Algumas notas sobre o Gaturamo

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de outubro de 1938, Vol.58, pág.454-457

    A família Tanagridae, exclusivamente americana, é integrada por um número bastante grande de exemplares e encerra uma belíssima coleção de aves, maravilhosamente ornamentadas, entre as quais figuram as famosas SAÍRAS, os gárrulos SANHAÇOS, os trêfegos TIÉS e, finalmente, os apreciadíssimos GATURAMOS, todos os cantores eméritos emprestam uma tonalidade álacre ao verdor incomparável das nossas florestas tropicais.

    Alguns desses espécimes habitam o interior das nossas matas vastas e silenciosas, apreciando muito os cimos altaneiros das nossas árvores gigantescas, os bosques viçosos e arejados, encantando-nos, também, o olhar por entre a vegetação exuberante dos jardins floridos ou nas vizinhanças algo bulhentas das roças e povoados.

    São verdadeiras jóias aladas da natureza, dotadas de inteligência e vivacidade verdadeiramente notáveis.Sua tarefa principal consiste em percorrer os ramos balouçantes dos arbustos enfolhados à cata de frutinhos silvestres, grãos diversos e insetos.

    Quando não molestados, tornam-se dóceis e confiantes, não se mostrando apreensivos ante o aparecimento do homem. Por isso mesmo é que costumam ser barbaramente perseguidos, caindo com facilidade nas arapucas traiçoeiras e acabando por morrer lamentavelmente entre as paredes desumanas de alguma gaiola exígua, desprovidos do alimento apropriado e sem as condições indispensáveis à manutenção da sua preciosa existência.

    Dentre os representantes dessa riquíssima família, escolhemos os GATURAMOS para, sobre eles, nos referirmos ligeiramente.

    A pena fulgurante de Coelho Neto já deixou para sempre ressaltadas as qualidades de docilidade e confiança de que são dotadas essas aves, naquele primor de literatura que representa o seu "Fabulário". Realmente, em "A cobra e o gaturamo", conta-nos o incomparável manipulador do nosso vernáculo de que ardil pérfido e aleivoso se serviu o asqueroso réptil para atrair e deglutir sofregamente o meigo e destemeroso tanagrídeo.

    São quatro as principais espécies, conhecidas pela mesma denominação e que podem interessar aos amantes da nossa avifauna. Todas têm porte pequeno, o bico curto e grosso, sendo o seu colorido predominante de uma tonalidade olivácea ou preto azulado brilhante, no dorso, e a face inferior amarela ou pardo-avermelhada.

    Uma das formas mais apreciadas e que ocorre de norte a sul do país é a do GATURAMO VERDADEIRO, também conhecido pelos nomes de TIETÊ e BONITO - Tanagra violacea Linnaeus - caracterizada por possuir a porção inferior do corpo de cor amarela. A fêmea, entretanto, possui tonalidades esverdeadas, muito acentuadas e uniformes, como aliás acontece com quase todos os demais exemplares conhecidos sob a mesma denominação vulgar.

    No norte o chamam de TEM TEM e o colorido azulado brilhante do seu dorso tem uma tonalidade metálica algo mais pronunciado do que os dos espécimes sulinos.

    Segue-se o GATURAMO SERRADOR, TIÉ ou ALCAIDE - Tanagra pectoralis (Lath.) - espécie do Brasil meridional, de barriga acastanhada, cuja pátria típica é o Rio de Janeiro, mas que é encontrado com freqüência desde o Rio Grande do Sul até o sul da Bahia.

    Muito interessante também é o GATURAMO REI ou TERENO - Tanagra nigricollis  (Vieill.) - de dorso preto azulado, barriga amarela e parte superior da cabeça azul clara, ave tão apreciada quanto o menor exemplar da família, o GATURAMO MIUDINHO ou PUVÍ - Tanagra aerea serriristris (Lafr.) - que possui o dorso preto azulado, o peito e a barriga amarelas, com exceção da garganta, que é preta.

