ISSN 0104-2386

N.94 - Março/Abril (March/April) de 2000

 

Revisão da descrição da Sabiá-cica Triclaria malachitacea (Spix, 1824)

Juan Cornejo – Espanha

Classe Aves, Ordem Psittaciformes, Família Psittacidae, Sub-família Psittacinae, Tribo Arini, Gênero Triclaria (monotípico), Espécie Triclaria malachitacea.

Esta espécie é endêmica para o sudeste da Mata Atlântica, do sudeste do estado da Bahia ao norte do Rio Grande do Sul (Arndt 1996, Bertagnolio 1981, Collar et al. 1992, Forshaw & Cooper 1989, de Grahl 1986, Low 1994a, Ridgely 1981, Robiller 1990, Sick 1993). Ela já foi encontrada nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul (Collar et al. 1992), e já foi citada duas vezes para Argentina (Rumboll, 1990).

Ocorre nas encostas da Serra do Mar (Arndt 1996, Belton 1984, Forshaw & Cooper 1989, Ridgely 1981, Robiller 1990). Porém, Sick (1993) afirma que a espécie ocorre em mata semidecídua, nas adjacências da floresta úmida. Embora seja uma espécie protegida pelas leis brasileiras (Straube & Scherer-Neto 1995), de acordo Forshaw & Cooper (1989) e Ridgely (1981) Triclaria já desapareceu da sua antiga área de distribuição, embora ainda seja comum am algumas regiões. Low (1994b) considera o status desta espécie como "vulnerável". Lambert et al. (1993) estima a população total em menos que 5.000 indivíduos.

As descrições mostradas aqui foram obtidas em 20 indivíduos (9, 11) pertencentes à Fundação Loro Parque em novembro de 1996. As medidas foram feitas com régua milimétrica para asa e cauda, e com paquímetro para bico e tarso. Para determinar o peso, usou-se uma balança portátil Soehnle 200/Ultra com 0.1 g de precisão. Para a análise estatística foi utilizado o programa Kwikstat da TexasSoft.

O dimorfismo sexual

Os sexos diferem na coloração geral, no anel periocular e penas do ventre, a forma da cabeça, o comprimento das asas e o peso. Os jovens diferem na cor da íris e no anel periocular.

Corpo

Uma ave adulta mede aproximadamente 28 cm incluindo a cauda. De acordo com Collar et al. (1992), Bertagnolio (1975) e Low (1994a) existe uma grande semelhança com Pionopsitta pileata, principalmente entre as fêmeas. A coloração geral em ambos sexos é verde iridescente, com semelhança para a tonalidade do mineral malaquita, que lhe confere o nome (Jobling 1991). Existe um claro dimorfismo sexual na tonalidade geral, já que os machos são um pouco mais escuros.

A plumagem definitiva do macho é totalmente verde com exceção de uma mancha azul-violácea que cobre a parte inferior do peito e o ventre, e as penas da garganta e ao redor da cloaca, que toma tonalidade suave de azul-turquesa. Fricker (1990) e Fricker & Fricker (1992) afirma que essa mancha do macho começa a surgir aproximadamente aos quatro meses de vida, situação observada neste estudo. De acordo com Bertagnolio (1981), Krenek (1994) e R. Sweeney (in litt.) ela aparece com a primeira muda, por volta do sexto mês de vida. Segundo Patzwahl (1993) a mancha aparece entre o 8o e 9o mês e de acordo com Robiller (1988, 1990) no 10o mês de desenvolvimento. A muda da cor periorbital acontece neste tempo. Geralmente a mancha do abdome aumenta lentamente com as mudas sucessivas, alcançando a área do ventre, a parte superior das coxas e, nos adultos com idade avançada, os flancos debaixo das asas. Também estes indivíduos podem mostrar mudanças de cor no centro da mancha, com penas cor-de-rosa escuras. As observações em indivíduos do Loro Parque não puderam confirmar que as penas cor-de-rosa de machos velhos se transformam em penas vermelhas como Sick (1993) declarou, até mesmo quando o macho mais velho tinha aproximadamente 13 anos de idade. A plumagem definitiva da fêmea á a mesma que a do macho, com exceção da mancha do abdome que é ausente da tonalidade da coloração geral. A plumagem juvenil em ambos sexos é idêntica a da fêmea.

Nos indivíduos observados no Loro Parque somente os machos de idade avançada apresentavam o tom azul turquesa nas coxas, ao contrário de Arndt (1966) e Forshaw & Cooper (1989) que afirmam que isso acontece em todos os machos.

