Como vivem e como se alimentam os beija-flores

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de abril de 1954, Vol. 89, N.4. pág.455-458

"As páginas seguintes não tresandam sem dúvida bafio de gabinete ou de biblioteca ou de biblioteca. A maior parte foi sentida lá fora na mata, segredada pela Natureza. Uma das mais belas aspirações seria transportar para aqui o mais possível daquela aroma que reascende do mundo animal no estado de liberdade em seu meio verdadeiro, in loco. Quem, como eu, passou anos a fio, de espingarda ao ombro, de madrugada e noite fechada, por serras e várzeas, por descampados e matas, ao calor e ao frio, suado, às dentadas dos mosquitos, aos espinhos, de roupas rasgadas e mãos sangrando, alegre e diligente para auscultar as pulsações do mundo de organismos, não tem que recear-se da pecha de plagiário".

Estas palavras ao lermos no prólogo daquela obra inigualável que o Dr. Emilio Augusto Goeldi, quando Diretor do Museu Paranaense, publicou no Rio de Janeiro, "no ano bom de 1893", isto é, há mais de 60 anos!

Goeldi foi o grande naturalista que sempre mereceu desta revista mais que simpatia e admiração, uma verdadeira adoração. A CHÁCARAS E QUINTAIS fez suas, sem programa, as próprias palavras com que o grande mestre finalizava o prefácio de onde reproduzimos os conceitos acima: "Oxalá consigam as seguintes páginas seu intuito principal - derramar gosto pela natureza animada!".

Reproduzimos este quadro representando um grupo de BEIJA-FLORES (Trochilidae) do Álbum de Aves Amazônicas, obra editada em 3 fascícuos pela Livraria Alves do Rio, e que talvez ainda disponha de exemplares. É autor das aquarelas o pintor Ernesto Lohse. O álbum foi organizado pelo Dr. Emílo A. Goeldi, Diretor do então Museu Paranaense, atualmente Museu Goeldi, em honra do grande zoologista que o criou e o dirigiu durante longos anos. Este álbum foi publicado como suplemento ilustrativo da obra "Aves do Brasil", de onde extraímos as notas do presente artigo.

 

E tendo decidido divulgar algumas notícias interessantes sobre a vida e os costumes dos beija-flores, esta jóia viva da ornitologia brasileira, fomos resumi-las, em parte reproduzi-las integralmente da obra do grande zoologista suíço, embora já houve outros naturalistas que depois daquele mestre, escreveram sobre os nossos colibrís, ou como dizem os italianos, os "pássaros-moscas". Acontece porém que, a não ser sobre a sistemática, em que há naturalmente progressos e novidades, a biologia e os costumes das avezinhas são sempre as mesmas que Goeldi observou e descreveu: aquele "receio da pecha de plagiário" a que aludiu o antigo diretor do Museu que atualmente lhe tem o nome, teve um sentido telepático...

Naturalmente e como dissemos não vamos reproduzir as numerosas páginas dedicadas aos colibris, da obra goeldiana: nos limitaremos ao seu "modo de vida" e "à alimentação" que eles preferem.

O gênero de vida dos beija-flores é quase igual para todos eles, "muito se tem escrito e noticiado sobre tal assunto

- diz Goeldi - mas no entanto eu prefiro, ao descrevê-lo guiar-me pelas minhas próprias impressões".

"Cedo começa a ocupação diária desses pequenos cavaleiros sans peur et sans reproche. São dos primeiros a despertar. Ainda o sol não nasceu, já estão esperando pousados em um galho fino, elevado no meio da vegetação, de onde goteja o orvalho da noite, à margem de um ribeiro, à beira de uma floresta. Mal o astro do dia começa a lançar uma fisga de luz no vapor d'água em forma de fumaça, voam-lhes alegremente a encontro essas avezinhas, zumbindo e como que em folguedos, conservando-se muitas vezes durante minutos em um mesmo ponto no espaço. Parece que lhes causa sensação agradável e salutar o sorverem esses primeiros raios matutinos pela sua plumagem, a qual cintila tanto como vemos em tantas espécies, no que há de mais esplêndido no mundo das cores. Voltam várias vezes ao pouso predileto para descansarem um pouco e curarem da toilette da manhã. De repente porém somem-se - já é completamente dia. Admira-nos esta mudança brusca: mas nestas avezinhas todas as deliberações são inspirações rápidas, incalculáveis, que com velocidade pasmosa são traduzidas em atos".

