Criação e domesticação de certas caças no Brasil

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© FAUNA, setembro de 1951, Ano 10, Número 9, pág. 7 a 9

QUANTAS AVES, COMO O URUS, MACUCO, MUTUM, JACU, JACUTINGA, PERDIZ, E CODORNA, NUMA ÁREA DE CAPOEIRA, CERCADA E COBERTA DE TELA DE ARAME, CONSTITUIRÁ UM SO­BERBO AVIÁRIO, ONDE AQUELES ESPÉCIMES SE MULTIPLICARIAM EM RELATIVA LIBERDADE — OUTRAS NOTAS EXTRAÍDAS DO LIVRO "POR CAMPOS E MATAS", DE AUTORIA DO SR. BENTO ARRUDA, EDIÇÃO DA COMPANHIA GRÁFICO-EDITORA MONTEIRO LOBATO, EM 1925.

Filhotes de perdizes após alguns dias, dão os primeiros passos acompanhados pela sua mãe. Foto A. Xandó

 

Já o dissemos, mas não será supérfluo repetir, que consideramos a caça de nossos campos e florestas como verdadeira fortuna pública, por isso mesmo digna da proteção oficial e dos cuidados particulares, a primeira decretando leis que limitassem a sua devastação, e os segundos, proprietários de grandes áreas territoriais, os segundos criando certas espécies e domesticando outras.

Com isso prestariam excelente serviço público e aumentariam com facilidade a fartura e variedade de suas mesas, tão parcas às vezes, e contribuiriam com nova fonte, para sua fortuna, erigindo uma interessante e lucrativa indústria, de resultado seguro nos mercados da cidade.

A paca, pelo sabor delicadíssimo de sua carne; a cotia, também de carne delicada; o macuco, superior ao melhor frango; o uru, considerando a melhor ave para a mesa, por sua carne incomparável; o mutum, que não é inferior ao peru, em proporções além de mais im­ponente pela beleza de sua plumagem; todos esses ani­mais podem ser criados, em relativa liberdade uns, e reduzidos ao estado de perfeita domesticidade outros.

Outra ave que pode ser criada muito bem, é o Jacu. Para mais informações sobre pássaros e sua criação, basta escrever para o D.P.A.

É de se lastimar que, dentro os milhares de proprietário de fazendas paulistas, a nenhum deles, quando todos deveriam fazê-lo, tenha ainda ocorrido a idéia de cercar convenientemente um ou dois alqueires de capoeira ou capoeirão, com água, tudo de modo a evitar a evasão, e ai introduzir alguns casais de pacas que se multiplicassem espantosamente se não lhes faltasse trato cuidadoso, com a alimentação. O mesmo pode-riam fazer com relação às cotias, no mesmo cercado.

Quanto às aves, mutuns, urus, macucos e jacus, uma arca de capoeira, cercada e coberta de tela de arame, constituiria um soberbo aviário, onde aqueles espécimes se multiplicariam em relativa liberdade. Desse aviário, iriam sendo retirados os ovos de mutuns e cho­cados em galinha, dentro do próprio aviário.

Imperturbável a bela perdiz, choca os seus ovos. O Serviço de Caça e Pesca do D. P. A. Avenida Água Branca, 455, S. Paulo, dá todas as informações sobre criação de aves silvestre em cativeiro.

Depois de algumas gerações, essas aves estariam perfeitamente domesticadas e seriam tão abundantes e tão comuns como as galinhas em terreiro; da mesma forma se conseguiria a domesticidade dos macucos e jacus.

O parque de pacas e cotias seria em pouco tempo inigualável ponto de caçadas, a um só cão, e de ensinamento de matilhas de paqueiros. Como resultado, além de lugar de diversões sem par para o seu proprietário e amigos e quem quisesse obsequiar, que re­galo para a sua mesa e quanto provento não lhe advi­ria no mercado da cidade próxima ou da Capital, onde urna pesca de caça vale ouro!

Os jacus domesticam-se facilmente em parque aberto, corno aconteceu no Jardim da Luz, de São Paulo.

