Condenadas a desaparecer as "pombas de bando" do Nordeste?

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de março de 1937, Vol.55 Pág. 340-342

    Sobre as "pombas de arribação"do Nordeste já algumas vezes divulgaram-se artigos na CHÁCARAS E QUINTAIS. Ainda recentemente no fascículo de 15 de fevereiro de 1936. Chamada no Ceará de pomba de bando ou Avoante, aparece em excessiva, fabulosa e incrível quantidade, sendo também excessiva, fabulosa e incrível a destruição de que é objeto.

    Joffily, em suas "Notas sobre a Paraíba", diz:

    "Milhares de pessoas as perseguem, matando a tiros de espingarda e até a pauladas, colhendo ao mesmo tempo os ovos, postos a granel sobre a terra.

    Os animais carnívoros, por sua vez, assim como répteis venenosos, como a cascavel, causam grandes estragos nesses cardumes de aves, mas é tal a quantidade, que parece não diminuírem de número, até que arribam para outros lugares.

    Nos anos secos, quando o povo sofre fome, as Avoantes são para os sertanejos, durante uma quinzena, pouco mais ou menos, o que para o povo israelita no deserto, foram as codornizes."

  

    "Pombas de bando" do Nordeste Brasileiro ameaçadas de extermínio total, como desapareceram pela impiedosa caça do homem civilizado as "pombas migratórias" da América do Norte

 

    O cearense Rod. Teophilo conta que os caçadores escondidos nos lugares onde as pombas vão beber, as matam até não poder mais. A caça é levada para o rancho e ai entregues às mulheres que se encarregam de salgá-las e secá-las ao sol como se faz ao peixe. Fardos e fardos destas pombas seguem para os mercados, especialmente para Fortaleza.

    Tal destruição impiedosa acabará com a extinção da espécie, é evidente.

    É o que escreveu um naturalista nosso ainda há pouco:

    "Não sabemos até que ponto chegou o extermínio de nossa Avoante; fatalmente, cedo ou tarde, em poucos anos, seu mais cruel inimigo, o homem, embora renegando-se, matará as restantes. A ganância não permitirá ao raciocínio esta conclusão intuitiva: mais vale usufruir recionalmente toda a vida, que liquidar estupidamente em poucos anos. O biologista, entristecido, pergunta ao legislador:

    - Para que, então, foram inventadas as leis?"

    Para aqueles otimistas que não acreditam na possível e provável extinção de uma pomba que todos os anos aparece aos milhões de exemplares no Nordeste e da qual o Dr. A. Bezerra de Menezes disse que "apesar de toda a guerra que se lhes faz, parece que cada vez mais aumentam e produzem": para tais imprevidentes que só se interessam do carpe diem, não se incomodando do dia de amanhã, citaremos a seguir o exemplo da "pomba migratória" dos Estados Unidos, cujo último representante, morreu no jardim zoológico de Cincinnati, a uma hora da tarde, no dia primeiro de setembro de 1914.

    Esta pombinha, da qual até o retrato hoje publicamos, era a supérstite de bandos tão numerosos de tais aves que chegavam a obscurecer a luz do sol quando apareciam em suas migrações nos céus dos Estados de Ohio e Michigan!

    Alexandre Wetmore, da Smithsonian Institution, escreveu uma série de artigos sobre as aves dos Estados Unidos e Canadá, artigos soberbamente ilustrados pelo pintor Allan Brooks e divulgados há pouco (outubro de 1936) pelo "National Geo. Magazine" de Washington. É desse artigo que traduzimos a parte dedicada à "pomba migratória" Ectopistes migratorius.

    Também é daquela espalhada revista a fotografia por nós reproduzida ao lado.

A derradeira pomba sobrevivente de incontáveis bandos destruídos pelo homem. Esta pomba migratória, fotografada nos jardins zoológicos em Cincinnati, vivendo alguns anos no cativeiro depois que milhares e milhares de companheiras já tinham desaparecido. Quando esta pombinha morreu, há 1 hora da tarde do dia 1o de setembro de 1914, estava extinta uma das aves mais notáveis do mundo. (Foto da National Assoc. of Audubon Societies).

 

    A "pomba-migratória", também conhecida por toda parte como "pomba selvagem" encontrada em quase fabulosa abundância no tempo da descoberta da América, é hoje completamente extinta.

