ISSN 0104-2386

N.95 - Maio/Junho (May/June) de 2000

 

Notas sobre a andorinha-de-dorso-acanelado (Hirundo pyrrhonota) e sua ocorrência na Serra do Cipó, Minas Gerais.

Marco Antonio de Andrade & Márcia Viegas Greco de Andrade - Belo Horizonte – MG *

Introdução

 

A andorinha-de-dorso-acanelado (Hirundo pyrrhonota) é também chamada de andorinha-de-sobre-castanho ou andorinha-do-penhasco. Mede entre 13 e 14 cm de comprimento total e seu peso varia de 17,5 a 26,7 g (Turner & Rose, 1989). Era incluída no gênero Petrochelidon, descrito por Cabanis em 1851. A inclusão desta espécie no gênero Hirundo foi proposta por Vieillot, em 1817. As andorinhas pertencem à Família Hirundinidae e estão bem representadas na região neotropical, já tendo sido registradas 15 espécies no Brasil e 22 na América do Sul, (Sick & Andrade, 1992). Em Minas Gerais já foram observadas 12 espécies de andorinhas, ou seja, 80% do total registrado para o país (Mattos et al 1993). No Brasil, ocorrem somente duas espécies pertencentes ao gênero Hirundo: H. pyrrhonota e H. rustica (andorinha-de-bando). Existem quatro subespécies conhecidas até o momento: H. p. pyrrhonota, H. p. tachina, H. p. hypopolia e H. p. melanogaster (Turner & Rose, 1989). Segundo O. Pinto (1944), a subespécie que visita o Brasil é H. pyrrhonota pyrrhonota.

 

 

Migração, distribuição geográfica

 

Hirundo pyrrhonota é uma espécie migratória do Hemisfério Norte. Fugindo do inverno setentrional, anualmente desloca-se em enormes bandos provenientes do Canadá, Alasca e Estados Unidos, passando pela América Central, indo até o Paraguai, Argentina e Chile. É migrante de longas distâncias e, geralmente, retorna em março para nidificar na América do Norte (Kaufman, 1996). A estação reprodutiva é entre os meses de abril e agosto, quando reúnem-se para nidificar em colônias ou em pares (Turner & Rose, 1989).

No Brasil, chega geralmente em setembro e já foi registrada em vários Estados, tais como: Amazonas, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Dubs, 1992; Mattos et al, 1993; Belton, 1994; Scherer-Neto & Straube, 1995; Sick, 1997). No Rio Grande do Sul, H. pyrrhonota é visitante de verão encontrada em terrenos abertos, banhados, Campanha e localidades do norte e oeste (Belton; 1994). No Taim, município de Rio Grande (RS), bandos enormes de H. pyrrhonota H. rustica e Tachycineta leucorrhoa foram registrados em janeiro de 1980 e 81, por H. Sick e W. Voss, pousados no campo ralo e em fios de cerca. Em janeiro de 1978, W. Voss observou perto de Viamão (RS) centenas de H. pyrrhonota pousadas nas pontas de um taquaral e também em ervas secas de um campo na encosta de uma colina (Sick, 1983). Em Santa Catarina habita ambientes campestres, tendo sido registrada apenas na primavera e verão (Rosário, 1996).

Na região leste da Província de Córdoba, Argentina, H. pyrrhonota visita lagoas e banhados entre os meses de outubro e março. Em março de 1973, uma enorme concentração, de aproximadamente 100 mil indivíduos, foi registrada nos Banhados do rio Saladillo (Nores, Yzurieta & Miatello, 1983).

 

Ocorrência na Serra do Cipó, Minas Gerais

 

A região da Serra do Cipó compõe o Complexo da Serra do Espinhaço e situa-se no bioma do cerrado, onde pode-se encontrar diferentes fisionomias vegetais típicas deste ecossistema, como: campo rupestre, campo sujo, cerrado e mata ciliar. Distante cerca de 100 Km ao norte de Belo Horizonte, a Serra do Cipó é considerada uma área de importância biológica especial e prioritária para conservação da biodiversidade em Minas Gerais (Costa et al, 1998).

Entre os dias 4 e 5 de dezembro de 1999, durante uma viajem de trabalho na região da Serra do Cipó, registramos alguns indivíduos de Hirundo pyrrhonota em áreas campestres. O primeiro registro foi no dia 04/12/99, quando observamos um grupo de seis indivíduos voando e depois pousados em um fio, próximo ao Km 102 da estrada de terra da MG-010 (GPS: 19º 18’304" S e 43º 36’357" W), em direção à Conceição do Mato Dentro, a cerca de 980 m de altitude. No dia 05/12/99 observamos três indivíduos pousados em um fio, junto com 10 indivíduos de Notiochelidon cyanoleuca (andorinha-pequena-de-casa), em um campo sujo, na localidade denominada Serra Morena (19º 15’465" S e 43º 35’430" W), a cerca de 950 m de altitude. O grupo, composto pelas duas espécies de andorinhas, voava junto em busca de insetos. Durante o período das observações o tempo estava nublado e chuvoso.

