ISSN 0104-2386

N.96 - Julho/Agosto (July/August) de 2000

 

O potencial biótico da Avifauna Silvestre na Campanha Gaúcha

Ronaldo Gonçalves de Andrade Costa *- Alegrete-RS

 

Resumo

No cenário nacional, nosso país tem desenvolvido paulatinamente ao longo dos anos, uma política ambiental conservacionista, através da qual criaram-se diversas Unidades de Conservação do Meio Ambiente.

Essas unidades, nos diversos escalões, tem sido de fundamental importância para a manutenção das populações da nossa fauna silvestre. E no Rio Grande do Sul, o único estado do país que abriga a região zoogeográfica da "Campanha", a relevância dessas áreas de preservação ambiental é indiscutivelmente estratégica. Contudo, tais unidades de conservação não contam, na maioria dos casos, com a administração a qual fazem jus, sendo muitas vezes desconhecidas cientificamente e desestruturadas para assumirem seu papel precípuo de proteção.

Paradoxalmente à importância da conservação desse ecossistema no cenário nacional, a região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul conta apenas com a Reserva Estadual do Ibirapuitã e a recente Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã. De acordo com Fabrício-Filho et al. (1985) e Bruck et al. (1992), a região da campanha encontra-se em má situação em termos de áreas naturais protegidas, com o a cifra de 0,007% de sua área total.

Na Fronteira Oeste do estado, a APA do Ibirapuitã, criada pelo decreto presidencial nº 529 de 20 de Maio de 1992, insere-se nesse quadro preocupante, constituindo-se na maior unidade de conservação do Rio Grande do Sul, localizada no coração da campanha gaúcha.

Porém, o fato de ser uma Unidade de Conservação de uso direto, o Estado permite a posse e a exploração da terra , desde que seja de forma controlada, o que gera sempre muita polêmica e especulação sobre o impacto ambiental das monoculturas intensivas, do pastoreio e das atividades antrópicas que se dão nesse ecossistema ímpar no país.

Nesse contexto, dados relativos às espécies da avifauna e suas relações com esses biomas, denotam uma realidade até então pouco estudada e documentada, principalmente, dado o relativo isolamento geográfico da região e a restrição do acesso às diversas áreas que são propriedades rurais particulares.

E como objetivo parcial do Projeto de Pesquisa Avifauna da APA do Ibirapuitã, foi levantado o impacto que as atividades humanas tem imprimido à essa região, através da análise do quantitativo de espécies residentes e da manutenção de suas populações.

 

1. Introdução

A Região Sul do Brasil, em particular o estado do Rio Grande do Sul, apresenta um domínio Morfoclimático bastante peculiar, principalmente no tocante à vegetação, ao clima, ao relevo e à drenagem fluvial, que o distingue entre os demais biomas existentes no país. E esse tem sido o hábitat de inúmeras espécies animais, especialmente ornitológicas, que ao longo dos tempos tem se adaptado naturalmente às paulatinas mudanças no ecossistema, por conta da exploração do solo para o cultivo de lavouras e aproveitamento das pastagens naturais para a pecuária, sobretudo bovina e ovina.

Os principais fatores considerados nessa região estão ligados diretamente à sua típica ocupação territorial de grandes extensões de terra, que remonta aos idos da então Colônia de Sacramento e de sua ocupação por missões jesuíticas.

Nesses séculos de ocupação e exploração, percebe-se que poucas coisas mudaram no tocante à ocupação das terras, bem como no modo de exploração econômica. E esse modelo ocupacional foi o principal fator que possibilitou uma coexistência não competitiva entre o homem - incluindo-se aí os animais introduzidos por ele - e a fauna nativa.

Na região podemos subdividir a cobertura vegetal em três microambientes a saber:

a) Campos nativos;

b) Matas (ciliares e aluviais);

c) Vegetação antrópica.