    Para provar que realmente existiram enormes bandos desta pomba, lembra-se a testemunha de Kalm, quando descreve ter observado em março de 1740, na Pensilvânia um bando de pombas que tinha três a quatro milhas de comprimento por uma de largura. Também cita-se para provar a abundância de tais aves a descrição de Alexander Wilson referindo-se a bandos de 8 a 10 milhas de comprido, capazes de encher o céu e cuja procissão levava mais uma hora na sua passagem. E não só ficava obscura a luz do sol como se se aproximasse subitânea tempestade, como o bater de suas asas parecia o ronco de impetuosa cachoeira.

    Tais pombas não só viajavam em grandes bandos durante a migração, como desenvolviam iguais instintos gregários na nidificação.

    Havia localidades cujas árvores ficavam ocupadas quase completamente pelos ninhos das pombas, na extensão de algumas milhas.

    Não era raro encontrar uma centena de ninhos numa única árvores e o peso de tantas aves gorduchas pousadas nos mesmos ramos chegava a quebrá-los (1)

(1) Note-se a parecença com estes períodos de Bezerra Menezes, de 1889, descrevendo a quantidade de avoantes do Ceará: "Se pousam sobre qualquer árvores, partem-se os galhos ao peso do número: se descem para beber em algum açude, esgotam-no em poucos dias; quando se assustam e tomam vôo simultaneamente, produzem o ruído igual ao de uma locomotiva em marcha acelerada.

É impossível calcular-lhes o número e mesmo para aquele que observa a nuvem compacta destas aves fica uma espécie de receio em referir o que viu, tal é a dificuldade que há em ser crido".

    O chão nas zonas de tais colônias era atapetado de ninhos caídos, ovos e filhotes, assim como toda sorte de destroços e refugos pela estadia no mesmo lugar de uma tão enorme multidão de aves reunidas. Pois bem, a extinção das aves da América do Norte é comumente atribuída a alguma tempestade ou outra catástrofe natural, porém na minha opinião e na de muitos outros, a única causa foi a desapiedada carnificina do homem branco."

    Aqui o autor descreve todos os meios empregados para a matança e a destruição pelos colonos, desde a chegada das aves até o período de sua nidificação.

    A chacina ainda piorou em 1870, quando o desenvolvimento da estrada de ferro e dos transportes facilitou o comércio das pombas. Em 1879 o Prof. H.B. Roney calculou que perto de 5.000 homens estão regularmente envolvidos na caça às pombas, como negócio, e mais mil se ocupam do mesmo, embora só na época da migração.

    Sabe-se pela estatística que 990.000 dúzias de pombas foram embarcadas em 3 anos de Michigan para a cidade de Nova York.

    Testemuna fidedigna refere que três trens por dia, cada carro contendo 150 barricas de pombas, eram despachados em alguns pontos durante 40 dias seguidos! As pombas vendiam-se desde 20 cents cada dúzia.

    Reney cita encomendas de um milhão e um milhão e meio de aves da cidade de Petorskey, no Michigan, apenas no espaço desde 22 de março a 12 de agosto de 1878. Também foram despachadas na mesma temporada mais de 80.000 pombas vivas.

    A última pomba silvestre de que há notícia é uma que mataram em agosto de 1904, embora fale-se também de outra identificada positivamente em 1907.

    "Eu penso - acrescenta o naturalista Wetmore - que vi duas pombas destas, voando perto de Independence, no Kansas, em abril de 1905, mas não posso afiançá-lo com toda a certeza, pois as aves estavam distantes.

    O último supérstite da espécie foi o exemplar, preso desde longo tempo no jardim zoológico de Cincinnati, Ohio, e que ai morreu, como dissemos, a uma hora da tarde do dia primeiro de setembro de 1914. Esta pomba foi cuidadosamente taxidermizada e agora pode ser apreciada no Museu Nacional, dos Estados Unidos, em Washington."

    Finalizando, repetiremos que a continuar no Nordeste brasileiro a mesma caça desapiedada, também as avoantes desaparecerão do nosso país, e um dia mais ou menos longínquo também no nosso Museu Nacional aparecerá empalhado o último representante das nossas meigas e elegantes "pombas de arribação".

(Ortografia atualizada)

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de março de 1937, Vol.55 Pág. 340-342


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