ISSN 0104-2386

N.98 - Novembro/Dezembro (November/December) de 2000

 

Antecendentes de uma curiosidade bibliográfica acerca das aves brasileiras

As razões são muitas, e, além de algumas específicas, cada colecionador tem suas próprias motivações.

a (Uma vida entre livros, José Mindlin, 1997)

 

 

José Fernando Pacheco – Rio de Janeiro

 

Tenho a consciência que sou um colecionador, daqueles que colecionam informações. Assim, publicações se constituem numa fonte natural de informações e, por sinal, das mais democráticas. Certamente, se tivesse nascido em berço de ouro estaria vivendo afogado em meio a uma montanha bem maior de livros. Nesse aspecto eu me identifico inteiramente com o meu amigo (nascido trinta anos antes) Johann Becker, um baiano-alemão, que literalmente vive dessa forma em seu pequeno apartamento ou com Paulo Sérgio da Fonseca, um inveterado e orgulhoso bibliófilo.

Não bastasse uma compulsão bio-bibliográfica que devo ter herdado de vidas passadas, eu tenho também uma necessidade interna de rememorar episódios que vão por si só tornando-se antigos. Nesse sentido, é que há poucos anos eu me interessei por averiguar como havia se processado internamente o meu interesse pelas aves, se em dado momento (também lembro !) eu não possuía nenhuma predileção especial por elas.

Essa busca me levou a rememorar passagens que se situam antes de muitas datas importantes em minha vida dedicada especialmente à ornitologia. Antes do primeiro contato com o Museu Nacional, antes de conhecer Helmut Sick e Herbert Berla, antes do meu primeiro binóculo, antes de folhear o primeiro guia de campo, enfim, antes de me interessar pelas aves por decisão consciente. Essa "segunda" fase, inegavelmente dedicada à ornitologia, está contada em linhas gerais na entrevista concedida aqui (AO 90).

Houve um período em que o meu interesse era amplo por bichos, com uma certa preferência por mamíferos, em primeiro lugar e insetos, em seguida. Num dado momento percebi quão importantes haviam sido as enciclopédias infanto-juvenis de curiosidades e as matérias de divulgação científica publicadas em revistas populares no direcionamento de meu interesse pela zoologia.

Um tio meu, Geraldo Barbosa, que possuía a melhor biblioteca da família, foi o responsável pelas minhas primeiras experiências bibliofílicas. Passava horas enfurnado em sua biblioteca, em completo silêncio, lendo de tudo um pouco. Tanto tempo, que algumas vezes as pessoas em sua grande casa, esqueciam de mim. O motivo da visita ao Tio Geraldo podia ser qualquer um, pois eu dava sempre um jeito de me desvencilhar e passar uma boa parte do tempo na biblioteca. Lá pude ter acesso a várias enciclopédias e a um punhado de livros que fizeram a minha cabeça. Alguns temas eram mais especiais para mim que outros. Tinha predileção por ciências, história e geografia. Eu lembro que uma busca não muito ostensiva por informações zoológicas me levou a conhecer os livros fartamente ilustrados "Aves" e "Mamíferos" do MEC (o primeiro editado em 1963), que igualmente faziam parte dessa sortida biblioteca do tio Geraldo. Bem, esses livros haviam sido concebidos para o público infanto-juvenil e caíram como uma luva em minha curiosidade. Apenas muitos anos mais tarde, eu me dei conta que o Sick havia colaborado como consultor-técnico do volume de Aves.

Reconheço que durante boa parte dos anos 1960 o meu interesse por zoologia não estava à frente de outras áreas, mas talvez isso tenha sido decorrente de uma falta específica de estímulos. Além de ter assistido a uns poucos documentários (pioneiros) sobre vida animal veiculados pela TV, eu lembro de ter pedido veementemente para os meus pais comprarem uma revista que trazia na capa um passarinho vermelho. Tratava-se do número 9, de janeiro de 1968, da "Enciclopédia Bloch" que continha uma matéria sobre as ameaças que rondavam 2.000 espécies de aves no mundo, levando-as a extinção! Guardo até hoje "destroços" dessa revista que li possivelmente centenas de vezes. Creio que deve ter sido essa revista a primeira fonte que tratava de questões conservacionistas, que puder ler com atenção. Foi marcante para mim saber daquilo. Fiquei bastante impressionado com aquela reportagem e passei, ainda que ingenuamente, a questionar o "progresso" a qualquer preço da propaganda oficial naqueles anos. Afinal, naquela época nem professores, tampouco livros didáticos, tratavam geralmente do tema ‘Conservação da Natureza’.

Posso admitir hoje que uma publicação mensal, disponível em bancas de jornais, teve um peso grande na minha opção pelas aves. Ao comprar em outubro de 1974 o número inaugural da Revista Geográfica Universal (está comigo até hoje) encontrei uma matéria intitulada "Cada ave no seu ninho" que tratava da reprodução das aves. Descobrir que alguém no Brasil estava escrevendo sobre esse assunto para o grande público foi animador. A partir daí, por cerca de três anos, essa revista foi para mim uma fonte permanente de satisfação. Tenho certeza que muitos irão concordar comigo, em reconhecer como foi valiosa a existência dessa revista nos anos 1970, para os amantes das paisagens humanas e naturais, brasileiras ou não. Curiosamente, quatro anos depois, já freqüentando o Museu Nacional, tive a chance de travar contato com o autor desta primeira matéria, o zoólogo João Moojen (1912-1985), reconhecido especialista em roedores. Sem dúvida, a nossa primeira conversa teve um " precioso.

Pelo menos até meados de 1975 na Revista Geográfica Universal, Moojen escreveu outras matérias que incluíram aves, como "Galápagos: o arquipélago encantado" (número 4, janeiro de 1975) que continha fotografias do biguá, albatroz, pingüim e da fragata dessas famosas ilhas; "Assim voam as andorinhas do Mar" (número 6, março de 1975); "Sempre flamingos" (número 8, maio de 1975); "Quando voam as cegonhas" (número 11, agosto de 1975), dentre outras.

Nessa revista também, pude ler com grande satisfação a excelente e memorável "Águas e Terras do Pantanal" (número 26, novembro de 1976) do não menos famoso fotógrafo da natureza Luiz Claudio Marigo, em uma de suas primeiras matérias assinadas. Somente oito anos mais tarde fui, finalmente, conhecer Marigo durante as reuniões preparatórias que culminaram por criar o núcleo carioca do Clube de Observadores de Aves, do qual ele se tornou o primeiro diretor.

Com essa desprentesiosa nota posso admitir, por escrito, que os livros de divulgação científica – p.ex.: do Eurico Santos, do MEC, as enciclopédias ‘Naturama, Os Bichos, Maravilhosa’ etc – foram importantes para intensificar o meu interesse pelas aves, mas que a simpática Revista Geográfica Universal, conhecida de todos, teve igualmente grande influência nesse processo.

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): 09 março, 2014