ISSN 0104-2386

N.99 - Janeiro/Fevereiro (January/February) de 2001

 

Dicionário vernacular dos Ciconiidae do Brasil

 

Fernando Costa Straube - Curitiba-PR

Jabiru mycteria, desenho de Joacilei Lemes Cardoso

 

Esse dicionário, ou melhor, lista anotada de denominações vernáculas, foi a fonte para a análise apresentada no número 98, pág. 10, do Atualidades Ornitológicas, tendo sido desmembrada dele por exigências editoriais.

Nessa coletânea de nomes populares, incluo todas as denominações usadas como referência aos três Ciconiidae brasileiros que pude ajuntar. A designação é transcrita ipsis litteris a partir da obra original ou de compilações idôneas subseqüentes. Alguns vocábulos (entre colchetes), originários do guarani usado no Paraguai, foram incluídos para facilitar trabalhos etimológicos futuros.

As referências bibliográficas (fontes) constam no artigo analítico (Questões lingüísticas em Ornitologia, IV; neste volume). Para as abreviaturas, referentes às identificações oferecidas ou contestadas, uso: CM, Ciconia maguari; JM, Jabiru mycteria; MA, Mycteria americana e NI, não identificado.

 

 

[Ajajái]. JM (N.Pérez in litt., 2000). Denominação usada no Paraguai. Em português, seria aceitável usar "ajajái".

Bagauri. CM (Dicionário Michaelis: http://www.uol.com.br/michaelis ). Evidentemente um vocábulo corrompido, provavelmente por erro tipográfico.

Baguari. CM (Ihering, 1968:365; Pinto, 1978:32; Santos, 1979:76); MA (Ihering, 1968:365); JM (Ihering, 1968:365). Vide maguari.

Cabeça-de-pedra. MA (Goeldi, 1906:Pr.6; Ihering, 1968:365; Pinto, 1978:31; Santos, 1979:75; Andrade, 1985:118; Sick, 1991:219).

Cabeça-seca. MA (Pinto, 1978:31; Aguirre e Aldrighi, 1983:33; Andrade, 1985:118; Sick, 1997)

Cabeça secca. MA (Pinto, 1937:40).

Cauauá. JM (Andrade, 1985:118).

Cauauã. CM (Goeldi, 1906:Pr.6; Ihering, 1968:674; Pinto, 1937:40; Pinto, 1978:32; Santos, 1979:76; Sick, 1997:220).

Cegonha. CM (Pinto, 1937:40; Pinto, 1974:32; Santos, 1979:76; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:220). Influência lusitana, do vocábulo originário do latim ciconia.

Iabicu-guaçu. MA (Marcgrave apud. Teixeira, 1992:25).

Ibiruguaçú. MA (Marcgrave apud. Teixeira, 1992:25).

Iauourou. MA (Abbeville, 1614 apud. Nomura, 1996).

Jabiru. CM (Pelzeln, 1871:304; Snethlage, 1914:104; Andrade, 1985:118); JM (Marcgrave e Piso, 1624-1654 apud. Teixeira, 1992:26; Pinto, 1937:41; Ihering, 1968:365; Andrade, 1985:118). A oscilação de uso de "i" ou "u" nos cognatos jabiru e jaburu, é indicativo que o fonema original tupi seria uma letra gutural, sem equivalente no português e correspondente ao "y" da grafia guarani utilizada no Paraguai (Guasch e Ortiz, 1998; Navarro, 1999). A etimologia do vocábulo, apresentada por Andrade (1985), colhida certamente de Santos (1979), carece de fundamento. Vide javiru.

Jabiru guaçu. MA (Marcgrave apud. Teixeira, 1992); NI (Nieuhof, 1682 apud. Nomura, 1997: identificado como Jabiru mycteria, mas aqui considerada incertae sedis por falta de mais detalhes na referência original).

Jabiru Moleique. JM (Pelzeln, 1871:305). Certamente erro de grafia.

Jabiru-moleque. CM (Ihering, 1968:674); MA (Andrade, 1985:118).

Jaboru MA (Fr.Cristóvão de Lisboa apud. Oren, 1990); NI (Gabriel S.de Souza, 1587 apud.Cunha, 1982:162). "Jaboru é outra ave tamanha como um grou, tem a côr cinzenta, as pernas compridas, o bico delgado e mais que de palmo de comprimento; estas aves criam em terra ao longo do salgado, e comem peixe que tomam no mar, perto da terra por onde andam". Para Nomura (1996:139) que usa a grafia atualizada "jaburu" refere-se a Jabiru mycteria. Entretanto, o texto original não condiz com as características dessa espécie.