"Aproveitar o tempo - parece ser esta a divisa dos Colibris. Todo o dia constantemente em movimento o seu temperamento irriquieto nunca lhes permite repouso prolongado, salvo para dirigir à apaixonada uma serenata chilreada na sombra de um dossel de folhagem entresachada de flores, no meio do zumbido de inúmeras Abelhinhas e Moscas - seus comensais à mesma mesa hospitaleira. O que nunca nos cansamos de admirar é a energia muscular armazenada nesses pequenos organismos. São verdadeiros acumuladores de força.

"Todo amigo da Natureza que conhece a região tropical de experiência própria, sabe muito bem quanto é em geral ingrata a caça pelas horas quentes do meio-dia, entre 11 horas da manhã e 3 horas da tarde. Os animais superiores descansam à sesta.

"Poucos são os animais que dispensam esse repouso - como os beija-flores e as verdadeiras e legítimas borboletas diurnas, umas e outras pedras preciosas e flores convertidas em animais.

"Todo homem que também quiser privar-se de repouso durante os ardores do dia poderá tranqüilamente fazer excursões nessas horas, armado de uma rede de caçar borboletas e uma espingarda Flobert; se parar junto a arbustos e árvores em flor, não precisará de esperar muito pela caça que procura.

"Ao cair da tarde repete-se a mesma cena de homenagens ao astro do dia, o mesmo sentido hino de louvor ao sol poente, que fora entoado pela madrugada. Conservam-se, porém, despertos ainda por algum tempo: no lusco-fusco vê-se ainda um ou outro exemplar vir zumbindo dar as boas noites aos cálices das flores e só a noite cerrada põe termo aos seus movimentos febris.

"No tocante à sua sociabilidade, os Colibris têm gênio tão brigador, que causa admiração a facilidade com que esses pirralhos procuram questões com os seus semelhantes e outras criaturas aladas. O encontro de dois machos é em geral motivo de luta, que em certas ocasiões é travada com tanto encarniçamento que por vezes ambos, cegos de raiva, no meio da briga, rola pelo chão ou penetram de súbito pela janela aberta de um quarto, onde por fim são apanhados.

"Não há muito tempo, minha esposa apanhou dois desses brigadores - eram machos - mas restituiu-os à liberdade.

"Impõem-se ao nosso respeito a coragem com que os BEIJA-FLORES atacam aves que lhe são doze vezes superiores em forças e tamanho, como BEM-TE-VIS e outras; ainda mais, atiram-se com desprezo da morte até sobre Aves de rapina, atormentando-as por largo espaço. São engraçados os seus combates com as Sphingides (Mariposas), parecendo considerá-las não só como alter egos, mais ainda como verdadeiras rivais, a quem dão combates encarniçados. Em geral,criatura alada que se atreva a aproximar-se muito do seu distrito, dificilmente a deixarão em paz.

"Tal distrito predileto cada casal o possui na sua terra, e parece que, depois de terminada a época da incubação cada um dos membros da família observa a mesma regra.

"Em que consiste a alimentação dos Beija-flores?

"Em pequeninos, exíguos insetos. Tiram-nos em parte de dentro dos cálices de flores com o auxílio do bico, cuja configuração é apropriada para esse mister, e da língua, cuja prolação é muito fácil; em parte apanham-nos de cima das folhas, ou mesmo voando, e às vezes até os retiram de alguma teia de aranha. O estômago está sempre repleto de tais insetos, na maioria microscópicos, e sem dúvida é também a alimentação que os pais oferecem aos filhotes no ninho. Todo o mundo acredita que os colibris se alimentam somente do néctar e do mel das flores; mas esta crença é simplesmente errônea. Que ao caçarem insetos nos cálices das flores também apanham néctar, e que o mel, como caldo doce e agradável, não constitui objeto de desprezo, são por outro lado coisas que ninguém contestará. É preciso não esquecer que são exatamente esses órgãos no fundo do cálice que segregam o néctar, o que constitui o ponto de atração daqueles insetos minúsculos, que por sua vez são a principal fonte de alimentação dos Trochilides - e é preciso notar que o BEIJA-FLOR, quando é sustentado exclusivamente de mel, sucumbe irremediavelmente. É que os colibris  não são vegetalistas rigorosos - mas principalmente insetívoros como os PICA-PAUS, seus parentes próximos.

