este porto, e ponto de partida (hoje, Antofagasta), representava o único acesso boliviano ao mar, que seria perdido em batalha para o Chile em 1884.

Sabe-se ainda que Carl Emil Kiellerup (1822-1908) fora o entomologista da expedição da Galathea, mas parece que nem ele tampouco Reinhardt acompanharam Behn em sua travessia por terra (Pelzeln, op. cit., Papavero 1973:363).

A partir das localidades mencionadas por Leverkühn (1889) para algumas aves coletadas nesta travessia oeste-leste, Vanzolini (1993) recuperou em linhas gerais o itinerário e o plotou em mapa, após interpretar as cacografias dos topônimos.

Em território brasileiro, Behn viajou de julho (ou final de junho) até dezembro de 1847 quando atingiu o Rio de Janeiro, capital do então Império. Palmilhou confirmadamente os atuais estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro; enquanto, pode ter percorrido Mato Grosso do Sul e São Paulo, apenas especulativamente (Vanzolini 1993). O período de permanência no Rio de Janeiro, por sua vez, precisa ser ainda determinado.

Nada foi dito sobre sua passagem naturalística pelo Brasil em algumas das fontes referenciais mais importantes: Garcia (1922), Mello Leitão (1941), Pinto (1979) e Sick (1997). Igualmente, as resenhas circunstanciadas a respeito das investigações ornitológicas nos estados de Mato Grosso (Naumburg 1930) e Minas Gerais (Pinto 1952) nada mencionaram sobre a iniciativa de Behn. Entretanto, Hellmayr (1908) registrou o seguinte comentário quando passou em revista as iniciativas ornitológicas empreendidas no Estado de Goiás:

"Professor Behn, of Kiel, traversed the State of Goyaz from west to east, and seems to have secured a considerable series of birds which, however, have never been properly studied"

O sábio Hellmayr tinha razão, pois além do já mencionado artigo de Leverkühn (1889) apenas outro (Berlepsch & Leverkühn 1890) tratara analiticamente de exemplares adicionais provenientes da atividade de Behn, dentre outros. Algumas das localidades presentes neste segundo artigo deixaram de ser contempladas no itinerário organizado por Vanzolini (1993), embora algumas delas (identificadas aqui por *) tenham sido motivo de estudo prévio do próprio autor (Vanzolini 1992). De interesse do trecho brasileiro - com as respectivas datas relativas ao ano de 1847 – estão mencionadas em Berlepsch & Leverkühn (1890) os seguintes pontos de coleta: Lavrinhas, MT* (30 ago), Pontinho, MT* (1 set), Jatubá, MT* (7 set), Araguaia, MT/GO (14 set), Goiás, GO (28 set), Jaraguá (9 out), Maria Rosa, GO* (23 out), Monte Alegre (data adicional de 31 out) e Santa Maria, GO (3 nov).

colecionamento de aves

Não foi possível encontrar registro na literatura que informasse o número total de peles coletadas por Behn e seu assistente durante a expedição sul-americana. Aparentemente, o conjunto principal de exemplares deve ainda encontrar-se em Kiel, mas isso não é definitivo. Um manuscrito parcial de Adolf Schneider (veja Pacheco & Bauer 1995) sobre as aves do Rio de Janeiro e Espírito Santo indica que existiriam peles originárias da expedição de Behn e da Galathea depositadas também no Museu Zoológico de Berlim. Deste conjunto de menções inéditas de Schneider destacam-se entre as espécies originárias do "Rio" algumas preciosidades como os cotingídeos Calyptura cristata (3 exemplares ), Iodopleura pipra (2) e Cotinga maculata (1).

Há registro também, através de anotações marginais em manuscritos, que Helmut Sick haveria também examinado exemplares brasileiros coletados pelo Prof. Behn durante sua visita à Alemanha, em 1978.

Como última relevância, consta que a única ave cuja descrição válida se baseou em exemplar coletado por Behn no Brasil seria a subespécie da ariramba Brachygalba lugubris melanosterna Sclater 1855, capturada nos arredores da histórica cidade de Goiás, antiga capital da então província homônima.

É recomendável que um levantamento orientado dos exemplares e documentos remanescentes da expedição do Prof. Behn pelo Brasil, sobretudo nas instituições alemães, seja executado a fim de se resgatar as informações ornitológicas relevantes dessa importante iniciativa.

 

Referências:

Berlepsch, H. v. & P. Leverkühn (1890) Studien über einige südamerikanische Vögel. Ornis, Internationale Zeitschrift für die gesammte Ornithologie 6:1-32.

Garcia, R. (1922) Historia das explorações scientificas. Pp. 856-910. In: IHGB, Diccionario Historico, Geographico e Ethnographico do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional.

Gebhradt, L. (1964) Die Ornithologen Mitteleuropas. Ein Nachschlagewerk. Berlin: Brühlscher Verlag Giessen.

Hellmayr, C. E. (1908) An account of the birds collected by Mons. G. A. Baer in the state of Goyaz, Brazil. Nov. Zool. 15:13-102.

Leverkühn, P. (1889) Südamerikanische Nova aus dem Kieler Museum. J. Orn. 37:101-109.

Mello-Leitão, C. (1941) Historia da expedições científicas no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

Naumburg, E. M. B. (1930) The birds of Matto Grosso, Brazil. A report on the birds secured by the Roosevelt-Rondon Expedition. Bull. Amer. Mus. Nat. Hist. 60:1-432.

Pacheco, J. F. & C. Bauer (1995) Adolf Schneider (1881-1946). Alguns dados sobre a vida e a obra do chefe da expedição de 1939 do Museu de Ciências Naturais de Berlim que trouxe Helmut Sick para o Brasil. Atualidades Orn. 65:10-13.

Papavero, N. (1973) Essays on the history of Neotropical Dipterology, with special reference to collectors (1750-1905). Vol. II. São Paulo: Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo.

Pelzeln, A. von (1871) Zur Ornithologie Brasiliens. Wien: Pichler’s Witwe & Sohn.

Pinto, O. M. O. (152) Súmula histórica e sistemática da ornitologia de Minas Gerais. Arq. Zool., São Paulo 8(1):1-52.

Pinto, O. M. O. (1979) A ornitologia do Brasil através das idades (século XVI a século XIX). São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais. (Brasiliensia Documenta XIII).

Sclater, P. L. (1855) Remarks on the arrangement of the Jacamars (Galbulidae), with descriptions of some new species. Proc. Zool. Soc. London, pp. 13-16.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Edição revista e ampliada por J. F. Pacheco. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.

Vanzolini, P. E. (1992) A supplement to the Ornithological Gazetteer of Brazil. São Paulo: Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo.

Vanzolini, P. E. (1993) South American localities of the Danish "Galathea" expedition. Pap. Avuls. Zool., São Paulo 38(6):91-93.

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014