Jaburu. CM (Pelzeln, 1871:304; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:216, rodapé); JM (Anônimo, ca.1765 apud. Teixeira et al., 1999: "Jaburú - Hé sim em tudo ao Tuyuyú, difere em ser mais encorpado; anda em bandos, e não vôa tão alto" ; Pinto, 1937:41; Ihering, 1968:365; Pinto, 1978:32; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:220); MA (Sick, 1997:216, rodapé); NI (Casal, 1817). "Entr'outras especies de passaros conhecem-se [...] jaburús...". Vide jabiru.

Jaburu-cegonha CM (Aguirre e Aldrighi, 1983:34).

Jaburu-moleque CM (Pinto, 1944:40; Pinto, 1974:32; Santos, 1979:76; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:220); MA (Silva, 1833 apud. Cunha, 1982: "Os grandes jaburús moleques ou tutujús, ainda maiores que a êma, de côr branca, e azas pretas, tem cinco palmos dos pés ao bico..."; Pinto, 1937:40; Sick, 1997:219); JM (Sick, 1997:220).

Jabuyuyá CM (Abreu, 1783 apud. Cunha, 1982): "O Jabuyuá é quasi do tamanho deste [do juiuiu] e semelhante na côr, com a diferença de serem as pontas das azas e o rabo compostos de pennas pretas, pernas e olhos encarnados e o bico mais preto". Étimo corrompido por aglutinação de duas denominações distintas.

[Javasatî] MA (Pérez e Colmán, 1995:28). Denominação em guarani, em uso no Paraguai. Para a transliteração portuguesa, ficaria aceitável como "javaçatim"

[Javiru]. JM (N.Pérez in litt., 2000). Denominação usada no Paraguai. A proximidade fonética, e sua consequente confusão, entre as letras "v" e "b" do espanhol e português, são mais do que conhecidas pelos linguistas (Meyer-Lübke, 1916), ocorrendo inclusive entre as línguas do tronco tupi (Navarro, 1998). Vide jabiru.

João-grande. CM (Sick, 1997:219).

Juyuyu. NI (Abreu, 1783 apud. Cunha, 1982). "Os juyuyus são uns passaros brancos e quasi do tamanho de um homem, cuja carne se não come; a pelle do pescoço serve de meia para a perna de qualquer homem, o bico tem mais de um palmo de comprido e tão forte que, com uma bicada, vara uma taboa de grossura ordinária".

Magoari. CM (Ihering, 1968:366); NI (Gabriel S.de Souza, 1587 apud.Cunha, 1982). "Magoari é outra ave de côr branca, que faz tamanho vulto como uma garça, e tem as pernas e pés mais compridos que as garças, e o pescoço tão longo que quando voa o faz em voltas; e tem o bico curto e o peito muito agudo e nenhuma carne, porque tudo é pena; e voa muito ao longe, e corre pelo chão por entre o mato, que faz espanto". Para Nomura (1996:141) é Ciconia maguari. Preferimos considerá-la incertae sedis, pela discordância nas características e comportamento totalmente impróprio. Provavelmente trate-se de um Ardeidae, uma vez que o comportamento de manter o pescoço dobrado quando em vôo é ausente em todos os Ciconiidae brasileiros.

Magoary. CM (Pinto, 1937:40)

Maguari CM (Marcgrave e Piso, 1624-1654 apud. Teixeira, 1992:26; Andrade, 1985:118; Ihering, 1968:365; Sick, 1997:219); MA (Ihering, 1968:365); JM (Ihering, 1968:365). Quanto à variante baguari, note-se que a transição entre as letras "m" e "b", corresponde à consoante "mb" do tupi antigo (Navarro, 1999) e do guarani moderno (Guasch e Ortiz, 1998), que possui um valor fonético intermediário entre aquelas duas letras.

Manguari CM (Santos, 1979:76). Certamente erro tipográfico.

[Mbaguari]. CM (Pérez e Colmán, 1995:28). Denominação usada no Paraguai, com grafia guarani. Em português: "maguari".

Nhandu apoá. NI (Nieuhof, 1682 apud. Nomura, 1997: identificado como Jabiru mycteria).

Nhandu Apoa. MA (Marcgrave apud. Teixeira, 1992)

Nhanduapoá. MA (Marcgrave apud. Teixeira, 1992:25)

Padre. MA (Sick, 1997:219).

Passarão. MA (Goeldi, 1906:Pr.6; Snethlage, 1914:104; Pinto, 1937:40; Ihering, 1968:365; Pinto, 1978:31; Santos, 1979; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:219).