"Daí se vê que os Trochilides devem representar certo papel na fecundação de algumas famílias de plantas que dão flores. Até que ponto isto se pode afirmar, é uma questão científica que, a meu ver, ainda não foi suficientemente explicada e estudada. Alguns dados positivos conheço-os eu do famoso livro de Belt "The naturalist in Nicaragua." À pág. 128 seg. menciona o autor duas espécies de Marcgravia e uma de Erythrina - por tanto um MULUNGU - como plantas da América Central adaptadas à visita dos COLIBRIS. Como visitantes menciona dos BEIJA-FLORES: Heliomaster pallidiceps e Phaetornis longirostris.

"Ultimamente dirigi-me ao venerando Dr. Fritz Mueller em Blumenau, perguntando-lhe se ele possuía observações positivas feitas no Sul do Brasil sobre os BEIJA-FLORES como fecundadores de outras plantas e quais estas plantas. Com a gentileza que lhe é própria, respondeu-me logo que estava convencido do papel importante dos BEIJA-FLORES na fecundação de certas flores do mato e que desde já podia indicar-me como tais algumas Bromélias.

"Outro naturalista assevera ter visto muitas vezes COLIBRIS retirarem dos cálices de flores as cabeças recobertas de pólen.

Idênticas observações eu as fiz aqui no Brasil, freqüentemente e sobre diversas espécies; e acentuo que foram de preferência indivíduos dos gêneros Leucochloris e Phaetornis. De sorte que, quanto ao último gênero, devo sustentar da maneira mais positiva a opinião de Belt contra a de Wallace. Assim possuo na minha coleção particular, conservado no álcool, um exemplar de cada um dos dois gêneros aqui mencionados, exemplares ainda hoje com a cabeça coberta de pólen amarelo e surpreendidos por mim no momento de visita às flores do mato" (1).

(1) O nosso fiel colaborador e grande amigo da natureza, Dr. Agenor Couto de Magalhães, escreveu e a Secretaria de Agricultura do Estado de S. Paulo editou em 1951 o trabalho ilustrado com belas tricomias "A Polinização das Flores pelos Colibris" em que o assunto é amplamente elucidado.

"Os COLIBRIS gostam de beber e banhar-se nas claras águas das rápidas torrentes das florestas. Fazem tudo voando; não pousam para este fim. Já por diversas vezes observei COLIBRIS a banharem-se na parte do aqueduto que vem da Tijuca para o Corcovado (Paineiras). Mergulham várias vezes seguidamente e sacodem-se bastante. Visitam de preferência os seus habituais lugares de banho. Se se molharem muito, é claro que lhes tornará difícil o vôo, o que se pode observar por ocasião de chuva duradoura, em que, segundo verifiquei, essas aves às vezes se encontram em grande embaraço.

"No tocante à reprodução fiz as respectivas observações ao referir-me ao ninho de cada uma das espécies. Os Trochilides põem por via de regra só dois ovos, originariamente brancos. A maior parte das espécies brasileiras parecem ter duas épocas de incubação cada ano (no nosso Estado é a primeira em Setembro e Outubro, a segunda em Dezembro e Janeiro); algumas talvez tenham três épocas. Quando os filhotes saem das cascas dos ovos não têm o bico conformado exatamente como o dos velhos, em todo o caso não têm do mesmo comprimento. Wallace (Trop. Nat. 153) descreve o bico de dois filhotes implumes de BEIJA-FLORES, que lhes haviam sido trazidos do Amazonas, como curto, triangular e largo na base, "tal qual a forma do bico de uma Andorinha ou de Andorinhão levemente alongado" e acrescenta: "Estas Avezinhas estiveram evidentemente na fase de Andorinhão."

(Ortografia atualizada)

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de abril de 1954, Vol. 89, N.4. pág.455-458


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