ISSN 0104-2386

N.93 - Janeiro/Fevereiro (January/February) de 2000

 

A admirável redescoberta de Calyptura cristata por Ricardo Parrini no contexto das preciosidades aladas da Mata Atlântica

 

José Fernando Pacheco e Paulo Sérgio Moreira da Fonseca – Rio de Janeiro

Gravura do livro "Le Jardin des Plantes" de Emmanuel Lemaout, editado por L. Curmer, Paris, 1843. Nele há um pequeno texto sobre Calyptura cristata, na época Pardalotus cristatus, Viellot, ou como dito em Francês, Le Pardalote Huppé. Ao pé da prancha está escrito: "Pardalote Huppé, tué par une mygale ou araignée-crabe, sur une tige de bambou. Papillon Ascagne, posé sur un passiflore."Ou: "Pardalote com crista, morto por uma aranha-caranguejeira, sobre um colmo de bambu".

Casal de Tietê-de-coroa, Caluptura cristata (macho à esq.) - Ilustração de John P. O’Neill

"Confirming the continued existence of the Kinglet Calyptura (…) would cause much excitement in the ornithological world, and is the greatest prize yet awaiting the growing cadre of field ornithologists in se. Brazil” (Ridgely & Tudor 1994, The birds of South America, p. 737) 

Esta é uma história que ainda não terminou. Para iniciá-la temos que ir um pouco longe, no começo do século XIX.

Como sabemos, a entrada de estrangeiros no Brasil era vedada até a chegada de D.João VI e a corte portuguesa ao Brasil, em 1808. Até então, o Brasil era por vezes referido como terra ignota, tal o grau de desconhecimento do seu território. A abertura dos portos e a permissão para que viajantes estrangeiros aqui aportassem acarretou naquele século que o conhecimento científico de nossas riquezas naturais experimentasse um crescimento fabuloso – por ex.: a maioria das espécies conhecidas de nossas aves foi descrita neste período –, se comparado ao saber acumulado desde o descobrimento, onde as iniciativas contavam-se nos dedos das mãos.

Melhor dito, do conhecimento anterior, destacam-se a experiência dos holandeses no Nordeste, onde Georg Marcgrave (1610-1644) foi a figura de relevo, e as expedições de Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), na Amazônia e Centro-Oeste, na segunda metade do sec. XVIII. No que diz respeito às nossas aves, afora as descritas por Lineu, com base nos relatos de Marcgrave e as descritas por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire e Louis Jean P. Vieillot, com base nas peles coletadas por Alexandre Rodrigues Ferreira - e surrupiadas do Museu da Ajuda, em Lisboa, por ocasião da invasão napoleônica -, a maior parte do conhecimento, em termos de descrição de espécies novas, foi realizado após a permissão para a vinda de estrangeiros, concentrada no sec. XIX.

Dentre as centenas de espécies de aves então descritas, três peculiares espécies coletadas no Rio de Janeiro são o foco de nosso artigo. São elas, Formicivora erythronotos – o Papa-formigas-de-cabeça-negra (Veja AO 83) , Nemosia rourei – a Saíra-apunhalada (veja AO 82 e 89) e Calyptura cristata, o Tietê-de-coroa. Guarde estas informações que já voltaremos a elas.

Vamos agora avançar bastante no tempo, até meados dos anos 1980. Esta é a década que se destaca na história da ornitologia brasileira, pela edição do livro Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick e pela fundação de vários núcleos estaduais do Clube de Observadores de Aves. O livro do Prof. Sick é um divisor de águas, pois além de ser um livro texto sobre ornitologia, trazia um tratamento globalizante de nossa avifauna, com uma riqueza inédita de informações e uma alta qualidade literária que desencadeava o interesse do especialista e do leigo.

Se juntarmos grupos de jovens estudantes e outros entusiastas de nossa natureza, locais de reunião para palestras e troca de experiências, excursões ao campo e um bom livro texto temos os principais ingredientes para a difusão do conhecimento da nossa riquíssima avifauna para além dos poucos centros de pesquisa de nossas aves, centrados em também poucos museus. A investigação ornitológica da avifauna do Brasil, até o advento do livro do Prof. Sick, era ocupação de pouquíssimos profissionais e de ainda mais escassos amadores.