Peso

Os pesos de 20 indivíduos, todos saudáveis, do Loro Parque, foram: machos (9) 167.1 ± 13.5 g. e fêmeas (11) 150.4 ± 15.9 g. com significante diferença entre os sexos (z= 2.237, P= 0.025) (Tabela 1). Os valores disponíveis na literatura são normalmente baixos:140 g. (Low 1994a), 110-155 g. (Forshaw & Cooper 1989) e 152 g. (Belton 1984). Os tamanhos das amostras destes dados são desconhecidos, e não se sabendo se são aves selvagens ou de cativeiro é impossível compara-las com as informações do Loro Parque.

 

 

 

Cauda

A cauda é formada por 12 retrizes com pontas arredondadas, sendo organizadas, quando fecha, em duas filas com comprimento ligeiramente decrescente de dentro para fora.

As medidas do comprimento da cauda obtidas no Loro Parque, tomadas desde a retriz mais comprida, foram: machos (9) 108.9 ± 7.4 mm; fêmeas (10) 110.4 ± 6.9 mm sem significância entre os sexos (z= 0,323, P= 0,747) (Tabela 1). As medidas feitas por Forshaw & Cooper (1989) foram: machos (10): 110.9 mm. (106-115) e fêmeas (10): 110 mm. (107-114). Low (1994a) só dá uma medida: 120 mm.

Em visão dorsal aproximadamente os dois últimos centímetros da cauda, como também as bárbulas exteriores da 4a até 6a retrizes, são de um azul turquesa profundo. O restante das penas é verde malaquita.

Na vista ventral todas são de um azul turquesa profundo. As coberteiras inferiores da cauda não alcançam a ¾ do comprimento total da cauda.

Asas

Das 10 penas primárias e 12 penas secundárias da asa (ao contrário de Forshaw 1989), P8 é a pena mais longa. As asas dos machos e das fêmeas coincidem no padrão de cor, mas não no tamanho: os machos são significativamente maiores que as fêmeas (z= 2.161, P= 0.031) como demonstram as medidas de 20 indivíduos do Loro Parque (tomadas da articulação do carpo até a extremidade da primária mais comprida) machos (9): 163.9 ± 0.063 mm; fêmeas (11): 156.5 ± 0,057 mm. (Tabela 1). Forshaw & Cooper (1989) dão as seguintes medidas: machos (10) 160.0 (151-165) e fêmeas (10): 156.1 (152-160).

Numa visão dorsal a escápula, a álula, todas as coberteiras, e as secundárias e terciárias são verde malaquita. As últimas 4 ou 5 primárias têm o lado externo azul turquesa, e o lado interno verde no trecho proximal do ráquis e negro na parte distal. O restante das primárias são todas verde malaquita.

Do lado ventral as últimas 4 ou 5 primárias são negras no lado exterior e azul turquesa no interior, o resto das primárias e todas as secundárias tendo o lado externo negro e interno verde. As coberteiras menores são todas verdes, as maiores e a álula são turquesa escuro.

As observações feitas nos indivíduos do Loro Parque não concordam com Low (1994a) quando ela estabelece que as primárias no lado exterior, a parte inferior das primárias são verde-azuladas, nem com Forshaw & Cooper (1989) que estabelecem que somente a 10a primária é azul-violeta na outra faixa, que o resto fica verde tingido de azul nas extremidades, e que os lados inferiores das penas de vôo são verde-azulados.

O Bico e Cera

O bico é cor de chifre e tem grande curvatura angular. A extremidade recurvada faz um ângulo reto com o eixo. A mandíbula superior tem uma crista característica formada por dois sulcos de cada lado da borda externa. Cúlmen: machos (9) 23.8 ± 1.2 mm., e fêmeas (11) 22.3 ± 1.1 mm. (Tabela 1). Forshaw & Cooper (1989) obteve as seguintes medidas: machos (10): 23.2 mm. (22-26) e fêmeas (10): 21.5 mm. (21-22). Largura: machos (9) 13.6 ± 0.6 mm. E fêmeas (11) 13.0 ± 0.8 mm. (Tabela 1). Não há diferenças significativas entre os sexos para quaisquer das medidas (Cúlmen: z= 0.414, P= 0.679, e largura: z= 0.004, P= 0.997).

A cera é negra. O contorno ântero-lateral é sinuoso, a parte superior bem convexa, e a de baixo chega quase até as penas do loro. As narinas ficam situadas anteriormente ao meio da cera. Existe bastante filoplumas negras nos lados, e algumas na parte superior.

Olhos e Região Periorbital

Triclaria malachitacea possui olhos grandes, arredondados com longos cílios negros. Nos adultos a cor da íris é graduada, o centro sendo marrom escuro e a periferia marrom-alaranjado. A íris dos jovens quase não tem graduação de cor, sendo toda marrom-alaranjado.

