ISSN 0104-2386

N.96 - Julho/Agosto (July/August) de 2000

 

Aprendizagem vocal em beija-flores 

 

Erich D. Jarvis, Sidarta Ribeiro, Maria Luisa da Silva, Dora Fix Ventura, Jacques Vielliard & Cláudio Mello

RESUMO
Entre todas as aves, os beija-flores são notáveis por várias das suas características de vida: eles se alimentam do néctar das flores pairando no ar e são os únicos seres capazes de voar à ré; eles podem enxergar a luz ultravioleta que sinaliza certas flores; eles apresentam um metabolismo altíssimo, com as asas batendo num ritmo de até 90 por segundo e o coração até 2.000 por minuto; eles precisam ingerir açúcar regularmente para manter-se ativos e entram em torpor noturno quando suas reservas energéticas se esgotam; eles tem um tamanho diminuto, até menos de 2 gramas em algumas espécies, mas um cérebro relativamente grande; eles apresentam comportamentos extremamente elaborados e uma variedade ímpar de vocalizações, com uma enorme diversificação entre as espécies. São aproximadamente 320 espécies da família dos troqüilídeos ou beija-flores, todos vivendo no Novo Mundo, a grande maioria nas regiões tropicais das Américas, mas também até o Alaska e a Patagônia. No Brasil foram registradas pelo menos 80 espécies, das quais um quinto exclusivas do país, particularmente Mata Atlântica e campos rupestres do Brasil Central. Fora essas espécies de distribuição restrita, muitos beija-flores ocupam grandes áreas e alguns executam amplas migrações.
Um aspecto pouco conhecido da vida dos beija-flores é seu sistema de comunicação sonora. Apesar de ter uma siringe, o órgão de produção vocal das aves, simplificada, eles são capazes de emitir uma variedade extrema de estruturas sonoras. Esses sons são geralmente muito agudos e rápidos, e portanto pouco percebidos pelo nosso ouvido. O registro dessas vozes requer o uso de gravadores e microfones de alta sensibilidade e fidelidade. Pesquisas iniciadas no Brasil em 1973 por Jacques Vielliard, com o apoio de Aristides Pacheco Leão, então Presidente da Academia Brasileira de Ciências, e Augusto Ruschi, fundador do Museu de Biologia Mello Leitão em Santa Teresa (Espírito Santo), até hoje o único centro de estudo dos beija-flores no Brasil, resultaram no maior acervo existente sobre as vocalizações dessas aves. Essas gravações incorporam o Arquivo Sonoro Neotropical no Laboratório de Bioacústica da Unicamp em Campinas (São Paulo), onde são analisadas. Desta maneira, já foi descoberto que espécies de beija-flores são capazes de, por exemplo, emitir dois sons ao mesmo tempo (fenômeno da “voz dupla” até então conhecido em poucas aves), variar individualmente a seqüência de notas de seu canto (modalidade do canto “versátil” até então conhecido somente em sabiás), e apresentar variações regionais de canto ou “dialetos”, indício de aprendizagem. De fato, como o Homem, certos beija-flores desenvolveram também a característica, rara entre os animais, de aprender sua “língua”, ou seja, eles adquirem seu repertório vocal por imitação e não por instinto. 
A pesquisa apresentada aqui se baseou na observação de duas espécies de beija-flores da Mata Atlântica vivendo em liberdade no parque do Museu de Biologia Mello Leitão, o Balança-rabo-de-bico-torto Glaucis hirsuta e o Beija-flor-cinza Aphantochroa cirrhochloris. Usando a manifestação de um gene ligado ao comportamento, ficou evidenciado que eles tem 7 estruturas encefálicas distintas que são ativadas durante o canto; isto representa a primeira demonstração da existência de núcleos cerebrais controlando a voz de beija-flores. Essas estruturas são extraordinariamente similares às 7 regiões telencefálicas que estão envolvidas na aprendizagem vocal e na produção de sons em pássaros canoros e em papagaios, os outros dois únicos grupos de aves conhecidos por terem cantos aprendidos. Tal similaridade é surpreendente, já que pássaros canoros, papagaios e beija-flores não são parentes próximos e devem, portanto, haver evoluído a aprendizagem vocal e a organização cerebral correspondente de maneira independente.
A presente publicação confirma que a pesquisa científica realizada no Brasil tem a capacidade de participar dos avanços de ponta do conhecimento humano. Aliás, o Brasil tem a vantagem de dispor de uma invejável biodiversidade, o que permite escolher as espécies mais adequadas ao assunto a ser estudado. Mas esta pesquisa só foi possível graças a iniciativa de alguns cientistas de colaborar livremente entre eles. De um lado, Jacques Vielliard com o Laboratório de Bioacústica da Unicamp onde são arquivados os dados relativos a biodiversidade, Maria Luisa da Silva, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Comportamento da USP, especializando-se em estruturas complexas de comunicação sonora, e Dora Ventura, cujo Laboratório, no Departamento de Psicologia Experimental da USP, já obteve resultados notáveis sobre a visão e o comportamento de alguns beija-flores, mantêm um convívio ativo de longa data. De outro lado, um grupo de pesquisadores da Rockefeller University, especializados em aprendizagem vocal, troca dados e idéias como Dora e Jacques há vários anos. Até o dia, uns dois anos atrás, no qual os colegas norte-americanos, Erich Jarvis, Sidarta Ribeiro e Claudio Mello, esses dois últimos aliás de nacionalidade brasileira, anunciaram dominar uma nova técnica que permite evidenciar a atividade cerebral ligada ao canto; coube aos pesquisadores baseados no Brasil selecionar as espécies mais promissoras para tentar algum avanço no conhecimento da aprendizagem em aves. Assim foi elaborado um projeto cooperativo de pesquisa que recebeu rapidamente as autorizações necessárias e foi executado em comum no Museu de Biologia Mello Leitão. A redação do trabalho foi decidida em Caxambu, quando os autores se encontraram por ocasião da reunião anual da FeSBE em agosto de 1999.
O Brasil pode conquistar mais espaço no cenário científico internacional, não somente por grandes ações temáticas, como os estudos de Genoma ou de Biota, mas também investindo mais no apoio às iniciativas individuais de cooperação e às estruturas de registro da biodiversidade. A combinação da riqueza florística e faunística do Brasil com a dinâmica dos seus órgãos de pesquisa representa um potencial a ser desenvolvido com sucesso.
Nature 406, 628-632, 2000

 

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Última modificação (
Last modified): 09 março, 2014