Dentre os microambientes estudados, quase todos se mostram hostis à fauna silvestre por suas atividades econômicas destruidoras dos diversos nichos ecológicos, enquanto outros ambientes demonstram um cenário favorável à espécies da avifauna nativa.

Porém, as matas nativas ocupam uma pequena parcela da cobertura vegetal do pampa gaúcho, possuindo naturalmente um potencial biótico menor do que os campos de pastagens, que perfazem mais de 80% da área total. E a própria predominância desses campos proporcionou a formação de um modelo econômico e ocupacional característico dessa porção meridional do território brasileiro, desenvolvendo assim a pecuária extensiva, que se tornou bem adaptada às condições naturais desse bioma, estabelecendo relações simbióticas com a fauna local, principalmente a ornitológica, visto que essas áreas de campos abrigam uma população relativamente reduzida de mamíferos, répteis e outros vertebrados; ao passo que constituem o ambiente ideal para muitos invertebrados, principalmente insetos, proporcionando um nicho ecológico estável para as aves insetívoras residentes dos campos nativos, agindo naturalmente como mantenedoras do equilíbrio biológico. Talvez por esse exato motivo, algumas áreas de proteção ambiental sejam de Uso Direto, onde a exploração econômica não causa impactos ambientais consideráveis, ajudando a preservar espécies nativas na medida em que a ação antrópica envolvida nessa atividade econômica é a mínima possível. E se tratando da pecuária como principal atividade econômica da região e a que mais espaço ocupa, podemos afirmar que seu estabelecimento foi, e possivelmente será, uma garantia de preservação ambiental na Campanha Gaúcha.

2. Material e métodos

Estudo perspectivo da avifauna residente na Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã, no setor Alegrete, no período de janeiro a abril /2000.

Foram catalogadas espécies de aves residentes e migratórias da região, comparando os dados com relação obtida pelo CEMAVE/IBAMA no período de agosto/1993 a abril/ 1994.

No período foram avaliados o nicho ecológico das espécies residentes na campanha e sua relação com a pecuária extensiva tão largamente explorada na região.

Através de entrevistas informais, levantou-se junto aos moradores da campanha, a atuação das principais aves da região no ecossistema e através de análise de estimativa das populações e comunidades, levantou-se o nível de influência antrópica em determinadas espécies.

Foram fotografadas diversas espécies nos três ecossistemas da região, em particular nos campos nativos. As vocalizações de algumas aves foram devidamente gravadas e fichadas.

Material utilizado:

Câmera Pentax MZ-50;

Lente tele-objetiva Pentax AF ,80-320 mm;

Câmera compacta Canon Prima DX-II

Binóculo Tasco 195RB, 10 x 25;

Mini-gravador Yellowstar, YG 210G;

Fichário padrão ;

14 rolos de filme colorido;

 

 

3. Resultados

A predominância dos campos nativos e a atividade Agropecuária na região

A Fronteira Oeste como um todo, baseia sua economia na agricultura (monoculturas de regime intensivo) e na pecuária ( regime extensivo) e como modelo exemplificador das atividades desenvolvidas na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, em particular na Microrregião Geográfica da Campanha Ocidental e da campanha Central do Rio Grande do Sul, utilizaremos o levantamento realizado pelo IBAMA/MMA na Área de Proteção Ambiental do Rio Ibirapuitã, que abrange os municípios de Alegrete, Sant’Ana do Livramento, Rosário do Sul e Quaraí.

 

Tabela 01- Estabelecimentos por grupo de atividade econômica, segundo os municípios da APA do Ibirapuitã.

MUNICÍPIO

Lavoura temporária

Horticul-

tura

Lavoura permanente

Pecuária

 

Produção mista

Silvicultura

Alegrete

416

25

42

1878

345

25

Quaraí

82

5

15

670

88

19

Rosário do Sul

239

8

24

1419

217

26

Santana do L.