Rei dos Tuinins. JM (Pelzeln, 1871:305). Essa denominação colhida por J.Natterer indica que esse naturalista observou distinção entre um tuinim (rei, talvez por ser maior) de "outros" tuinins (cf. também sob tuinim-de-cabeça-vermelha), embora não seja anotado o vocábulo tuinim para nenhuma das outras espécies de Ciconiidae.

Socó. JM (Z.Wagener apud. Nomura, 1997 e Pinto, 1964).

Taboyayá. CM (Anônimo, ca.1765 apud. Teixeira et al., 1999: "Taboyayá - Hé do tamanho do Tuyuyú, tem os encontros, e pontas das azaz pretos, os pez vermelhos, e melhor carne").

Tabuiaiá. CM (Ihering, 1968:365; Santos, 1979:76; Aguirre e Aldrighi, 1983:34; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:200); NI (Gabriel S.de Souza, 1587 apud.Cunha, 1982). "Tabuiaiá é uma ave muito maior que pato; tem as pernas altas, os pés grossos, a côr parda, o bico grosso e grande; tem sôbre o bico, que é branco, uma maneira de crista vermelha, e sôbre a cabeça umas penas levantadas, como poupa [refere-se à espécie de Upupidae (Upupa epops), própria da Ásia e Oriente Médio]. Criam em árvores altas, os ovos são como de patos, mantêm-se de frutas do mato; cuja carne é dura, mas boa para comer" (Gabriel S.de Souza, 1587 apud. Cunha, 1982). Para Nomura (1996:138) é Ciconia maguari, ainda que a descrição não condiga com as características da espécie.

Tabuyayá. CM (Pinto, 1937:40); NI-1 (Barbosa, 1792 apud. Cunha, 1982). "Os passaros são innumeraveis e de diversas qualidades, como são [...] tabuyayás..."; NI-2 (Casal, 1817): "Entre outras numerozas especies de aves notaveis pela sua grandeza, ou sabor, ou plumagem, ou raridade, nomeam-se as [...], tabuyayás..."

Tapucaja. CM (Pelzeln, 1871:304). Certamente lapso por omissão de acento. Vide tapucajá.

Tapucajá. CM (Ihering, 1968:674).

Tayuyú. NI-1 (Barbosa, 1792 apud. Cunha, 1982). "Os passaros são innumeraveis e de diversas qualidades, como são [...] tayuyús..."; NI-2 (Casal, 1817). "Entr'outras especies de passaros conhecem-se [...] tayuyús...".

Teieiu. JM (Fr.Cristóvão de Lisboa apud. Cunha, 1982 e Oren, 1990). "O teieiu he pasoro muito grãode te o corpo grãode como hua ouelha tem o biquo de huo grãode palmo e o biquo he preto e a cabeca preta sem pena e o pesquoso uermelho sem pena e o sorpo todo bramquo e hele tem os peis de dous palmos gramdes e cão pretos eles fazem os filhos em riba de pauos muito grosos e muito altos e fazem tres e quatro filhos e uiuem de peixe e de palmo e meio ou dous palmos he pasoro muito duro que parece carne de uaqua os filhos he muito bom comer".

Tejeju. JM (Fr.Cristóvão de Lisboa apud. Oren, 1990 e Nomura, 1996). Vide Teieiu.

Touiuouiouch. JM (Abbeville, 1614 apud. Nomura, 1996). Grafia com influência da fonética francesa.

Toyeaiu. JM (Fr.Cristóvão de Lisboa apud. Oren, 1990)

Trepa-moleque. MA (Andrade, 1985:118)

Tuinim. JM (Andrade, 1985:118); MA (Dicionário Michaelis: http://www.uol.com.br/  michaelis).

Tuinin-da-cabeça-vermelha. JM (Pelzeln, 1871:305)

Tuinim-de-cabeça-vermelha. JM (Pinto, 1937:41; Andrade, 1985:118)

Tuinim-de-papo-vermelho. JM (Andrade, 1985:118)

Tuiú. NI (Dicionário Michaelis http://www.uol.com.br/michaelis )

Tuiú-quarteleiro. MA (Dicionário Michaelis http://www.uol.com.br/michaelis ). Denominação alóctone, talvez proveniente do Paraguai, onde a espécie é conhecida como tujuju kuartelero (Pérez e Colmán, inf.pess., 2000).

Tuiú-tuiú. NI (Morais, 1938 apud. Cunha, 1982: "Neste ínterim, baixou outra revoada de surucuás, arirambas, [...] tuiu-tuiús, gaivotas, cararás, mergulhões..."). Poder-se-ia contar com um erro de denominação para o psitácida mais conhecido como cuiú-cuiú (Pionopsitta pileata). Entretanto, a paisagem descrita - ambiente aquático - aponta para uma espécie paludícola, provavelmente um Ciconiidae cujo nome foi corrompido.

