ISSN 0104-2386

N.95 - Maio/Junho (May/June) de 2000

 

Os "Puxadores" das Escolas de Samba: III. Há bandos mistos na cidade

Edwin O. Willis* - Rio Claro-SP

O amigo Luis Pedreira Gonzaga, carioca que conhece melhor as escolas de samba que eu, informou-me que puxador de escola de samba é aquele que acerta a seqüência musical, não aquele que acerta os movimentos deste "bando misto." Assim, doravante vou colocar "puxador" entre aspas para designar as aves que ficam tentando direcionar os bandos mistos na mata ou cerrado.

Estas aves são algo diferente dos puxadores e, de fato as aves do bando não se juntam para dançar e fazer música mas, para evitar os predadores, mesmo que possam fazer música de vez em quando. São até bastante silenciosas, difíceis de se observar. Isso é também verdade para os bandos que devo comentar em seguida: os bandos mistos da cidade que passam, na maioria dos casos, desapercebidos.

Pode ser que as festas musicais aí possam ajudar um pouco para evitar a predação. Nós nos sentimos mais seguros em grupo, especialmente as mulheres. Até o coaxar ou "festa" dos sapos pode ser feito em grupo, em parte para as fêmeas vejam os vários machos e escolham o "melhor parceiro", em outra parte para marcar o melhor local para depositar os ovos, mas também para todos darem o alarme no caso de aparecer um predador. Um aluno meu, Fábio Olmos, está registrando sugestões de vários autores de que colônia de garças e guarás pode ser um "leque escondido" para as fêmeas exigentes escolherem os melhores machos. Entretanto, ainda acho que agrupamento pode ocorrer por razões não sexuais.

Agrupamentos sexuais ocorrem na cidade, no caso das andorinhas-azul-e-branco (Notiochelidon cyanoleuca), que se utilizam dos buracos no prédio de biologia de nossa universidade. Os beija-flores podem cantar para atrair as fêmeas mesmo na cidade, voar perseguindo uma fêmea ou visitar o ninho dela, como notamos no caso do ninho de uma fêmea de beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura). Há "briga-de-pardal" onde vários machos perseguem uma fêmea fértil, tentando a cópula e, assustando o seu "marido". Esses não são bandos mistos, porque têm somente uma espécie e, porque aproveitam um recurso pontual (localizado) em vez de viajarem juntos.

Existem tipos variados de agrupamentos, isso é verdade. Aqui em Rio Claro, pode-se colocar alimento na calçada e ter um grupo de pardais (Passer domesticus) e rolinhas (Columbina talpacoti) ou avoantes (Zenaida auriculata). Onde há árvores com frutas como amoreira ou caquizeiro, lá estão os sanhaços (Thraupis sayaca) e os bentevís (Pitangus sulphuratus). As flores das bananeiras ou Grevillea em nosso quintal atraem os beija-flores comuns e as cambacicas (Coereba flaveola). Grupo de aves ao redor de abundante alimento, como as aves seguindo as formigas-de-correição (taócas) na mata para pegar insetos afugentados, ou garças-vaqueiras (Bubulcus ibis) e anus (Guira guira ou Crotophaga ani) seguindo o gado no pasto para a mesma finalidade, raramente são considerados "bandos mistos" na literatura, exceto em termos muito gerais. Deslocam-se somente quando a fonte de alimento se movimenta, não é uma "escola de samba" com movimento autônomo no sentido espacial.

Um bando misto verdadeiro é composto de várias espécies e desloca-se no ambiente como uma escola de samba. Esse tipo de bando pode ocorrer no campo-cerrado, como estudado no Broa por José Ragusa-Netto da UNESP, ou na mata grande como Guaraú no litoral, estudado por Pedro Develey da USP. Este tipo de bando torna-se fraco onde a mata ou campo é pequeno, porque começam a desaparecer as espécies de aves nessas áreas pequenas. Para preservar muitas aves dos bandos mistos precisamos de reservas e parques grandes, não aqueles pequenos cantinhos de mata no interior de São Paulo, ou aquelas pequenas áreas de campo cerrado que os plantadores de soja e fazendeiros estão deixando no Mato Grosso do Sul até o Piauí.