    Essas lindas aves, de canto suave, já haviam impressionado vivamente o espírito observador do grande sábio dinamarquês Dr. Pedro Guilherme Lund, quando pela primeira vez permaneceu no Brasil, entre os anos de 1825 e 1829. Dessa época datam três trabalhos valiosíssimos do saudoso naturalista, tão amigo do nosso país: "Descripção dos costumes das formigas brasileiras", "Estudos sobre o invólucro dos ovos de moluscos gastropodos" e o "Estudo do Gênero Eunope".

    Sobre a última dessas obras diz o Sr. Arlindo Chaves em feliz apreciação a respeito do "solitário da Lagoa Santa": - Em relação ao gênero Eunope, em vez de Euphone, acredito mesmo num erro de impressão que passou, como herança desastrosa, do primeiro biógrafo aos demais admiradores de Lund, em artigos, discursos etc.".

Casal de GATURAMO ou BONITOS. Reproduzimos esta página colorida de um casal de Gaturamo do Catálogo de Aves do British Museum. Sgd. Rodolpho von Ihering, no seu excelente Livrinho das Aves, editado em 1914 quando o nosso antigo e estimado colaborador atualmente emprestando sua valiosa atividade científica ao Instituto Biológico do Estado de S. Paulo, fazia parte do Museu Paulista, como Assistente.

Os lindos passarinhos ilustrados, assim como as SAÍRAS, abundam junto às casas da roça e principalmente as fruteiras que os atraem: laranjas, goiabas e bananas picadas, é quase certo que foram eles que saborearam. Mas por isto tão pouco não há quem os condena e todos lhes apreciam o colorido belíssimo e o canto suave. São como as rosas dos nossos jardins: não lhes descobrimos nenhuma utilidade e quando os seus espinhos nos ferem, perdoamos o pequeno mal por amor à sua beleza.

 

    O fato é que ao atilado espírito do nobre cavalheiro de Danebrog não escaparam particularidades anatômicas interessantes, referentes aos GATURAMOS, que o Sr. Nereo Cecilio dos Santos refere no seu estudo "O Naturalista" - 1923.

    "Durante a sua residência na fazenda do Rosário - conta-nos o autor citado - fizera (Lund) a observação interessante de que os pássaros Tanagaras, pertencentes ao gênero Euphont, não tinham moela (ventriculum bulbosus) e que o tubo digestivo se estende do proventrículo até o intestino delgado sem apresentar diferença notável quanto à largura ou direção, separadas estas duas partes por uma cinta ou membrana estreita e transparente em cuja superfície faltam completamente os orifícios glandulares, que em grande número cobrem o proventrículo e as dobras em zig-zague que existem em número apreciável na superfície interna do intestino delgado. Esta anomalia, até o presente única na construção do tubo digestivo dos pássaros, foi publicada numa pequena monografia, acompanhada de ilustração, em 1829, com o título "Do gênero Euphone".

    O GATURAMO tem, de fato, o papo muito atrofiado, faltando-lhe completamente a moela.

    Alguns criadores se queixam da dificuldade para mantê-lo vivo em cativeiro. O fator mais importante é a falta do cuidado necessário ao seu regime alimentar. Em estado de liberdade, a ave alimenta-se quase exclusivamente de frutos maduros, fenômeno que explica perfeitamente bem a atrofia do seu papo e a ausência do órgão triturador de matérias duras. O conteúdo estomacal esvazia-se completamente durante o repouso noturno, de tal maneira que, se em vez de se administrar a ração costumeira às oito horas da manhã o fizermos às dez, a saúde da ave será irremediavelmente comprometida. Pesquisas experimentais demonstraram que se processa, neste caso, um colamento parcial da mucosa intestinal da ave, determinando a morte.