Estas duas localidades, onde alguns indivíduos da andorinha-de-dorso-acanelado foram observados, situam-se próximas à divisa do Parque Nacional da Serra do Cipó. Como esta espécie realiza constantes deslocamentos é provável que também ocorra em áreas campestres do interior do parque.

Até então, H. pyrrhonota era conhecida em Minas Gerais apenas para o município de São Roque de Minas, próximo ao Parque Nacional da Serra da Canastra, oeste do Estado, onde dezenas de indivíduos foram observados pousados em um fio (Sick & Andrade, 1992). Assim, este novo registro para a Serra do Cipó vem contribuir para ampliar a área de distribuição geográfica de H. pyrrhonota no Estado de Minas Gerais.

 

Importância das andorinhas, ameaças

 

As andorinhas alimentam-se basicamente de insetos e, como os andorinhões, são os principais consumidores de plâncton aéreo. Capturam cupins, formigas aladas, moscas, abelhas, vespas e outros insetos. No estômago de uma única andorinha-do-campo (Phaeoprogne tapera), que fazia parte de um bando migrante, coletada em setembro no alto São Francisco (MG), foram encontrados 402 insetos de mais de 20 famílias, a maioria cupins alados. Calculou-se que, na Europa, apenas um casal de andorinha-de-bando (Hirundo rustica) consome, com sua prole, cerca de 290 mil insetos por ano (Sick & Andrade, 1992). Nos Estados Unidos, H. pyrrhonota ocasionalmente alimenta-se de gafanhotos, besouros, algumas aranhas e frutinhos de amora (Kaufman, 1996).

Assim, tanto as andorinhas, como os andorinhões e outras espécies de aves, exercem uma relevante função no controle natural de insetos. Mas, infelizmente, elas também sofrem ameaças devido ao uso indiscriminado de inseticidas e outros produtos químicos organoclorados nas lavouras e pastagens. Extensas áreas de plantações agrícolas são pulverizadas anualmente no Brasil e em todo o mundo, representando uma grande e real ameaça para o declínio das populações destas espécies. Estratégias e ações visando a conservação das aves e seus habitas devem ser implementadas a curto prazo.

 

Referências bibliográficas

 

Belton, W. (1994). Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia. São Leopoldo: UNISINOS.

Costa, C.M.R. et al (1998). Biodiversidade em Minas Gerais: um atlas para sua conservação. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.

Dubs, B. (1992). Birds of Southwestern Brazil (Catalogue and Guide to the Birds of the Pantanal of Mato Grosso and its Border Areas). Betrona.

Kaufman, K. (1996). Lives of North American Birds. New York: Houghton Mifflin Company.

Mattos, G.T.; Andrade, M.A.; Freitas, M.V. (1993). Nova lista de aves do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação Acangaú.

Nores, M.; Yzurieta, D.; Miatello, R. (1983). Lista y distribucion de las aves de Cordoba, Argentina. Boletin de Academia Nacional de Ciencias 56:1-114.

Pinto, O. (1944). Catálogo das Aves do Brasil (2ª parte, Ordem Passeriformes). São Palo: Deptº de Zoologia, Secretaria da Agricultura.

Rosário, L.A. (1996). As Aves em Santa Catarina: distribuição geográfica e meio ambiente. Florianópolis: FATMA.

Scherer-Neto, P. & Straube, F.C. (1995). Aves do Paraná: história, lista anotada e bibliografia. Curitiba: ed. dos autores.

Sick, H. (1983). Migrações de Aves na América do Sul Continental. Brasília: CEMAVE.

Sick, H. (1997). Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Sick, H. & Andrade, M.A. (1992). Andorinhas e Andorinhões. Ciência Hoje 14 (83): 58-60.

Turner, A. & Rose, C. (1989). Swallows & Martins: and identification guide and handbook. Boston: Houghton Mifflin Company.

 

* Biólogos e pesquisadores da Fundação Acangaú para Conservação e Uso Sustentado de Ecossistemas, Rua Cura Dars 1189, 30430-080, Belo Horizonte, MG, marc@bhnet.com.br  , telefax: (0xx31) 332-7596.

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014