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Nem todas as aves são pássaros...

OTÁVIO SALLES - Jacutinga-MG

©ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS

ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS N.8 JAN/FEV 1986, pág.4

David Attenborough, em sua monumental obra A VIDA NA TERRA, afirma que "A pena é algo extraordinário, é uma substância a que poucas se comparam como isolante término e nenhuma, seja de origem animal ou fabricada pelo homem, a supera como material de vôo. ... As características que distinguem as aves dos outros animais estão quase sempre ligadas, de uma forma ou de outra, aos benefícios trazidos pelas penas. Na realidade, o simples fato de possuí-las é suficiente para definir uma criatura como ave". Mas o que dizer dos familiares classificados dos jornais: ANIMAIS e AVES? Notório contra-senso! Melhor seria dizer AVES e OUTROS ANIMAIS.

Outro deslize relativamente comum é freqüente na televisão. Programas como MUNDO ANIMAL, por exemplo, extremamente meritórios por seu excelente conteúdo, deveriam contar com rigorosa assessoria científica quando de sua versão para o Português, evitando que aves como garças, tucanos, araras e outras continuem sendo denominadas pássaros, o que constitui erro palmar. Também as publicação dedicadas a Ornitofilia, Ornitologia Amadora e assuntos correlatos estampam com assiduidade títulos do tipo "PERIQUITOS ONDULADOS, PÁSSAROS MARAVILHOSOS", "AGAPORNIS, PÁSSAROS DO AMOR" etc. Ora, que o leigo cometa tais equívocos é compreensível e até perdoável, mas, deve confessá-lo, quem tem algumas noções de Ornitologia não os engole sem veementes protestos!

Rodolpho von Ihering, um dos maiores naturalistas deste País, já frisava em sua obra magna, o DICIONÁRIO DOS ANIMAIS DO BRASIL: "Pouca gente costuma fazer distinção com valor classificativo, no emprego dos vocábulos ave e pássaro, peculiares à nossa língua e à espanhola. O francês emprega indiferentemente oiseau, tanto ao designar o avestruz como o pardal e da mesma forma Vogel em alemão e bird em inglês aplicam-se a qualquer vertebrado plumado. Mas ninguém, falando corretamente nossa língua, dirá que a ema, o gavião e o papagaio sejam pássaros". O mestre até exemplifica: "Termos ouvido definir que pássaros são as aves pequenas. Estará certa? O bem-te-vi é um pássaro, mas a rolinha, muito menor, pode ser designada assim? Certamente que não, pois a rola é uma pomba e os representante desta ordem não são pássaros, porém aves, como as galinhas".

Depreende-se, portanto, a existência de valor classificativo para a palavra pássaro. Todos os vertebrados providos de penas são aves, inclusive os pássaros. Estes, porém, pertencem a um grupo zoológico bem caracterizado, constituindo a ordem Passeriformes. E a ela não se filiam tuins, andorinhões e nem mesmo os beija- flores, apesar de suas reduzidas dimensões. Daí se deduz que, se quisermos empregar com exatidão os vocábulos ave e pássaro, a noção de tamanho deve ser completamente abandonada, levando-se em conta apenas o critério de classificação. Pássaros, só os Passeriformes, que têm bico desprovido de membrana na base, tarsos isentos de penas, pés com três dedos dirigidos para a frente e um para trás e unha do dedo posterior mais forte que a dos anteriores, dos quais os dois interiores são ligados entre si na base.

Já que, para o leigo, isso não quer dizer muito, embora elimine uma série de espécies (todas as que têm dois dedos dirigidos para a frente e dois para trás, por exemplo, incluindo-se aí os menores pica-pauzinhos), a única maneira prática de esclarecê-lo é relacionando todas as famílias de Passeriformes que ocorrem no Brasil:

Dendrocolaptídeos (arapaçus e subideiras).

Furnariídeos (joões-de-barro, bentererês, trapadores etc).

Formicariídeos (chocas, tovacas, papa-formigas etc).

Rinocriptídeos (macuquinhos, tapaculo-preto etc).

Cotingídeos (arapongas, anambés, pavó, crejoá, corocochó etc.)

Piprídeos (tangarás, fruchus, rendeira, flautim etc).

Tiranídeos (bentevis, suiriris, sebinhos, tesouras, viuvinha etc).

Oxiruncídeos (bico-agudo).

Hirundinídeos (andorinhas).

Corvídeos (gralhas).

Trogloditídeos (corruíras, garrinchas etc).

Mimídeos (arrebita-rabo, sabiá-da-praia, japacanim).

Turdídeos (sabiás)

Sulviídeos (balança-rabos, chiritos, bico-comprido).

Motacilídeos (caminheiros).

Vireonídeos (pitiguari, juruviaras, verdinho-coroado).

Icterídeos (chupim, pássaro-preto, graúnas, japus, corrupião etc).

Parulídeos (pula-pulas, pia-cobra, mariquitas).

Cerebídeos (saís, cambacicas etc).

Tersinídeos (saí andorinha).

Traupídeos (sanhaços, saíras, gaturamos, tiês, pipiras etc).

Fringilídeos (azulão, curió, bicudo, canário-da-terra, cardeal, patativa, caboclinho, papa-capins, tico-ticos, trinca-ferro, tiziu etc).

Ploceídeos (pardal).

Estrildídeos (bico-de-lacre).

Como se vê, a quantidade não é pequena. Das cerca de 1.590 espécies de aves presentes no Pais (segundo o prof. Helmut Sick), quase 900 são pássaros. É importante atentar para os casos de evolução convergente, não confundindo com pica-paus os arapaçus (Dendrocolaptídeos), que se comportam como aqueles (Picídeos, da ordem Piciformes) mas possuem três dedos dirigidos para a frente e um para trás. O mesmo se diga de andorinhas (Hirundinídeos) e andorinhões. Estes, da família Apodídeos, não são pássaros, pertencendo à mesma ordem dos beija-flores (Apodiformes). Também os tuins, periquitos e similares nada têm a ver com pássaros, por menores que sejam (integram a família Psitacídeos e ordem Psitaciformes). Analisando-se com atenção as famílias que compõem a ordem Passeriformes no Brasil e seus respectivos exemplos não há como errar, evitando-se o emprego incorreto de uma palavra que, em nossa língua, tem valor classificativo. Portanto, todos os pássaros são aves, mas nem todas aves são pássaros!

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Last modified): 26 setembro, 2003