Com a fundação do COA – RJ, em janeiro de 1985, um grupo de profissionais e amadores passou a constituir um ativo núcleo, inicialmente dedicado ao estudo das aves do Estado. Era motivo de orgulho dos associados contar com a participação do Prof. Sick em muitas das reuniões. Nas inúmeras saídas a campo, as conversas em torno das três espécies desaparecidas desde. o séc. XIX, era uma constante nas incontáveis horas passadas nas trilhas e estradas. Sonhávamos que a qualquer momento nos defrontaríamos com uma delas.

Não estávamos convencidos da extinção de Calyptura e de Formicivora (então Myrmotherula), uma vez que seus citados habitats ainda estavam relativamente preservados no Estado, e de Nemosia tinhamos de concreto, além do trabalho de descrição da espécie em 1870, apenas a informação proveniente do registro de Sick, no Espirito Santo em 1941, sobre um bando avistado em Limoeiro-Jatiboca, ES, registro este reconhecido apenas mais tarde (1976!) quando o professor se deu conta do que havia visto. Não vamos falar agora de Formicivora, nem de Nemosia, que o próprio AO "já fez uso da palavra" e que contam hoje com um conjunto de informações sobre aspectos de suas respectivas biologias que várias aves melhor conhecidas há mais tempo ainda não amealharam. Vamos falar hoje sobre a admirável redescoberta de Calyptura cristata, mais de 100 anos após terem sido coletados os últimos (por volta de 1890) dos 45 exemplares que se conhecem da espécie. Um número expressivo de exemplares que demonstra que, ao menos, 150 anos atrás Calyptura não deveria ser incomum nos habitats próximos ao Rio de Janeiro, como ressaltara a última edição do Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas, o Red Data Book.

A redescoberta de Parrini

“Rara avis in terris”. Do Latim ‘Ave rara na terra’, que serve para exprimir, em mais de um sentido, o que é singular como Calyptura.

Parece que foi ontem ! Estão fortes ainda as recordações daquela tarde do dia 27 de outubro de 1996 quando um de nós (Pacheco) espalhou para um pequeno grupo de colegas a mais "veementemente aguardada" notícia ornitológica do século: a redescoberta de Calyptura cristata.

O parágrafo anterior parece pautar-se no exagero, mas isso não é nada se comparado aos 20 anos de expectativas acumuladas pelo grupo.

O telefonema de Ricardo Parrini era desafiador, como uma charada. Visivelmente, não queria sugestionar; preferia, Parrini, levar o interlocutor à mesma conclusão que chegara. Partindo de um relato minucioso dos detalhes observados que aos poucos haviam surgido diante dos seus olhos, naquele mesmo dia pela manhã, ele conseguiu o queria. Em pouco tempo, ficou claro que ele queria dizer que havia encontrado Calyptura. Sim, aquela criaturinha (de apenas 7,6 cm de comprimento !) que tantas vezes aguçou o sonho dos observadores de nossa geração. Ir ao encalço dessa avezinha enigmática – desconcertantemente desaparecida há mais de um século – tornara-se o mais excitante e desejado prêmio dos observadores de aves que percorrem o Rio de Janeiro.

Como havia acontecido com o episódio de redescoberta, em 1987, da Formicivora erythronotos, Pacheco apressou-se em combinar com Ricardo uma visita ao local do encontro o mais breve possível, mobilizando um grupo de colegas. Diferentemente daquela redescoberta, quando o casal Fernando e Cacilda Carvalho (ele, engenheiro e ela, geóloga), sócios do Clube de Observadores de Aves, haviam observado algo muito suspeito, mas ainda dependente de uma confirmação – o relato da redescoberta de Parrini (embora recheado de cautela) era o mais concreto possível e não poderia ser diferente. Ricardo é um dos mais aplicados e cuidadosos observadores de aves brasileiras da atualidade. O seu talento, aliado aos anos de experiência e estudos já acumulados, fazem dele uma das grandes estrelas dessa atividade, no nosso entender. Ele é sem dúvida uma virtuose no domínio da arte de encontrar e identificar as aves no campo. Trata-se de uma faculdade proveniente, sem dúvida, de anos de investimento e dedicação. No caso particular de Parrini isto está aliado também a uma notável aptidão natural.