A região peri-orbicular não tem penas, descrevendo uma área circular mais alargada para o bico e mais pontiaguda para a nuca. A pele é amarela-cinzenta nos machos, enegrecida nas fêmeas e esbranquiçada nos imaturos. A mudança de coloração dos imaturos ocorre por volta do quarto mês de vida, ao mesmo tempo que aparece a mancha no abdome dos machos.

 

Pernas

As pernas são cinzentas escuras e as unhas são pretas. O tarso dos 20 indivíduos do Loro Parque mostrou as seguintes medidas: machos (9) 8.4 ± 2.6 mm. E fêmeas (11) 8.4 ± 2.3 mm. Não há diferença significante entre os sexos (z= 0.101, P= 0.920) (Tabela 1). Os valores apresentados por Forshaw & Cooper (1989) são: machos (10): 17-19 mm. (18.2) e fêmeas (10): 17-19 mm. (17.9). A grande diferença nos resultados poderia indicar uma diferença do método de obtenção da medida.

Cabeça

O contorno posterior da cabeça do macho é arredondado, e o da fêmea é mais quadrado, provavelmente porque as penas de nuca da fêmea são mais longas que as do macho. Esta característica permite que a distinção entre sexos seja feita sem a necessidade de se observar frontalmente.

 

Agradecimentos

 

Agradeço ao Dr. David Waugh, Diretor Científico da Fundação Loro Parque, quando se realizou este estudo, pelo seu apoio e ajuda inestimável.. Ao Sr. W. Kiessling e aos conselheiros da Fundação Loro Parque por me oferecerem a chance de a cabo este trabalho, como também ao Dr. J. Steinbacher que pagou as despesas de minha viagem para Tenerife. E a todas as pessoas que deram informações para a realização deste trabalho, como também para aqueles que me ajudaram traduzindo os artigos.

 

Referências Bibliográficas

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Belton, W. 1984. Birds of Rio Grande do Sul. Brazil. Part 1. Rheidae through Furnariidae. Bulletin America Museum Natural History 178 (4): 369-636.

Bertagnolio, P. 1975. Notes on the Red-capped parrot Pionopsitta pileata. Avicultural Magazine 80: 147-150.

Bertagnolio, P. 1981. The Red Tailed Amazon and other uncommon South American Parrots. Avicultural Magazine 87: 8-18.

Collar, N. J., Gonzaga, L. P., Krabbe, N., Madroño Nieto, A., Naranjo, T. A., Parker III & Wege, D. C. 1992. Threatened birds of the Americas. The ICBP/IUCN Red Data Book. 3rd Ed. Cambridge. ICBP.: 440-444.

de Grahl, W. 1986. Unbekannter Sittichpapagei. AZ-Nachrichten 4/86: 216-217.

Forshaw, J. M. & Cooper, W. T. 1989. Parrots of the world. 3rd Ed. Blandford. London.: 650-652.

Fricker, K. & Fricker, A. 1992. Die Zucht des Blaubauchpapageis Triclaria malachitacea- ein seltenes Erfolgserlebnis. Papageien 5 (1): 16-17.

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Jobling, J. A. 1991. A Diccionary of Scientific Bird Names. Oxford University Press.

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Lambert, F., Writh, R., Seal, U. S., Thomsen, J. B. & Ellis-Joseph, S. 1993. Parrots: an action plan for their consevation. 1993-1998. 2nd Draft. Unpublished.

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TABELA 1 Medidas Biométricas de Triclaria malachitacea do Loro Parque

 

 

 

Espécie

 

Machos

 

Females

 

n

media

s.d.

Median

Max

Min

 

n

Mean

s.d.

Max

Min

 

n

Mean

s.d.

Max

Min

cauda

19

10.97

0.70

10.90

12.50

10.00

 

9

10.89

0.74

12.00

10.00

 

10

11.04

0.69

12.5

10.00

asa (cm.)

20

15.99

0.69

16.00

17.40

15.00

 

9

16.39

0.63

17.40

15.50

 

11

15.65

0.57

16.6

15.00

Tarsus (cm.)

16

0.84

0.23

0.80

1.40

0.60

 

7

0.84

0.26

1.40

0.60

 

9

0.84

0.23

1.4

0.60

larguras do bico (cm.)

20

1.32

0.07

1.33

1.45

1.11

 

9

1.36

0.06

1.45

1.30

 

11

1.30

0.08

1.36

1.11

culmen (cm.)

20

2.29

0.14

2.29

2.46

2.01

 

9

2.38

0.12

2.46

2.21

 

11

2.23

0.11

2.37

2.01

peso (g.)

20

157.90

16.80

156.50

188.00

133.00

 

9

167.11

13.48

188.00

148.00

 

11

150.36

15.88

175.00

133.00

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014