O Bem-te-vi, amigo da chácara

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de outubro de 1952, Vol. 86, N.4. pág.524

Quando o coronel Roosevelt viajou pelo Brasil, foi o nosso BEM-TE-VI que mais o impressionou, chegando a julgá-lo "o mais conspícuo dos pássaros brasileiros": realmente é uma das aves mais dignas da maior proteção do homem, alimentando-se quase que exclusivamente de insetos, e sendo grandes comilões, diariamente sacrificam considerável número de formigas, de gafanhotos et magna caterva. Já os índios o sabiam, o nome indígena deste pássaro era nta-churi, formado nas suas palavras tupi: formiga e morder: "mordedor de formigas"! Estamos citando estes elogios, pois acabamos de receber mais uma carta de um leitor do interior, apontando o BEM-TE-VI como inimigo da apicultura, uma vez que "caça abelhas sem descansar". Já citamos opiniões em contrário de numerosos leitores, até apicultores defendendo o lindo pássaro, proclamado "amigo da chácara" pelo seu maior defensor, o saudoso naturalista gaúcho, Dr. Rodolfo von Ihering, de Porto Alegre, contra os dois citados pássaros acusando-os de inimigos dos apicultores, surgiu o ilustre cientista Dr. João Dutra, também riograndense, com uma brilhante defesa que a seguir reproduzimos, uma vez que ainda existem pessoas que precisamos esclarecer sobre este assunto. Eis a cartinha do douto naturalista:

"Sr. Conde Amadeu Barbiellini, afetuosas saudações. - O último no da querida CHÁCARAS E QUINTAIS transcreve um artigo de real valor da lavra do Sr. R. Gliesch, de P. Alegre, sobre "as nossas aves silvestres úteis". Entre os interessantes dados expostos, encampa S. Sa. uma velha acusação aos nossos BEM-TE-VIS e SIRIRIS de caçadores de abelhas. "Como apicultor já procurei certificar-me do que possa haver de verídico, nessa fama, mas nunca me foi dado constatar esse crime. Em frente à minha residência existe uma alta paineira em cuja copada diversos casais de BEM-TE-VIS costumam nidificar; apesar de meu colmeal estar situado à mesma de 50 metros de distância, nunca vi um BEM-TE-VI dele se aproximar. Em meu jardim tenho um tanque encimado por uma bacia de barro que deixa escorrer lentamente a água de um pequeno repuxo. Nas bordas dessa bacia em dias cálidos vem pousar para se desalterarem BEM-TE-VIS, JOÃO-DE-BARRO e numerosas abelhas e vespas. Pois bem, de minha janela, à 8 metros de distância, tenho observado por várias vezes a perfeita camaradagem reinante entre todos esses apreciadores da linfa cristalina. Já muitas vezes e por bastante tempo tenho ficado à espreita para constatar o flagrante, mas não consegui ainda verificar nem mesmo uma simples tentativa de caça, apesar de algumas abelhas ficarem à poucos centímetros de distância de seus pretensos inimigos.

Quando aos SIRIRIS minha defesa não pode ser tão categórica, pois já tenho visto essa ave pousada em árvores que sombreia o colmeal; contudo ainda não foi possível verificar se faz jus a fama de caçadora de abelhas, pois apesar de ter ficado por várias vezes à espreita, ainda não me foi dado constatar a procedência da acusação.

Um apicultor vizinho refere-me ter observado esta ave caçando os zangões na época de sua expulsão das colméias, o que me parece não deve constituir crime passível com pena de morte, visto isso em nada prejudicar a economia das colméias. Antes de condená-las à morte por um crime, que julgo imaginário, devemos, em sua defesa, levar em conta, que no combate às IÇÁS são justamente as duas aves acusadas as que mais ativas se mostram.

21 de novembro de 1933. (a) Dr. J. Dutra."

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de outubro de 1952, Vol. 86, N.4. pág.524


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