Foram contactados naquele mesmo dia e puderam ir logo no dia seguinte os colegas, ornitólogos e observadores, Luiz P. Gonzaga, Carlos Eduardo Carvalho, Claudia Bauer e Glória Denise Castiglioni. O protagonista do episódio, Ricardo Parrini também pode nos acompanhar para mostrar o local exato. Ele havia visto dois indivíduos na manhã anterior, na copa de uma árvore na encosta da Serra dos Órgãos, num local de nome jocoso chamado "Buraco da Sunta". Esse local é acessado por um caminho empedrado de um condomínio particular que começa exatamente na famosa "curva do Garrafão". Essa curva é a mais fechada das muitas curvas da estrada Rio-Teresópolis e fica logo após um grande posto de gasolina também chamado Garrafão.

Nesse dia 28 de outubro, chegamos às 6:20 e nos plantamos num ponto dessa estradinha que pudesse ver a copa da árvore em que se deu a redescoberta. Entretanto, uma forte chuva e uma espessa neblina, durante toda a manhã, impediram observar qualquer coisa com clareza na copa.

No dia seguinte, 29, o mesmo grupo de pessoas retornou ao mesmo ponto no mesmo horário. O tempo havia melhorado para o nosso alívio e contávamos com a valiosíssima informação do Parrini de que a "avezinha passara voando numa certa direção às 6:30h e pousado numa determinada copa", que nos foi indicada. Para a nossa surpresa, exatamente nesse mesmo horário algo muito pequeno (diga-se melhor ‘um passarinho de mínimas proporções’) cruzou o mesmo "espaço aéreo" e pousou por poucos segundos na mesma árvore em que Parrini havia observado dois dias antes. Logo em seguida, essa "micro-criatura" mudou para uma outra copa que ficava encoberta da nossa visão por outras árvores. Ficou claro para nós que aquele não era um bom ponto de observação, naquele terreno acidentado. Até esse momento, não havíamos tido a certeza de que se tratava da Calyptura, mas a nossa intuição não respeitava isso. Decidimos procurar ali perto um lugar em que tivéssemos uma melhor visão geral das copas. Esse local estava pertinho dali e era um pequeno campo de futebol, em meio àquela floresta com algumas casas distantes umas das outras. Por sorte, estávamos num daqueles "condomínios ecologicamente corretos". Naquela rápida oportunidade, foi possível perceber uma silhueta e uma maneira de voar bem peculiar – a certeza de que era Calyptura crescia dentro de nós. Tínhamos obtido naquele ‘flash’ uma coisa que chamamos ‘imagem de busca’ e que nos ajudaria a encontrar ave novamente.

Um pouco mais tarde, daquele nosso privilegiado posto de observação, foi possível encontrar na copa de uma das árvores, ao lado de uma ‘bola’ de erva-de-passarinho, um indivíduo pousado de Calyptura cristata. Desta feita, todos os detalhes básicos da plumagem puderam ser observados, especialmente porque estávamos munidos de duas boas lunetas. A crista vermelha, a faixa negra na lateral da coroa, o verde nas costas, a dupla faixa branca nas asas e o abdome amarelo. Uau ! Chamou-nos a atenção naquele minúsculo passarinho (o porte miúdo impressionava) a postura vertical e uma notável crista vermelha, que ele mantinha eriçada. A posição ereta de pouso e a crista aberta distoavam das várias ilustrações conhecidas da espécie – todas elaboradas a partir da ave morta. Essas duas oportunidades foram testemunhadas por Pacheco, Parrini, Claudia e Carlos Eduardo (Luiz e Glória, infelizmente, perderam essa visão, porque haviam decidido procurá-la caminhando pela estrada) e mantiveram todos por muito tempo em estado de excitação – vários minutos depois que ave já havia ido embora. Haja coração ! Em ambas as ocasiões (computando aquela anterior), foi possível perceber em vôo que haviam duas aves juntas; porém, no momento em que chegavam na árvore apenas uma delas pousava destacadamente na ponta dos galhos, enquanto a outra se ocultava. Passamos toda a manhã nesse ponto, mas nenhuma observação adicional aconteceu.