E nas cidades, existem os bandos mistos? Podem ocorrer, mas não são escolas de samba diversas e bonitas como as da mata ou cerrado. São outros bandos que têm poucas espécies que conseguem encontrar alimento em gramado, bananeiras ou mangueiras, espalhadas em vários quintais adjacentes. São escolas de pouca diversidade, de aves comuns como pardais ou bentevís. São escolas novas, que mal existiam neste ambiente no passado, não têm muita tradição, mas com o desaparecimento dos grandes bandos de samba com o desmatamento não se têm escolha: precisamos aceitar os pequenos bandos do futuro urbanizado.

Percebemos a existência dessas novas e pequenas escolas de samba, cerca de 10 anos atrás, quando a minha esposa Yoshika Oniki começou a estudar as chocas-barradas (Thamnophilus doliatus) em nosso quintal. Ela acordava de madrugada, registrando todas as atividades que envolviam os ninhos até o pôr-do-sol, 12 ou 13 horas depois, um dia após o outro. Eu e nossa filha, Michelle, ajudamos com as observações por uma hora ou por alguns minutos de vez em quando. Depois, alguns alunos e eu ajudamos com observações em outros ninhos no campus da universidade.

Durante os estudos de ninhos da choca-barrada, ficamos, às vezes, esperando que a ave saísse ou retornasse ao ninho. Nessas esperas, anotamos se a ave está virando os ovos, ou está tirando insetos daninhos das bananeiras do quintal. Observamos o pardal ou rolinha, nos intervalos, ou o gato passeando e causando nervosismo a todos. Às vezes, o choca ataca algum intruso que chega muito próximo ao ninho ou que procura insetos perto do chão ou no folhiço sob as árvores, zonas prediletas desta espécie que somente nos últimos 100 anos têm entrado nas bordas da cidade com alguns arbustos e jardins.

Repentinamente, nota-se que outras aves estão chegando do quintal vizinho. Alguns pardais, não somente aqueles de nosso quintal, e o casal local de bentevi, ausente por várias horas, está junto. O beija-flor-tesoura e outro, Chlorostilbon aureoventris, ausente das bananeiras por mais de uma hora, recomeçam as visitas e a circular sob as folhas de arvoredos procurando bicar os insetos, enquanto adejando.

O dia que finalmente percebi que se tratava de um bando misto foi em 5 de dezembro de 1991. As chocas estavam alimentando ativamente seus dois ninhegos, limpando o nosso quintal de dezenas de mariposas, baratas, aranhas, gafanhotos, marias-fedidas, e outros insetos. Eles estavam, desde cedo, atacando e comendo as formigas pequenas que estavam correndo em volta do ninho e nos galhos adjacentes a ele. Assim, quase não houve intervalo para se observar o bando misto que chegou do quintal à leste, à partir de 18:10 (19:10, hora de verão).

A fêmea da choca, alimentando os filhotes, ficou na borda do ninho. O macho chegou e alimentou às 18:14, tomando o seu lugar; ela retornou com alimento às 18:16, e ele às 18:22. Em geral, o casal parecia não notar os vários pardais e bentevís do bando, pulando desde o chão até 10 m nas árvores do quintal. Às 18:22, o macho cantou e depois atacou um jovem de cambacica próximo ao ninho, e com o topete levantado saltou na direção de outra cambacica na área. Deveria haver uma família inteira de cambacica pois outro cantou mais no alto. Até as rolinhas ficaram mais animadas, uma delas pulando e mostrando o local de ninho para a fêmea. O benteví suplantou uma rolinha, ameaçou um pardal, e seguiu o outro benteví. Um casal de sanhaços estava nos arredores. As corruíras (Troglodytes aedon) com filhote fora do ninho, saltitavam procurando insetos do muro ao chão.

Foi um bando misto composto de 9 espécies, no caso de incluir as rolinhas e chocas e um beija-flor que continuava piando às 18:16. Não parecia ter um indivíduo "puxando", mas todos estavam "pulando" juntos.