    Além disso, de três qualidades devem ser as rações ministradas ao GATURAMO de acordo com o estado de saúde que apresentar. Sua comida quotidiana deverá constituir-se de banana e laranja, frutas essas que, além de alimentá-lo suficientemente, têm por fim fortalecê-lo. De vez em quando e todas as vezes que a ave se apresentar excessivamente gorda, deve-se lhe dar um pouco de mamão, que tem ação direta sobre o funcionamento do seu intestino, desembaraçando uma parte da gordura que lhe rodeia o fígado. Ração ideal para esse pássaro representa uma papa de miolo de pão, leite e mel. Observadas essas prescrições ver-se-á que a vida da avesita será prolongada por tempo muito mais dilatado.

    O Sr. Nereo Cecílio dos Santos relata-nos a seguinte passagem pitoresca:

    "Conta-se, a propósito, que o barão de Vila Franca, tinha na gaiola um gaturamo muito velho e que causava justa admiração. O barão era doido pelo pássaro.

    Um criado seu, mulato muito prático da vida, conhecendo a mania e o gênio estourado do patrão cuidava da avesita com extremo carinho. Sabia mesmo que o seu bem estar individual estava inteiramente ligado à vida efêmera do tal passarinho e para que este não morresse representava, há muitos anos, uma hilariante comédia naquele nobre solar. Tinha um gaiolão escondido no seu quarto com boa provisão de gaturamos sobressalentes. E quando a ave de estimação "encapotava", o que era sinal certo de morte próxima, o mulato a substituía, prestes, por outra, lépida e catita.

    Conquanto notasse muitas vezes bruscas mudanças no ânimo do pássaro - ora desconfiado e arisco, ora muito manso e alegre - o barão, atribuindo naturalmente aquilo às impertinências da idade, à velhice, redobrava de afetos para com o minúsculo caruso, mostrando-o aos amigos, com alegria:

    - Acompanha-me há vinte anos.

    O mulato, enquanto isso, ria muito, comia bem e dormia melhor".

    Os GATURAMOS hibernam da mesma maneira que os BEIJA-FLORES. Ficam presos pelos pés, em lugares mais ou menos abrigados, mantendo a porção apical da cabeça volvida para o solo. Em geral, neste estado, costumam sucumbir quando apreendidos e despertados, não resistindo ao choque violento que o ato provoca.

    Os exemplares paulistas são encontrados em vários pontos do Estado: Itatiba, Atibaia, Alto da Serra, Piassaguera, Iguape e Cananéia, para citarmos tão somente os pontos que temos conhecimento próprio.

    Como conseqüência da imprevidência dos homens, esses preciosos bens naturais do país erroneamente considerados como inesgotáveis, andavam entregues à devastação cruel, à exploração sem freio e sem medida, até o advento da lei n.o 2.250 de 28 de dezembro de 1927 e do decreto n.o 4.390 de março de 1928, que regulamentou a mesma lei e estabeleceu medidas relativas à caça e à pesca no território do Estado. Vieram depois os decretos n.o 4.908 e 5.031 e, mais recentemente, o decreto federal n.o 23.672 de 2 de janeiro de 1934, que aprovou o Código de Caça e Pesca, dispositivos legais esses que vieram por um paradeiro definitivo à perigosa vocação de iconoclastas inescrupulosos que se compraziam em destruir, entre as mãos crispadas de fúria, esses tesouros incomparáveis da natureza.

    Hoje em dia essas aves, que já se vinham tornando raras, estão sob o amplo amparo da lei. É de se esperar, pois, que muito breve possamos gozar da ventura de apreciar de perto, com mais freqüência, esses tanagrideos, de cores belíssimas e canto melodioso, que ainda se encontram refugiados nos recantos distantes da Paulicéia.

São Paulo, 26 de Setembro de 1938

João de Paiva Carvalho

Inspetor de Caça

 

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de outubro de 1938, Vol.58, pág.454-457

(Ortografia atualizada)


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