Alguns dados sobre a nidificação da Andorinha-Pequena-de-Casa

OTÁVIO SALLES - Jacutinga-MG

CONSIDERAÇÕES INICIAIS - Já dizia Eurico Santos, o notável divulgador de nossa fauna, que as andorinhas sempre mereceram a simpatia universal, cognominando-as arautos alados da primavera. De fato, estão presentes na Odisséia, de Homero, nas Geórgicas, de Virgílio, além de serem mencionadas por Heródoto, Aristófanes, Teócrito, Ovídio e outros grandes nomes da História. Tony Morrison, em seu livro MIGRAÇÃO ANIMAL, calcula em mais de oitenta o número de espécies de andorinhas, colocando-as entre as aves migrantes mais famosas. Os gregos já conheciam sua importância no equilíbrio ecológico e mesmo em nossos dias tais pássaros estão incorporados às tradições de diversos países europeus, sendo tidos como quase sagrados. No Brasil, de acordo com o Prof. Augusto Ruschi, ocorrem 14 espécies de 5 subespécies de andorinhas. Várias têm hábitos migratórios e uma das mais familiares e interessantes é Notiochelidon cyanoleuca oyanoleuca, conhecida popularmente como ANDORINHA-PEQUENA-de-CASA e ANDORINHA-AZUL-e-BRANCA. Tendo tido oportunidade de acompanhar por mais de uma vez sua nidificação, passou a divulgar os dados obtidos, na esperança de que possam complementar o que já se conhece a respeito.

UMA ESPÉCIE QUE TODOS CONHECEM - Descrever a ANDORINHA-PEQUENA-de-CASA torna de 12 cm de comprimento), é azul-escura na parte superior, inclusive cabeça, e branca no lado inferior, exceto a plumagem subcaudal, que é escura. À sombra a região superior parece negra. Conforme observou o prof. Helmut Sick em seu trabalho MIGRAÇÕES de AVES na AMÉRICA do SUL CONTINENTAL, trata-se de espécie migratória (segundo o grande ornitólogo, essa andorinha migra rumo ao extremo norte da América do Sul e até mais longe). Mas, e isso pode ser conferido em qualquer cidade brasileira, a migração não é total, pois alguns exemplares podem ser vistos durante todo o ano. O já citado Eurico Santos era apreciador incondicional da andorinha-pequena-de-casa:

"Velha camarada de infância, o único passarinho que não apedrejei nos tempos de menino, talvez porque então me contavam que a andorinha, quando Nosso Senhor estava na cruz, fôra, condoída, tirar- lhe os pregos crucificadores. Que fábula misericordiosa e que lindos tempos!" Nidifica preferencialmente nos berais dos telhados, embora também o façam em fendas de paredes, ocos de árvores etc. É curiosos que, na Argentina, a subespécie Notiochelidon cyanoleuca patagonica, lá denominada GOLONDRINA BARRANQUEIRA AZUL, costume construir seu ninho no fundo de canais subterrâneos feitos por outros animais, conforme atestado Aplin e Hudson.

O NINHO na PAREDE - Em agosto de 1985, ao transferirmo-nos para uma casa situada no centro da cidade, notei no quintal manso casal de andorinhas que voava com freqüência junto à entrada do porão, pousando nos fios elétricos lá existentes. Pensei que as simpáticas avezinhas procuravam uma cavidade para o ninho e, interessado em acompanhar sua nidificação, resolvi oferecer-lhes uma caixa de madeira. Dispunha de duas já bastante velhas, uma para canários-da-terra e a outra, menor, para andorinhas (esta presenteada há anos pelo amigo Carlos Isoldi, da Sociedade Ornitológica Bandeirante). Ambas estavam meio desconjuntadas, necessitando de reparos. Ocupado, porém, com inúmeros afazeres, só no dia 6 de setembro tive tempo de refazer as partes danificadas. Na manhã do dia 7, um sábado, decidi pendurar as caixas nas paredes, uma de cada lado, à entrada do porão. Só então notei, à direita, bem no alto, junto ao teto, estreita cavidade contendo um ninho no fundo. As andorinhas já haviam nidificado! Em benefício da Ciência, removi o ninho da cavidade. Estava pronto, só aguardando o primeiro ovo. Em razão disso, coloquei-o no interior da caixa menor, fixando-a exatamente sobre a entrada da cavidade que abrigava o ninho, na expectativa de que a fêmea, prestes a pôr o primeiro ovo, aceitasse o novo lar sem maiores reclamações. Mas enganei-me totalmente!

UM NOVO NINHO NA CAIXA DE MADEIRA - Na manhã do dia seguinte, 8 de setembro, um domingo, postei-me a alguma distância da entrada do porão, passando a observar atentamente a movimentação das andorinhas, que voavam por perto. Logo percebi que haviam recusado o ninho na caixa menor, pois ingressavam com entusiasmo na outra, pendurada na parede à esquerda. Pouco depois surpreendi as danadinhas transportando hastes secas de capim para o interior da caixa! Antes das 11 horas os trabalhos do casal cessaram. Fui então buscar uma escada, retirei a caixa da parede e, ao examinar seu interior, puxando a tampa corrediça, notei, além dos talos secos de gramíneas, uma pena branca, de galinha. Nos dias seguintes prossegui as observações. Após 10 manhãs de árduo trabalho (as andorinhas só construíram no período matinal, não indo além das 10 horas), ficou pronto o ninho, farto emaranhado de vegetais secos (95% de hastes, talos e folhas de gramíneas, tudo bem seco...). A câmara oológica foi caprichosamente forrada com penas, quase todas brancas, de galinha. Desde o início da construção do ninho, o casal passou a dormir com freqüência na caixa, mas não todas as noites, talvez devido às minhas constantes observações ao cair da tarde. Finalmente, 5 dias após a conclusão das obras (23/9/85) foi posto o 1º ovo, pequeno e todo branco. Nos dias seguintes (24,25 e 26/9/85) a postura prosseguiu, totalizando 4 ovos. A incubação portanto, iniciou-se no dia 26 de setembro de 1985.