Em 30 de outubro, mais uma vez retornamos ao local. Dessa vez com o reforço de um de nós

(Fonseca) e Francisco (Chico) Pontual. Esse último munido de equipamento profissional de filmagem e experiência nisso, pretendia documentar a Calyptura através de imagens. Um grupo ficou posicionado no campinho de futebol (Pacheco, Claudia, Chico e Carlos Eduardo), enquanto Luiz Gonzaga e Paulo Sérgio M. da Fonseca resolveram caminhar nas redondezas. Para frustração deles, por duas vezes a dupla de indivíduos de Calyptura puderam ser observadas rapidamente do campinho em deslocamentos e pousos rápidos nas copas adjacentes. Numa delas, na situação mais próxima de todas, foi possível perceber que uma faixa horizontal amarelada no uropígio contrastava, interessantemente, com o resto do dorso verde.

Em quatro oportunidades nesses dois dias (Carlos Eduardo viu-as em outras duas oportunidades, enquanto estava sozinho nesses mesmos dias) a ave parece não ter vocalizado – ao menos, a ponto de percebermos. Não a vimos igualmente comendo nada, nem fazendo outra coisa. Pareciam apenas que repetiam um ritual de deslocamento, com breves pausas para descanso. Quase sempre mantínhamos os gravadores ligados e microfones apontados para as aves enquanto elas permaneciam em nosso campo de visão, mas infelizmente nada foi registrado. Também, Chico nada conseguiu com as tentativas de filmá-las. Uma pena !

Na esperança de obter algum material sonoro ou fotográfico, o nosso grupo se revezou em visitas e retornou ao local mais nove vezes durante os 30 dias seguintes, mas nenhum exemplar de Calyptura foi novamente observado. Esperávamos, naturalmente, que com o aprendizado da vocalização de Calyptura o "fenômeno Iodopleura" se repetiria; pois, quando enfim aprendemos a voz desse minúsculo, e igualmente cotingídeo, Iodopleura pipra, da Mata Atlântica, passamos a encontrá-lo repetidamente em uma série de lugares, incluindo mesmo alguns que julgávamos bem conhecidos por nós.

Na falta de um reencontro mais produtivo, resolvemos no final de novembro, que era importante divulgar o essencial, ou seja, que Calyptura ainda existia ! E que bom era (e é) saber disso ! Por isso, várias pequenas notícias foram veiculadas pela Internet e por periódicos destinados aos observadores de aves e aos demais interessados. Uma nota de redescoberta foi veiculada na nova edição de Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick, oficialmente lançada em fevereiro de 1997 durante o VI Congresso Brasileiro de Ornitologia. Uma curta notícia foi veiculada na Cotinga, periódico do Neotropical Bird Club de abril de 1997, a partir de uma carta escrita por L. P. Gonzaga. Em 1998, a Calyptura foi a ave-símbolo do VII Congresso Brasileiro de Ornitologia, realizado no Rio de Janeiro. Por conta dessa divulgação, é do nosso conhecimento de que cerca de 20 novas visitas foram feitas desde dezembro de 1996, pelo nosso grupo e por uma série de colegas (especialmente estrangeiros) na tentativa de reencontrar Calyptura cristata. O desafio permanece: Ainda precisamos aprender mais sobre essa pequenina jóia da Mata Atlântica do Rio de Janeiro, que Ricardo Parrini rigorosamente ‘retirou’ da lista de espécies extintas !

 

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014