Tuiuguaçu. JM (Andrade, 1985:118)

Tuiuiú. MA (Ihering, 1968:365; Andrade, 1985:118); JM (Ihering, 1968:365; Pinto, 1978:32; Santos, 1979:75; Aguirre e Aldrighi, 1983:34; Andrade, 1985:118; Sick, 1997:220); NI-1 (Gabriel S.de Souza, 1587 apud.Cunha, 1982: "Tuiuiú é uma ave grande de altura de cinco palmos, tem as asas pretas, e papo vermelho, e o mais branco; tem o pescoço muito grande, e o bico de dois palmos de comprido; fazem os ninhos no chão, em que põem dois ovos, cada um como um grande punho; mantêm os filhos com peixe dos rios, o qual comem primeiro, e recozem-no no papo, e depois arrevaçam-no, e repartem-no pelos filhos". Para Nomura (1996:141) é Mycteria americana. Pela descrição oferecida, aproxima-se mais ao Jabiru mycteria, ainda que considere tendo as asas negras; NI-2 (Sampaio, 1777 apud. Cunha, 1982: "Tuiuiú, de extraordinária corpulência"; NI-3 (Leverger, 1847 apud. Cunha, 1982: "...varias sortes de [...], os tuiuiús [...] e outras aves aquáticas...").

Tuiuiú-coral. JM (Sick, 1997:220).

[Tujuju] No Paraguai é denominação genérica para os representantes da família Ciconiidae, cuja distinção é feita pela colocação de uma adjetivo diferencial.

[Tujuju kanguy] MA (Pérez e Colmán, 1995:28). Denominação usada no Paraguai; grafia guarani. Em português, é aceitável sua trnasliteração para "tuiuiú-cangüi".

[Tujuju kuartelero]. JM (N.Pérez, in litt. , 2000). Denominação usada no Paraguai, com hibridismo de língua espanhola e guarani (jopara). Vide tuiú-quarteleiro.

[Tujuju sapytã] CM (Pérez e Colmán, 1995:28). Denominação usada no Paraguai, com a grafia guarani. Em português: "tuiuiú-sapitã".

Tutujú. MA (Silva, 1833 apud. Cunha, 1982: "Os grandes jaburús moleques ou tutujús, ainda maiores que a êma, de côr branca, e azas pretas, tem cinco palmos dos pés ao bico". Certamente um vocábulo corrompido, talvez por erro tipográfico.

Tuyuya. JM (Pelzeln, 1871:305). Provavelmente erro tipográfico ou de transcrição de anotações em diário de campo ou rótulo de espécime de Johann Natterer.

Tuyuyú. JM (Snethlage, 1914:104; Pinto, 1937:41); NI-1 (Anônimo, ca.1765 apud. Teixeira et al., 1999: "Tuyuyu - Hé húa Ave, q'posta de pé, perfilada, iguala ao mais alto homem na altura; hé branco de côr basa, cabeça, bico, e pez pretos; voão mto alto, comem peixes, e cobras; a carne hé dura, e trigueira, porem saboroza". Julgamos insuficientes as informações para a identificação como Jabiru mycteria dada por Teixeira et al. (1999). É muito provável que se trate de Mycteria americana, visto a comparação com outra ave citada na obra setecentista (vide sob "jaburu"); NI-2 (Casal, 1817). "Tuyuyú he muito maior que o perú, branco com as pernas negras, muito altas, pescoço assáz comprido; bico pontudo; he derrabado, e da altura d'hum homem; pasta nas margens das lagoas, e sustenta-se de peixes"; NI-3 (Magalhães, 1876 apud. Cunha, 1982: "...toda a sorte de aves aquaticas, desde o gentil e pequeno marinheiro até a garça-real e o grande tuyuyú branco"); NI-4 (Taunay, 1878 apud. Cunha, 1982: "...isto mesmo nos logares menos humidos, porque da região inundada fogem todos os animaes, e nella só se avistão garças, socós e tuyuyús").

Tuyú-guassú. JM (Pinto, 1937:41).

Tuyú-yú. JM (Goeldi, 1906:Pr.6).

Yaboru. MA (Fr.Cristóvão de Lisboa apud. Nomura, 1996).

 

1 Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais. Caixa Postal 1644. Curitiba-PR. *0011-970. E-mail: juruva@milenio.com.br

 

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): 09 março, 2014