ISSN 0104-2386

N.97 - Setembro/Outubro (September/October) de 2000

 

Questões linguísticas em Ornitologia, III: origem do vocábulo harpia e sua variante prosódica

Fernando Costa Straube- Curitiba-PR

 

História nomenclatural da Harpia harpyja

Eduardo Brettas

O espanhol Francisco Hernandez foi um dos primeiros naturalistas a observar a mais poderosa ave rapineira do Brasil, a harpia, durante sua expedição de sete anos ao México (1570-1576), acompanhando o cosmógrafo Francisco Dominguez (Smith, 1891). Esse viajante teria sido mandado ao Novo Mundo por ordem de Filipe II que, após ler a obra do jesuíta José de Acosta, de 1588, ficara interessado em saber mais detalhes sobre o mundo natural dos novos domínios espanhóis, inclusive esclarecer sobre os ossos dos gigantes lá encontrados (Priore, 2000). Nos 16 volumes de sua obra póstuma (datada de 1628) sobre História Natural (Pinto, 1963) publicada em latim, cita uma enorme ave de rapina sul-americana chamada yzquahutli (Pinto, 1978).

Foi baseado em tais informações que o sueco Carolus Linnaeus (Linnaeus, 1758), patrono da classificação de animais e plantas, descreveu a espécie com maiores detalhes no ano de 1758, batizando-a de Vultur harpia.

Em princípio, Linnaeus acreditou em um parentesco com o condor, os urubus e os abutres do Velho Mundo e, por esse motivo, a enquadrou no gênero Vultur. Posteriormente, outros autores, de acordo com a argumentação disponível, a transferiram para os gêneros Falco, Morphnus ou Thrasaetus (Pinto, 1978). A combinação entre esses vários nomes, mais a grande variedade de epítetos específicos, gerou vários sinônimos para a mesma espécie, por exemplo, Falco harpyja, Falco cristatus, Falco destructor, Harpyia destructor, Thrasaetus harpyia, Morphnus harpyia, dentre outros (Oken, 1837; Pinto, 1963).

Quase 60 anos depois de Linnaeus, em 1816, o competente ornitólogo francês Louis J.P.Vieillot, concluindo que a espécie não encontrava parentesco evolutivo com aquelas aves, criou para ela um gênero próprio (Pinto, 1979). Chamou-o de Harpia, tautônomo do nome dado por Linnaeus, uma lógica inspiração nas conhecidas harpias da mitologia grega. Sua descrição baseara-se na aigle destructeur atribuída ao naturalista George Louis Leclerc, o afamado conde de Buffon (Buffon, 1761).

No mesmo ano, descartando a denominação criada por Vieillot, o zoólogo George Cuvier tentou propor-lhe uma grafia diferente: Harpyia, acreditando se tratar de erro de transliteração do grego para o latim. Essa forma foi seguida por vários autores, dentre eles Hermann von Burmeister, mas, posteriormente acabou prevalecendo mesmo a grafia original (Pinto, 1963).

As harpias da mitologia grega eram filhas de Taumas e sua esposa Electra, divindades marinhas misteriosas. Eram três: Coeleno (a obscuridade), Aelo (a tempestade) e Ocipete (a rapidez); tinham corpo de abutre e cabeça de velha e desprendiam um cheiro horrível. Contaminavam tudo o que tocassem, fossem objetos ou alimentos, tornando-os pútridos e imprestáveis (Spalding, 1972; Civita ed., 1973; Kury, 1992). Para autores muito antigos (Menestrier, 1688), a sua conformação era encimada por faces de mulher e o corpo de águia.

Na Teogonia de Hesíodo, as harpias são divindades aladas, e de cabeleira longa e solta, mais velozes que os pássaros e os ventos; no terceiro livro da Eneida de Virgílio, aves com cara de donzela, garras encurvadas e ventre imundo, pálidas de uma fome que não podem saciar. Descem das montanhas e conspurcam as mesas dos festins. São invulneráveis e fétidas; tudo devoram, guinchando, e tudo transformam em excremento (J.L.Borges in Priore, 2000)".

 

 

Hárpia ou harpia?

Seguidas vezes escutamos pesquidadores do campo biológico, e mesmo leigos, pronunciarem "hárpia", ao invés de harpia. Essa questão prosódica segue, pela literatura e comunicação oral da língua portuguesa, há muitas décadas. Confesso que foram poucas as vezes, entretanto, que vi a forma "hárpia" expressa por escrito e, em apenas uma delas, estava corretamente acentuada.