NASCEM E CRESCEM OS FILHOTES - Os filhotes nasceram após 16 dias de incubação, exatamente no Dia da Criança (12/10/85), quando eu já começava a pensar que os ovos tinham gorado. Na observação que fiz às 12 horas deparei com 3 tenras andorinhazinhas, totalmente róseas, inclusive bicos e tarsos (escura, apenas a região ocular), nuas, exceto por tênues e esparsos tufos de penugem, apoiando-se umas nas outras e abrindo automaticamente os biquinhos quando eu fazia qualquer movimento com a caixa. Junto dos bebês- andorinhas, um ovo, aparentemente gorado. Mas tarde, porém, ao fazer nova observação (às 17 horas), deparei com o 4º filhote! Generosamente alimentandos pelos pais, com nutritivas rações de insetos e pequenas aranhas (conforme pude verificar), os danadinhos cresceram com rapidez. Aos 6 dias de vida abriram os olhos (parcialmente). Ao completarem 10 dias, em franco processo de empenação e com as caudinhas já despontando, abandonaram a câmara oológica, situada no fundo da caixa, indo instalar-se junto ao orifício da entrada. No dia seguinte postaram-se à entrada da caixa, recebendo os pais com os biquinhos escancarados. Nesse mesmo dia (23/10/85) notei grande acréscimo no número de piolhos presentes no ninho (da mesma espécie que assola galinhas chocas). Dois dias antes eu já notara a existência de duas espécies desse parasita na caixa (a outra, típica de ninhos de pássaros), embora em pequeno número. Quando os filhotes completaram 13 dias de vida, mostrando-se muito móveis, seus pais deixaram de dormir no ninho. Três dias depois, um acidente. Caiu da caixa um dos filhotes. Encontrei-o no chão atrás de um vaso, já morto. Para evitar o incômodo dos piolhos resolvi eliminá-los. Entretanto, desejando verificar se a infestação não poderia matar os filhotes, esperei que estivessem bem desenvolvidos. Ao completarem 19 dias aparentavam estar saudáveis, apesar da vasta piolhada. Então apliquei no ninho e sobre os filhotes ORVAL, um inseticida relativamente fraco. Livre dos piolhos, pude examinar com maior tranqüilidade as jovens andorinhas. Retirei uma delas do ninho, verificando possuir plumagem negra, sem brilho, na parte superior, com tonalidade um pouco mais escura na cabeça e dorso, apresentando no pescoço discreta coleira parda, mesma cor da área subcaudal. Coloração diferente, portanto, da dos adultos. Exatamente no dia 7 de novembro, ao completarem 26 anos de vida, os três filhotes finalmente deixaram o ninho, não mais retornando.

CONSIDERAÇÕES FINAIS - Foi visto, portanto, que pude acompanhar do início ao final a nidificação da andorinha Notiochelidon cyanoleuca. O ciclo completo, da construção do ninho ao primeiro vôo dos filhotes, demorou quase 60 dias. Após abandonarem o lar, os jovens não retornaram, passando a dormir no beiral do telhado de uma casa vizinha, com os pais. Estes, apenas 4 dias depois, começaram a construir novo ninho, desta vez na caixa menor, pendurada exatamente no local onde situava a entrada da habitação original das andorinhas, uma cavidade na parede. E o curiosos é que, nesse novo ninho, foi utilizado capim ainda verde! Ocorre que capinei um trecho do quintal e as andorinhas, oportunistas, não perderam tempo, aproveitando o "material de construção" fácil de obter. Essa segunda incubação (mais uma vez foram postos 4 ovos) demorou menos tempo. O primeiro filhote nasceu após 13 dias, dois outros após 14 e o último após 15 dias de incubação. Cresceram saudáveis, sem maiores problemas, apesar dos piolhos de galinha que, mais uma vez, surgiram em grande número. Interessante é que, tendo nascido em dias diferentes, os filhotes também deixaram o ninho um a um, em dias diversos, o primeiro 26 dias após o nascimento. Sete dias após os jovens terem abandonado o lar, o casal, começou a construir novo ninho, na caixa maior, mas, ao que parece, desistiu, já que, até hoje, 26 de janeiro de 1985, data em que concluo este trabalho, a obra não foi retomada. Mesmo assim, há possibilidade de uma terceira incubação, já que as andorinhas, agora acompanhadas dos filhotões, permanecem na área, embelezando os ares com a leveza e elegância de seu vôo. São pássaros utilíssimos, alimentando-se exclusivamente de insetos. Merecem, por isso, toda a nossa simpatia e proteção!


"Soltar aves mantidas já há algum tempo em cativeiro significa sacrificá-las, pois em liberdade nem acham comida, nem sabem salvar-se de predadores"

(Prof. Helmut Sick - "Ornitologia Brasileira, uma Introdução" - pág. 97)

 

 

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