ISSN 0104-2386

N.97 - Setembro/Outubro (September/October) de 2000

 

Dieta e Biologia Reprodutiva de Eudocimus ruber e Egretta caerulea (Aves: Ciconiiformes) nos manguezais de Santos-Cubatão, São Paulo

Fabio Olmos – São Paulo-SP

RESUMO DE TESE

A composição da dieta da garça-azul Egretta caerulea e do guará-vermelho Eudocimus ruber em um manguezal no sudeste brasileiro foi estudada durante a temporada reprodutiva de 1995-1996. Caranguejos corresponderam a 95,5% das presas capturadas por E. ruber e 80% das presas de E. caerulea. No entanto, a sobreposição de dietas foi de ~30% devido à preferências de E. ruber por Uca spp. e Eurythium limosum capturados em suas tocas, enquanto as garças capturaram principalmente os caranguejos arborícolas e semi-arborícolas Aratus pisonii e Armases rubripes. As preferências por presas e baixa sobreposição é explicada pelas estratégias de caça divergentes dos guarás (forrageadores táteis) e garças (predadores visuais), o que permite a divisão da diversa guilda de caranguejos. Os guarás reproduziram-se com sucesso enquanto alimentavam-se de organismos estuarinos devido às baixas salinidades registradas durante a temporada reprodutiva, que coincide com as chuvas.

A biologia reprodutiva de E. ruber foi estudada em um sítio (Colônia Rio Morrão) durante a temporada de 1996-97, juntamente com a de E. caerulea. A biologia de Egretta caerulea também foi estudada em uma segunda colônia, Alemoa, durante 1996 e 1997. Os guarás começaram a visitar o local da colônia em meados de setembro de 1996. A construção dos ninhos e as posturas ocorreram no início de novembro, no intervalo de poucos dias e de forma praticamente sincrônica, formando "pulsos" de nidificação. A postura média do primeiro pulso foi de 2,45 ovos/ninho, e 0,67 filhotes/ninho atingiram três semas de vida, quando eram capazes de andar pela árvore-ninho e vizinhanças. A predação foi a principal causa da perda de ninhos (74%), seguida pela queda dos mesmos (19%). Um segundo pulso, também sincrônico, teve início no final de dezembro, quando os juvenis do primeiro pulso já eram capazes de vaguear pela colônia e realizar vôos curtos. A postura média deste pulso foi de 2,05 ovos/ninho, com uma produtividade de 0,34 filhote/ninho. Quedas de ninhos durante tempestades foram responsáveis por 58% das perdas, enquanto a predação correspondeu a outros 27%. Um terceiro pulso, iniciado quando os filhotes do segundo haviam atingido sua terceira semana, não produziu filhote algum. O período de incubação foi estimado em 21-24 dias, e os filhotes eram capazes de voar bem com 40 dias, desertando a colônia ao redor de 75 dias de idade. Os guarás apresentaram um padrão bimodal de reprodução; casais nidificando no início da temporada reprodutiva apresentaram maior sucesso. Os ninhos foram construídos bastante próximos entre si (uma esfera com 1,8 m centrada em um ninho médio abrangeria seus quatro vizinhos mais próximos) e sempre havia mais de um ninho por árvore. A maioria dos ninhos foi construída no terço superior das árvores-ninho e tinham alguma cobertura de ramos. Houve uma tendência dos guarás construírem seus ninhos mais próximos entre si durante o segundo pulso, talvez uma estratégia para reduzir o risco individual de predação. Análises feitas através de regressões logísticas mostraram que o sucesso de um ninho, durante o primeiro pulso, foi positivamente correlacionado ao tamanho da postura, número de ninhos na árvore e número de ninhos na árvore mais próxima, e negativamente à distância do vizinho mais próximo. Durante o segundo pulso houve associações significativas negativas entre sucesso e altura do ninho e distância do quarto ninho mais próximo, e positiva entre sucesso e grau de cobertura do ninho.

O tamanho da postura na colônia Alemoa foi de 2,55 ovos em 1996 e 2,57 em 1997. Uma média de 0,91 filhote/ninho foi produzida em 1996, quando a predação foi a principal causa de perdas, e 0,98 filhote/ninho no ano seguinte, quando a maioria das falhas se deu por queda de ninhos. Houve pouca influência de variáveis descrevendo a situação espacial dos ninhos sobre seu sucesso, mas em 1997 o sucesso de um ninho esteve positivamente associado com o de seus vizinhos, sugerindo que há sítios ótimos na colônia. Na colônia Rio Morrão, ativa apenas na temporada 1996-97, o tamanho médio da postura foi de 2,21 ovos e apenas 0,53 filhote foi produzido por ninho. A maioria das falhas se deu pela queda de ninhos, mas houve apenas uma fraca associação entre sucesso e posição do ninho.

Os resultados obtidos para os guarás apóiam a visão das colônias como "selfish herds" que diminuem o risco individual de predação tanto de ninhos como de adultos, a última sendo provavelmente um fator mais importante na agregação das aves. No entanto a causa última da colonialidade pode estar mais relacionada aos sistemas de escolha de parceiros e seleção sexual das aves. Na ausência de territórios de alimentação sobrepostos aos de nidificação, e outros fatores promovendo a dispersão de adultos, as colônias podem ter se originado de agregações de machos em exibição em busca de cópulas ("leks") e fêmeas selecionando parceiros de melhor qualidade. Sugere-se que as colônias constituem "hidden leks" onde a busca de cópulas extra-par é um fator seletivo importante agregando as aves.

Tese de doutorado em Zoologia pela Unesp-Rio Claro no dia 30-8-00. Meu orientador foi Ed Willis.

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): 09 março, 2014