O bando misto estava passando para o quintal ao norte às 18:28, e o nosso ficou emudecido. Até o casal de chocas foi naquela direção, o macho retornando com alimento no bico somente às 18:26 e 18:28. Daí, nada em nosso quintal até às 18:50 quando a fêmea retornou sem alimento para os filhotes e sentou no ninho para passar a noite. Já estava um pouco escuro em alguns cantos do quintal, o sol se punha. Durante a passagem do bando ocorreram 6 alimentações dos ninhegos; nos 20 minutos anteriores, somente 3; e nenhuma observação nos 20 minutos seguintes.

No dia seguinte, uma revoada de cupins atraiu os pardais, as corruíras e as chocas às 8:01, mas não era uma "escola de samba". Durante o dia os bentevís, sanhaços, corruíras, pardais estavam forrageando separados. Uma saída de formigas aladas às 17:08 deu muito trabalho para as chocas e suiriris (Tyrannus melancholicus), sem formar um bando misto.

Em 7 de dezembro, das 8:37 às 9:08 da manhã, um bando misto passou por mim e Yoshika: sanhaços, pardais, suirirí bem baixo no quintal, corruíras e bentevís. O macho da choca permaneceu no ninho, chocando os ninhegos e não se juntou ao bando; a fêmea não estava no quintal (e só retornou às 9:19, depois do macho alimentar os filhotes 4 vezes sem seguir o bando misto para o quintal vizinho). Em 10 de dezembro, às 6:49, os pardais e sanhaços e família de corruíras formaram novo bando por poucos minutos; parecia uma agregação sem muita organização.

No campus da UNESP, os tejos-de-campo (Mimus saturninus) tiveram umas ninhadas grandes neste verão, havendo atualmente 10 aves ou mais circulando juntos. Estes atraem um casal de joão-de-barro (Furnarius rufus) para andar no gramado juntos, um ou outro tico-tico (Zonotrichia capensis), ou suiriri-cavaleiro (Machetornis rixosus). Sanhaços e saíra-caboclo (Tangara cayana) ficam com o bando. Quando um cachorro ou gato aparece, as sentinelas do tejo dão um grito e, as outras aves fogem e se abrigam em meio aos arbustos. Este tipo de bando pode ser avistado nas chácaras do Bairro Barão Geraldo, em Campinas. Nestes casos, os "puxadores" são os tejos.

Os bandos mistos deste tipo ocorrem no campus durante todo o ano, nas zonas de gramado e arbustos. Ragusa-Netto (1997) estudou os bandos do cerrado e, encontrou tejos e joões-de-barro juntos. Quando o Furnarius vai junto com Mimus, pega mais itens de alimento a cada hora porque não precisa ficar de olho em falcão-de-coleira (Falco femoralis) ou outro predador.

Em anos anteriores, Sauria Castro estudou, para seu trabalho de formatura, grupos de picapau-do-campo (Colaptes campestris). Esta é outra ave onde um indivíduo fica como sentinela em cima de arbusto enquanto os outros do grupo caçam por formigas no chão. Neste caso, a sentinela emite um grito quando quer descer e alimentar-se, para que outra da família tome seu lugar. Não parece formar bandos mistos, talvez seu deslocamento seja lento demais.

As "escolas de samba" da cidade tornam-se raras, talvez desorganizadas, com poucas espécies e movimentos interrompidos. Como nas cidades, os gatos caçam as aves, há a necessidade de se formar bando, mas não há muita oportunidade ou espaço para isso. Ainda assim, as aves da cidade podem formar bandos mistos, às vezes, talvez protegendo-se contra os gatos e gaviões (Buteo magnirostris ocorre até em nosso quintal). São escolas de samba sem "puxador", ou "puxadores" que vêm dos cerrados (Mimus), escolas pequenas e mal formadas mas interessantes.

Em nosso quarteirão, vários prédios de dois andares estão sendo construídos, acabando com os quintais. A universidade está com mais prédios e asfalto a cada ano. Logo, não haverá mais "escolas de samba" porque somente os pardais estarão presentes. O mundo está se tornando cheio de asfaltos, prédios e agricultura. Infelizmente, é parte de nosso plano de desenvolvimento ter mais gente e menos aves.

Literatura Citada

 

Ragusa-Netto, J. 1997. Evidence for the possible advantage of heterospecific social foraging in Furnarius rufus (Passeriformes: Furnariidae). Ararajuba 5(2): 233-235.

 

*Departamento de Zoologia, UNESP, Rio Claro, SP

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014