A capivara é igualmente suscetível de rápida do­mesticação. Muitas tendo visto reduzidas a mais abso­luta domesticidade. Eu mesmo já tive uma apanhada muito novinha e que pessoa de minha família criou a mamadeira, que o animalzinho procurava sofregamente. Já crescidinha tomava a sós o leite da mamadeira posta no chão.

Depois de grandes a mansidão atinge à importunação.

Afirma-se excelente amigo, velho e inteligente lavrador, o Sr. coronel Sebastião Ferreira, que a carne de capivara nova e castrada, criada só a milho, é tão saborosa e delicada, que nem o melhor e bem preparada do lombo de porco a ultrapassa.

Este testemunho é de inestimável valor, para mim, que bem conheço e venero as afirmações daquele amigo, cuja experiência da vida é muito longa.

Falo aos homens cultos, para que reflitam sobre minha lembrança, amadurecida desde longo anos. Devo dizer-lhes que, se eles, que são homens civilizados ou se julgam tais, descuidam criminosamente de tal assunto, e até hoje não conseguiram juntar ao cavalo, ao boi, aos suínos, aos cães, às galinhas, mais um animal doméstico de tantos que possuímos e que tendem a desa­parecer por essa incúria que tanto nos desabona, estão em fragrante contraposição a povos menos cultos e até certas tribos selvagens. Um dos maiores sertanistas brasileiros, o general Couto de Magalhães, (cujo nome pronuncio sempre com respeito e saudade e com quem tive a honra de manter relações pessoais, na convivência do Clube de Caça e Pesca, de São Paulo, mandado fechar por um governo ultra-republicano, por suspeito de monarquismo!) escreve o seguinte, no seu livro "O Selvagem":

"Certamente que não temos no Brasil uma só família que possa ser comparada ao boi, ao carneiro, ao cavalo, preciosos companheiros das raças do Velho Mundo. Mas temos raças equiparáveis ao porco, ao gato, ao cão, à galinha.

A queixada, o maracajá, o guará ou lobo, o mutum e o jacu, seriam sem dúvida alguma espécies domesticáveis, se alguma cousa, cuja existência suspei­tamos porém que por ora não podemos determinar, o não houvesse obstado.

Isto me parece tanto mais verdadeiro quanto é certo que os Índios do Peru domesticaram a lhama, o guanaco, o gato e alguns outros animais de hábitos não menos selvagens no estado da natureza do que os de que falei acima.

Outra consideração que concorre para robuste­cer esta interpretação do fato é o gosto singular que têm os nossos selvagens pela presença de animais em suas aldeias.

 Quem visita uma aldeia selvagem visita quase que um museu vivo de zoologia da região em que está a aldeia: araras, papagaios de todos os tama­nhos e cores, macacos de diversas espécies, porcos, quatis, mutuns, veados, avestruzes, seriemas e até su­curis, jibóias e jacarés, eu já tenho visto nessas aldeias onde são alimentadas pelos selvagens com acurada paciência. O cherimbabo do índio (o animal que ele cria) é quase uma pessoa da sua família. Tudo isso concorre para indicar que, se a família selvagem do Brasil não havia domesticado uma só espécie, não era por aversão à arte de domesticar, e sim por outras causas".

 Perdiz com filhotes. Desenho de Brott.

Vá-se falar, porém, a certos homens, de semelhan­te cousa. Torcem o nariz, fazem uma cara de despre­zo, muito convencidos e muito sábios dizem logo:

— Mas isso é bobagem, fica muito caro!

Não atinam que tal empreendimento é muito mais louvável do que ir para a cidade ou a Capital montar palacete de luxo, e vegetar aborrecidamente (porque em geral não abrem um livro, não assinam uma revista que preste, não lêem absolutamente nada), aumen­tando as aperturas do condenável urbanismo e, verdadeiros rataquouéres, caindo afinal na farra, a bancar o eterno e ridículo coronel!

Vivamos de nossa vida! Conservemos o que é nosso; não nos deixemos absorver; não percamos a nossa feição e o nosso regionalismo, de tão doces tradições!

 

© FAUNA, setembro de 1951, Ano 10, Número 9, pág. 7 a 9 

(Ortografia atualizada)


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