Análise sonográfica dos sinais de comunicação sonora no Canário-da-terra

JACQUES M. E. VIELLIARD - Campinas-SP

Apresentamos aqui um resultado, sobre uma única espécie e ainda de maneira preliminar, que faz parte do projeto desenvolvido na UNICAMP com o apoio do CNPq sobre o "Estudo bioacústico das aves do Brasil". Este gigantesco empreendimento baseia-se na coleção de gravações que forma o Arquivo Sonoro Neotropical e nos recursos técnicos do laboratório de Bioacústica com a colaboração do laboratório de Fonética (IEL/UNICAMP) e auxílios de diversas fontes (particularmente FUNCAMP/FMB e FAPESP). Após vários anos de trabalho, começamos a identificar os padrões de comunicação sonora em aves brasileiras e a publicar os casos específicos relevantes à medida que foram avaliados. Apresentando aqui a voz do Canário-da-terra Sicalis flaveola, pássaro bem conhecido e de distribuição ampla, tivemos o intuito de iniciar neste campo uma colaboração útil com os criadores de aves. Todavia, o material reunido até agora no Arquivo mostrou-se muito insuficiente para uma avaliação completa, somente permitindo apontar os problemas e suas soluções possíveis, para as quais a contribuição dos criadores atentos pode ser decisiva.

O canto do Canário-da-terra é formado de notas breves e fortes, parecendo quase "estalos", emitidas numa cadência irregular, aliás bastante típica. Este canto é organizado em frases (fig.1 B e C) formadas normalmente de umas 10 a 20 notas numa duração de 2 a 4s. Essas frases podem ser emitidas separadamente, ou interligadas uma a outra, ou ainda alternadas com alguns gritos de contato nos intervalos, como aliás acontece também em certas espécies da família tais como o Curió Oryzoborus angolensis e o Bigodinho Sporophila lineola. O número de notas, e conseqüentemente a duração, da frase simples, não emendada, não é fixo, nem para um determinado indivíduo. Todavia, aparece uma certa organização temporal característica: uma primeira nota introdutória, é mais simples, fraca e curta; as notas seguintes, estalos fortes, são tipicamente agrupadas em duplas, tanto semelhantes quanto diferentes uma com a outra (veja fig. 1B e fig. 1A); segue às vezes (veja fig. IC), uma nota isolada repetida 2 ou 3 vezes, e um final de composição mais complexa (veja também fig. 2C).

Além desta variação ampla na organização temporal do canto, o Canário-da-terra apresenta uma grande variedade na estrutura da nota. Os pseudo-estalos são notas (fig. 1B e 2A) breves e muito rapidamente moduladas em freqüência, tipicamente entre 4 a 9 kHz, mas também mais graves (2,5 a 6,5 kHz: fig. 1C), numa duração de 50 a 70 ms geralmente. A forma dessas notas é variável, chegando a desdobrar-se (por exemplo: 2ª nota de 1C, última nota de 2B, 2ª nota de 2C) e a apresentar variações na sua modulação (como na penúltima nota de 1B). Passa-se, desta maneira, ao tipo mais suave de notas que se entremeiam aos estalos na maioria, mas não todos (veja fig. 1C), das frases; essas notas soam menos bruscas por ser a modulação de freqüência bem reduzida (por exemplo: a 6ª nota de 1B entre 5 e 6 kHz, a 1ª nota de 2C entre 5,5 e 7 kHz). Quando o canto não termina abruptamente na sua cadência (como em 1B e 2B), ele apresenta um final bastante diferente e muito variável, que pode incluir desde um trinado (veja fig. 1C, 1 nota trinada seguida de 3 notas estalidas rapidamente repetidas) até um assobiado nasal (veja fig. 2C: 1 nota bastante longa, com forma particular de modulação e formação de um forte harmônico de segunda ordem (H2), seguida de 1 nota suave mais típica do canto).

Procuramos evidenciar alguma variação regional no canto da espécie, mas o padrão de variação, muito amplo, impede identificar características populacionais. Mesmo entre as subespécies brasiliensis e pelzelni, bem diferenciadas morfologicamente, não aparecem claras divergências na estrutura das notas (veja fig. 2C versus A e B) apesar dos cantos soarem de maneira geralmente distinta. De fato, o que aparece é um padrão individual de variação como evidenciado no caso (fig. 2A e B) de dois cantores da mesma localidade.

O grito de contato (fig. 1A) é uma nota única, curta e de intensidade moderada, com uma tonalidade ligeiramente nasal ou metálica devido à formação de um harmônico de segunda ordem (H2). Esta nota é modulada em freqüência de maneira moderada como as notas mais suaves do canto, mas sua freqüência fundamental encontra-se aproximadamente uma oitava mais baixo.

Outros gritos são emitidos particularmente durante a corte, mas na ausência de gravações não é possível descrever sua estrutura.

Os sinais de comunicação sonora do Canário-da-terra tem uma estrutura física simples e bastante uniforme, já que todas as notas parecem poder ser derivadas estruturalmente umas das outras. A organização do canto aparece mais complexa, com uma seqüência de notas diversas sem regras evidentes nem padrão temporal determinado. Nessa condições não é possível nem especular onde encontra- se a informação de reconhecimento específico que representa a função biológica essencial do canto, já que tanto a forma quanto o ritmo e a seqüência dos elementos sonoros apresentam amplas variações. Para entender melhor qual seria o mecanismo de comunicação sonora específica no Canário-da-terra, existem duas abordagens complementares.

Um ponto a esclarecer é o padrão de variação do canto na natureza. Com os documentas já gravados disponíveis agora, o sistema de variação parece mais individual de que geográfico: não se evidenciou dialetos regionais, mas sim diferenças amplas entre indivíduos de uma mesma população. Todavia, precisa-se para tal avaliação de análises sonográficas planejadas de maneira sistemática para este fim.

O outro ponto importante de resolver é de saber se o canto é transmitido, de pai para filho, geneticamente ou por aprendizagem. Sobre este aspecto, as observações rigorosas dos criadores cuidadosos dariam informações importantes.

Fig. 1. Sonogramas de Sicalis flaveola na escala 0-8 kHz por 2,4 s (marcações nos intervalos de 1kHz e 100 ms) em faixa larga (300 Hz). Estrutura geral do grito e da frase:

A = grito de contato, Igaraçu (PE), 21/11/73.

B = canto (1 frase curta completa), Santa Teresa (ES) em viveiro, 9/2/74.

C = canto (1 frase completa), Brumado (BA), 20/3/75.

Todas as gravações por J. Vielliard, com UHER e parábola; ssp. brasiliensis.

Fig. 2, Sonogramas de Sicalis flaveola na escala 0-16 kHz por 1,2 s (marcações nos intervalos de 2kHz e 100 ms) em faixa larga (600 Hz). Diversas notas do canto:

A = notas da parte inicial da frase, Paranamirim (PE) 20/2/75, ssp. brasiliensis.

B = últimas notas da frase, outro indivíduo, mesmo local e data.

C = últimas notas da frase, Gramado (RS), 30/11/76, ssp. pelzelni.

Todas as gravações por J. Vielliard, com UHER e parábola.

 

 

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