O papagaio falante

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de abril de 1938, Vol.57, pág. 661-662

    Um escritor de renome disse em uma de suas obras que a afeição pelos animais é indício no homem de bondade de caráter e Jonathan Franklin, o famoso naturalista inglês, elevou o amor pelos irracionais à categoria das mais elevadas e desinteressadas paixões.

    Observando, estudando, analisando, educando, os seres que nos são zoologicamente inferiores adquirimos não só a prática de uma das mais belas ciências, como também abrandamos em parte a fereza de algumas de nossas inclinações e despimo-nos um pouco desse egoísmo que é a nota característica do animal.

    O papagaio é uma ave a todos os respeitos digna de simpatia, não só pelo grau de inteligência que possui e da educação de que, é suscetível, como pela beleza de sua plumagem, pela sua garrulice, mansidão e domesticidade, porém o que a torna altamente apreciada por todos os amadores de aves é a facilidade com que aprende e reproduz as frases que ouve, as músicas etc., o que nos faz crer que, embora semelhante ave possua para isso uma língua e bico anatomicamente apropriados, suas faculdades intelectuais acham-se bastantes desenvolvidas, pois no papagaio encontramos atenção e memória, faculdades essas importantíssimas para qualquer desenvolvimento intelectual.

    Acha-se hoje muito disseminado o gosto pelas aves falantes e é rara a casa onde não se encontre uma dessas curiosas trepadoras, porém nem todas possuem a habilidade de tornarem-nas verdadeiramente interessantes, que por exagerada negligência, que por falta de um método seguro.

    Longos anos de prática da criação destes animais nos animaram a publicar este opúsculo julgando que, disseminando os nossos conhecimentos sobre tal assunto, prestaríamos um bom serviço aos verdadeiro amadores.

    Contrariou-nos sempre a falta de gosto que preside a educação dos papagaios, aliás inteligentíssimos, mas que afinal apenas chegavam a repetir desgraçadamente frases, banalidades sem espírito.

 

 

    Um cidadão alemão encontrou a maneira mais prática para ensinar os papagaios a falarem. Reúne um par deles na frente de um gramofone e ai durante horas o disco, propositadamente impresso, repete a mesma frase, destinada a ser aprendida pelos papagaios.

 

(1) Um nosso assinante do Rio de Janeiro descobriu num "sebo" da Capital Federal um antigo livrinho com o seguinte título: "O PAPAGAIO FALANTE ou MÉTODO FACÍLIMO PARA ENSINAR O PAPAGAIO A FALAR EM POUCO TEMPO", por Lineu Brazilio.

Este nosso amigo teve a pachorra de copiar o trabalho, convidando-nos reproduzi-lo, declarando que a edição é raríssima e a sua leitura devia interessar muitos dos nossos leitores. Concordando, reproduzimos hoje os dois primeiros capítulos, não sendo a última de suas virtudes, uma exemplar concisão, se nem ordem nem nexo e que somente servem para atordoar os ouvidos de quem ouve.

    Apaixonados como somos pela criação de tal ave e vendo quão errôneo era o método do seguido até então procuramos afastar-nos da rotineira praxe estabelecida e criamos um sistema novo, metódico, baseado em uma educação racional e progressiva.

    Cremos pois que aquele que o aplicar conforme os nossos preceitos, obterá indubitavelmente os resultados que tem em vista, ganhando muito com isto, pois além de tornar-se possuidor de um animal interessantíssimo, poderá se quiser, auferir lucro pecuniário e educando-os para vender, pois é sabido por todos que um papagaio bem falante, vende-se muitas vezes até por cinqüenta mil réis aqui no Rio de Janeiro, o que já compensa suficientemente o trabalho que se teve.

    Antes porém de entrarmos na exposição do nosso método, permita-nos o leitor entrarmos em algumas considerações sobre a classificação, anatomia, fisiologia e higiene do papagaio, pois entendemos que a não ignorância de tais matérias traz como conseqüência o êxito na aplicabilidade do método.

    HISTÓRIA NATURAL DO PAPAGAIO

    O papagaio, cujo nome científico é psittacus pertence à ordem que Buffon impropriamente classificou de aves trepadora e que alguns naturalistas mais acertadamente denominaram zygodactylos, que quer dizer, pés aos pares, pois nem todas as aves desta ordem são trepadoras.

    O papagaio do Brasil é caracterizado por uma bela plumagem verde com as penas dos encontros e as rêmiges primárias vermelhas; possuem bico forte e curvo, guarnecido na base de uma membrana, no meio da qual acham-se as narinas: sua língua é carnosa como a dos quadrúpedes e seus dedos divididos em pares.

    Seus caracteres zoológicos são por tal forma distintos e diferentes dos das outras trepadoras que alguns fazem dele uma ordem à parte, que colocam a frente da ornitologia; deve-se concordar que a sua fisionomia, assim como seus hábitos são bastante favoráveis a esta classificação.

    A laringe inferior do papagaio é mais complicada que a de qualquer outra trepadora, por ser guarnecida de três músculos particulares que lhe imprimem movimentos muito diversos, de onde resulta para estes pássaros, a facilidade de produzirem sons variados que podem imitar a voz de muitos animais e mesmo a do homem.

    Esta facilidade de imitação é ainda aumentada pela forma do bico e pela natureza muscular da língua que se prestam admiravelmente a numerosas articulações de sílabas.

    Em estudo de liberdade o papagaio é encontrado em bandos nas florestas do Brasil e de algumas outras regiões, pousando de preferência nas árvores mais elevadas.

    Trepadores por excelência são vistos sem cessar passando de ramo em ramo por meio das patas e do bico.

    Colhem frutos, cuja casca quebram para comerem a amêndoa.

    Aninham-se nos ocos das árvores e põem dois ovos de que o macho e a fêmea partilham o choco. Este numeroso gênero de aves divide-se em diversos sub-gêneros, segundo a forma da cauda e o comprimento dos tarsos porém como não interessam diretamente a nosso assunto passaremos em silêncio.

    Os papagaios parecem ter mais inteligência que as outras aves e isto está de acordo com o desenvolvimento de seu encéfalo.

    Diversos fatos provam a longevidade destas aves, e está hoje averiguado que podem viver até a idade de 100 anos.

    O papagaio existe em grande abundância no nosso país e o célebre Agassis chegou a encontrar nas margens do Amazonas bandos de mil a dois mil, e embora as caçadas que se lhe tem feito, hajam-no diminuído consideravelmente encontra-se no entanto ainda em grande número.

    Terminaremos esta resumida descrição dos usos e costumes do tagarelo psittacus mencionando o engenhoso meio de que se servem os nativos do Indostão para caçá-lo, que é disparando-lhe flechas cuja ponta acha-se envolvida em algodão.

    O choque atordoa a ave e a faz cair, porém não a fere.

    Da mesma família do papagaio, possui o Brasil outras aves susceptíveis de domesticação e entre elas mencionaremos a maitaca, o periquito e a maracanã.

(Ortografia atualizada)

 

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de abril de 1938, Vol.57, pág. 661-662


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