162

27

20

1696

216

33

Total

899

65

101

5662

886

103

 

 

De acordo com a Tabela 01, podemos concluir a predominância massiva da pecuária no contexto das atividades econômicas desenvolvidas na região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. E este fator, aliado às grandes extensões de terra utilizadas nessa atividade, conforme demonstrativo representado na Tabela 02, denotam a importância dos Campos Nativos para as comunidades bióticas da região, visto o sua abrangência.

 

Tab. 02 - Cobertura do solo na APA do Ibirapuitã.

CLASSE

ÁREA (ha)

% ÁREA TOTAL

Água

513,42

0,16

Arroz

4.706,40

1,48

Campo médio de baixada

17.220,92

5,50

Campo ralo com pedras

56.078,44

17,59

Campo ralo com pouca cobertura vegetal

16.797,21

5,27

Campo ralo com pouca pedra

22.820,71

7,16

Campo sujo de terreno alto

51.479,47

16,15

Campo sujo de baixada

53.742,52

16,86

Campo paleáceo

47.758,81

14,76

Mata ciliar

43.766,70

13,73

Solo de várzea descoberta

4.622,12

1,45

TOTAL

318.767,0

100

 

Das áreas de campo acima assinaladas, praticamente todas são utilizadas na pecuária extensiva desenvolvida na região.

Analisando as tabelas 01 e 02, podemos observar que o percentual da área ocupada por campos perfazem um total de 83,19% de toda a área da referida Área de Proteção Ambiental, enquanto as matas e vegetação antrópica, juntas ocupam menos de 20% do montante.

O mapeamento da cobertura do solo na APA do Ibirapuitã, realizado por Interpretação Orbital (LANDSAT TM, bandas 3,4,5 e 7), nos fornece dados importantes , demonstrando um percentual de 83,19% para campos nativos, correspondendo a 265.179,31ha dos 318.767ha analisados.

 

Relação das espécies da Avifauna da APA do Ibirapuitã residentes em campos de pastagem.

As pesquisas realizadas sobre a Avifauna da Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã, que é atualmente a maior área de preservação ambiental do estado do Rio Grande do Sul, abrangendo os municípios de Alegrete, Rosário do Sul, Quaraí e Sant’Ana do Livramento, localizados na Fronteira Oeste do Estado.

 

COBERTURA VEGETAL

ESPÉCIES

(%)

Campos nativos

71

49,31

Matas

42

29,17

Vegetação antrópica

4

2,77

Mistos

27

18,75

Total

144

100

 

A relação biótica dessas aves

Assim, a avifauna encontra-se numa condição otimista, com exceção de alguns Falconídeos e Accipitrideos, que são caçados nas fazendas por serem genericamente enquadrados como predadores de cordeiros, pintos e outros pequenos animais domésticos. E esse é um quadro preocupante visto que tais animais ocupam o topo de uma cadeia alimentar, na qual o seu trabalho de predador assume vital importância no controle natural das populações predadas. Por conta da drástica redução de suas populações, já se constata um considerável aumento na população de Rolinhas e pombas-rola (Columbidae sp.) nas áreas de lavoura orizícolas e de cobras nas áreas de campos nativos.

As lavouras (monoculturas intensivas) substituem os campos e matas nativas, reduzindo o já pequeno espaço natural de algumas espécies e proporcionando um sucesso biológico artificial à outras, causando desequilíbrios populacionais de proporções crescentes. Ao mesmo tempo em que a dispersão de agrotóxicos nos corpos hídricos compromete a cadeia alimentar de espécies aquáticas.

A exploração econômica da madeira, por sua vez, tem colaborado para o desmatamento de matas ciliares e aluviais, importante refúgio e local de nidificação de outras espécies aquáticas, entre elas:

Maria-faceira - Syrigma sibilatrix;

Garça-moura - Ardea cocoi;

Cegonha - Ciconia maguari;

Tachã - Chauna torquata.

Por fim, a caça tem sido responsável, ao longo dos anos, pela drástica diminuição e extinção de algumas espécies da avifauna silvestre gaúcha, entre elas:

Perdigão - Rhynchotus r. rufescens

Marreca-pardinha - Anas flavirostris

Marrecão - Netta peposaca

 

4. Discussão

A caça indiscriminada de falconídeos e accipitrídeos tem ocorrido ao mesmo tempo em que as fazendas pecuárias se estabeleceram no estado, e a medida em que os anos passam há uma tendência natural da subdivisão da terra, aumentando progressivamente a própria densidade demográfica da região, diminuído os recantos naturais de sobrevivência e reprodução dessas aves. Isso nos remete a uma pergunta inevitável e preocupante: Até quando essas aves conseguirão manter suas populações estáveis? O que se poderia fazer nesse sentido? Creio que seria necessária uma campanha preservacionista junto aos sindicatos rurais e demais órgãos diretamente ligados ao homem do campo, cabendo aí uma intervenção do IBAMA e ONG’S regionais relacionadas ao meio ambiente. Ao mesmo tempo seria indispensável a disseminação dessa consciência ecológica junto aos alunos

dos pólos educacionais espalhados no interior da campanha gaúcha.

Quanto à caça esportiva, anualmente regulamentada no Rio Grande do Sul, somente as reservas ecológicas poderão fornecer segurança a essas espécies abatidas legalmente todos os anos em território gaúcho. Porém, a estrutura operacional dos órgãos de fiscalização impede uma adequada proteção ambiental ao passo que somente uma reformulação legal poderá promovê-la.

Quanto à demais aves, resta a perspectiva de uma constante manutenção populacional garantida pela própria estrutura ocupacional e econômica dessa região.

Na seqüência: Syrigma sibilatrix - maria-faceira; Pyrocephalus rubinos - príncipe; Xolmis irupera - noivinha; Falco sparverius - quiri-quiri; Poospiza nigrorufa - quem-te-vestiu e Egretta thula - garça-branca-pequena.

 

5. Conclusão

A campanha gaúcha, enquanto ecossistema sem similar no país, comporta uma riqueza ornitológica inquestionável e sua proteção determinará ou não a preservação de espécies endêmicas e tantas outras migratórias, por ser uma área de transição de dois grandes domínios morfoclimáticos.

É certo que grande parte destas aves encontram-se naturalmente equilibradas com o meio ambiente, principalmente pelos fatores ocupacionais e atividades econômicas desenvolvidas na região.

Porém estas mesmas causas põem em risco algumas espécies, exigindo medidas educacionais e protecionistas a fim de evitar que as mesmas sejam extintas da região.

 

6. Referências Bibliográficas

Aves Silvestres Do Rio Grande Do Sul - DUNNING, John e BELTON, William. Fundação Zoobotânica do RGS, 3ª Ed. Porto Alegre-1993.

Aves do rio Grande do Sul : Distribuição e Biologia. BELTON, William. Ed. Unisinos, São Leopoldo - 1994.

Aves do Taim. VEIGA,Luis; OLIVEIRA, Alfredo T.; GASTAL, Ney de Araújo. Ed. Abrapa.

Boletim CEO nº 11, São Paulo-1985.

Boletim CEO nº 12, São Paulo-1985.

Biologia dos Vertebrados- 5ª edição. ORR, Robert T. Ed. Rocca , São Paulo - 1986

Novo Manual - Biologia. MOISÉS, Hélvio N. e SANTOS, Thais H. Ed. Nova Cultural, São Paulo - 1996

Pequeno Manual do Ornitólogo Amador SARAIVA, Fernando T. C.. Martins Livreiro Editor, Porto Alegre - 1986.

Zoologia Geral .STORER/ USINGER/ STEBBINS/ NYBAKKEN. Companhia Editora Nacional, São Paulo - 1998.

Ornitologia Brasileira - HELMUT, Sick. Ed. Nova Fronteira, 2ª edição. Rio de Janeiro-1997.

 

* Acadêmico do Curso de Ciências Biológicas - URCAMP/Alegrete

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014