Afinal, é uma paroxítona terminada em ditongo e, portanto, leva acento. Apesar dessa precisão, a palavra "hárpia", em respeito às normas de transliteração do grego para o português, carece de fundamento.

Transcrevo uma frase do filólogo Cândido de Figueiredo (1917:

"É sabido e corrente que a prosódia das palavras portuguesas depende, em regra, da quantidade da penúltima sílaba das palavras latinas ou gregas, de onde aquelas procedem".

De acordo com Afrânio do Amaral (1976), havia, no grego clássico, nítida diferença entre quantidade, intensidade e tonalidade das vogais.

A primeira, define a duração, expressa pelo tempo consumido na pronúncia (longa ou breve); a segunda representaria a força de articulação expiratória exercida na pronúncia (tônica ou átona). A terceira, por fim, exprimiria a altura musical alcançada na pronúncia, definindo o timbre (aberta ou fechada).

O étimo harpia provém do grego arpeia , que, com caracteres latinos torna-se "harpia", segundo a normatização apontada por Buchanan (1956). Ora, o ditongo ei (épsilon + iota), transformado do grego tornando-se "i", faz tônica a respectiva sílaba em português. Para o latim, o vocábulo grego seria escrito como harpyja, trissilábico, mas em ambos os casos, com tonicidade no "j", cujo valor, para o português, é idêntico ao "i" (Koehler, 1953).

Tenha se originado quer do latim (como sugere Ferreira, 1986), quer do grego, o correto, em português, é pronunciar harpia, com "i" tônico, e sem qualquer acentuação.

Referências bibliográficas

Amaral, A. do. 1976. Linguagem científica. São Paulo, Conselho Federal de Cultura. 297 pp.

Buchanan, R.E. 1956. Transliteration of greek to latin in the formationi of names of zoological taxa. Systematic Zoology 5(2):65-67.

Buffon, G.Leclerc, Comte de. 1761. Animaux de nouveau continent. Histoire Naturelle 9. Paris, Imprimeire Royale.

Carnoy, A. 1976. Dictionnaire étymologique de la mithologie gréco-romaine. Louvain, Ed.Universitas.

Civita, V. ed. 1973. Dicionário de mitologia greco-romana. São Paulo, Abril Cultural. 196 pp.

Ferreira, A.B.de H. 1986. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1089 pp.

Figueiredo, C. de. 1917. Novas reflexões sôbre a língua portuguesa. Lisboa, Livraria Clássica Editora. 826 pp.

Koehler, H. 1953. Dicionário escolar latino-português. Rio de Janeiro, Ed.Globo. 975 pp.

Kury, M.da G. Dicionario de mitologia grega e romana. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

Linnaeus, C. 1758 (1956). Caroli Linnaei Systema Naturae. A photographic facsimile of the first volume of the tenth edition (1758): Regnum Animale. Londres, British Museum. 823 pp.

Menestreier, C.F. 1688 (1976). La methode du blason. Paris, G.Trédaniel. Edição Fac-similar. 336 pp.

Oken, 1837. Allgemeine Naturgeschichte für alle Stande. Stuttgart, Hoffmannsche Berlags-Buchhandlung. 685 pp.

Pereira, I. 1990. Dicionário grego-português e português-grego. Braga, Livr.Apostolado da Imprensa. 1054 pp.

Pinto, O.M.de O. 1964. Ornitologia brasiliense. São Paulo, Departamento de Zoologia. 182 pp.

Pinto, O.M.de O. 1978. Novo catálogo das Aves do Brasil. São Paulo, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais. 446 pp.

Pinto, O.M.de O. 1979. A Ornitologia no Brasil através das idades. Séc.XVI a XIX. São Paulo, Revista dos Tribunais. Brasiliensia Documenta, 13.

Priore, M. del. 2000. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo, Companhia das Letras. 148 pp.

Smith, B.E. 1891. The century dictionary and encyclopedic lexicon of the english language. Nova Iorque, The Century Co., 10 vols., 7046 pp.

Spalding, T.O. 1972. Dicionário da mitologia latina. São Paulo, Cultrix. 166 pp.

 

 

 

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