Criação da Jacutinga em cativeiro

TRANSLATE

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de maio de 1938, Vol.57

    Jacutinga - Pipile [Cumana] jacutinga - Spix

 

    Pode-se dizer que o jacu é das aves da mata a mais tipicamente venatória. Para descrever a vida dos jacus nada mais útil do que transcrever o que Goeldi nos diz na sua interessante monografia das aves do Brasil (pág. 409):

    "São aves selváticas que, excetuada a época da incubação, vivem em bandos mais ou menos numerosos. Ainda não rompeu o dia e já os indivíduos de que se compõe o agrupamento estão alertas, depois de terem passado a noite sobre uma árvore, do meio da floresta. Espreguiçam-se, conversam baixinho, segredando em tom gorgolejante; e ao amanhecer, mormente na estação fria, dirigem-se para os galhos em que primeiro bate o sol. Ai se aquecem, estendem as asas e gastam algum tempo em alisar as penas. Não tarda, porém, o desejo de almoçar e então voam para onde sabem estar a mesa servida. Correm em busca de toda sorte de árvores frutíferas, não desdenhando mesmo sementes ou bagas amargas e duras; e coquinho de palmito constitui sua alimentação predileta. Habilmente saltam de ramo, causando admiração a rapidez com que se esgueiram através da mais compacta folhagem, sem que a cauda longa lhe estorve os movimentos. Também descem freqüentemente ao chão, e nas picadas da mata virgem, cortadas por límpidos regatos, o caçador encontra freqüentemente seus rastos. Ao meio dia interrompem sua atividade, e, preparando-se para a sesta, escolher sítios tranqüilos e umbrosos. Uns pousam sobre caniços inclinados, balouçando-se rente ao solo; outros revolvem-se na terra ou na areia exatamente como fazem as galinhas, e deste modo deixam preguiçosamente passar as horas cálidas. Ao declinar o dia, começa a preocupação do jantar. Ao escurecer empoleiram-se e a escolha do melhor pouso não se faz sem reiteradas rixas e alterações, gritos e cacarejos. Mesmo depois de noite fechada, os jacus ainda se conservam vigilantes durante algum tempo, devendo, quem ai quiser apanhá-los, levar em conta esta circunstância, para não voltar com mãos vazias. Em regiões não muito batidas pelos caçadores os jacus são pouco tímidos e, voando apenas para um galho mais alto, não fogem à pontaria. Naturalmente os bandos que passaram pelo aprendizado, tornam-se bem mais desconfiados. As penas das asas, muito rijas, resistem a uma carga fraca de chumbo; mal feridas, essas aves, ainda que venham ao chão, estão perdidas para o caçador, pois com incrível rapidez e desenvoltura sabem procurar o mais intrincado da mata. Quando acometidas de súbito, um pânico moral se apodera dos jacus e então suas tentativas de fuga desordenadas e loucas, até provocam o riso. Meio pulando, meio voando e com grande algazarra, dispersam-se em todas as direções; ocultando-se por trás das moitas, nas copas das árvores e ainda continuam a mesma gritaria, durante quartos de hora depois de passado o perigo. Na precipitação da fuga, ou tomam caminho errado ou pretendem esconder-se entre ramos expostos, de modo que ao caçador calmo se oferece ocasião de dar vários tiros. As vezes acontece que uma das aves, tolhida de susto, se acerca gritando do perseguidor, agachando-se, abrindo as asas, correndo para lá e para cá no mesmo ramo, manifestando enfim, a mais estolida perplexidade. A mesma coisa se observa ao aproximar-se alguém do esconderijo, onde o jacu construiu seu ninho.

    Levados para o viveiro, estas aves a princípio são extremamente tímidas ou então atiram-se à grade, que tentam atravessar e com isto se ferem e arrancam as penas. Com o tempo, porém, acostumam-se tão bem à nova vida, que poderiam estar soltos com a outra criação do terreiro, se não fosse seu gênio briguento. Nunca porém se acostumam a pousar como as galinhas e sua escolha recai sempre sobre o ponto mais alto que possam alcançar."

    O jacu mais conhecido é o JACUTINGA - Pipile [Cumana] jacutinga de Spix (Av. Bras. II. 1835, pág. 53a pl. LXX).

    O nosso bom amigo, Sr. Constantino Junqueira do Departamento de Indústria Animal do Estado de S. Paulo que desde alguns anos se dedica com verdadeiro carinho à aclimação e reprodução em cativeiro de algumas das nossas aves selvagens, tem publicado agora um trabalho bem interessante e que encontramos no último fascículo da "Revista de Indústria Animal"(Janeiro de 1938).

    Tudo o que lhe foi dado observar nos pátios de criação do citado Departamento, desde o ano de 1919, nele se condensa. Como fruto de seu patriótico esforço já conseguiu, com grande sucesso, a criação das seguintes espécies: PERDIZ, MACUCO, JACUTINGA, MUTUM, INHAMBU-GUAÇU, CHORORÓ e outros.

    Reproduzimos a seguir a parte dedicada à JACUTINGA:

    "A jacutinga é facilmente adaptável ao cativeiro, razão pela qual é criada sem grandes dificuldades.

    A sua postura é de agosto a janeiro, sendo que cada ninhada consta de 3 ovos brancos e bastante resistentes, mais ou menos do tamanho dos ovos das peruas. Diferem destes porque apresentam uma convexidade acentuadamente igual nas duas extremidades.

    O ninho deve ser feito no alto do viveiro, numa cesta cheia de folhas secas.

    A incubação que dura 28 dias é feita pela fêmea, podendo o ser também, por uma galinha.

    Preferivelmente devemos empregar galinhas em tal mister, porque, com tal providências as jacutingas não perderão tempo com incubação nem com a criação dos filhotes, com evidente vantagem para o criador, pois que, retirados os ovos a fêmea iniciará outra postura, dentro de um mês. Com tal processo, podemos obter postura até 3 vezes por ano, do que resulta um aumento possível de 9 filhotes anuais.

    No caso de preferir a galinha como incubadora, deve o ninho ser feito na terra e forrado apenas com um pouco de capim picado. Tais ninhos, feitos na terra, têm a vantagem de fornecerem aos ovos a umidade necessária, em virtude da evaporação do solo.

    Os cuidados, devem ser: colocar a galinha com os filhotes em um pequeno viveiro - como seja um caixão com frente de tela - abrigado do vento e bem isolado.

    Alimentação - No 1º dia, nenhum alimento; depois, até ao 5º dia, damos-lhes ovo cozido, duro, bem esmagado; do 6º dia em diante, cânhamo moído, banana picada, mandioca ralada e crua, couve picada, miolo de pão e, alho picado, uma vez por semana. Do 2º dia em diante convém trocar a água pelo leite fresco. Quando os filhotes atingem um mês de idade, já estão bem empenados e, daí, podermos dispensar a galinha. Ademais, em tal idade, já requerem um poleiro. Desta época em diante adicionamos aos alimentos já descritos um pouco de milho quebrado e cânhamo inteiro. O cupim, como sempre, faz parte integrante da 1ª ração."

C.J.

(Ortografia atualizada)

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de maio de 1938, Vol.57


Para assinar o AO clique aqui. To subscribe to the AO click here.

AO - SERVIÇOS - LINKS
Você pode enviar perguntas ou comentários sobre este site para ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS.