Sabiás - Os maravilhosos e afamados cantores alados

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© FAUNA, abril de 1954, N.4, pág 25-28, Ano XIII

 

    Segundo Olivério Pinto temos 21 espécies de sabiás - A flautista de nossas matas - Com suas suaves notas inspirou poetas e escritores - Outras notas interessantes - O canto do sabiá em música

Regis Velho

    Há ainda muita confusão na nomenclatura popular dos SABIÁS. Mesmo o camponês não se preocupa em dar nome às espécies que conhece. Quase sempre nem as distingue.

    Diz Eurico Santos, que procurando identificar o sabiá poca, as pessoas a quem consultou se contradiziam de tal forma que o sabiá laranjeira (gongá) lhe foi apresentado como POCA.

    Os verdadeiros SABIÁS, os de CAUDA CURTA, estão incluídos na família Turdídeos, com gêneros Turdus e Platycichla.

    No gênero Turdus temos 21 espécies, segundo Olivério Pinto.

    No gênero Platycichla só temos uma espécie brasileira, a Platycichla flavipes - Vieil., mais abundante nos Estados sulinos e é conhecida como SABIÁ-UNA ou PRETO, apresentando o dorso cinzento escuto, clareando para o ventre até o esbranquiçado. O bicho é amarelo.

    É considerado para o canto, o melhor de todos os SABIÁS, rivalizando com a espécie nordestina conhecida como SABIÁ-DA-MATA ou VERDADEIRO, talvez a Turdus fumigatus fumigatus -Lich., conhecida no Pará como sabiá da capoeira:

        que quando o canto desata,

        tem semelhanças de orquestra,

        Como se alguém com mão destra

        de instrumentos invisíveis,

        arrancasse maviosos

        acordes transcendentais.

    O soneto de Luiz de França Pereira foi inspirado pelo sabiá.

    Esta espécie tem os caracteres seguintes: cor geral, marrom claro, que o nosso povo chama de vermelho; asas, com remígios brancos; baixo ventre ou crisso, cinzento claro; pescoço anterior, com estrias mais claras; cauda mais escura; pés cinzentos e olhos pretos. O macho tem o bico mais grosso na base. Seu canto é traduzido pelo povo, como dizendo:

        Papai, mamãe, titia, vovô.

        Que foi coração?

        Que te dói Lalá?

    com a seguinte música, continua Victor Coelho de Almeida:

    e modulando com com tal entonação, que inspirou a Luiz de França Pereira o seguinte soneto:

        O SABIÁ DA MATA

        Alada flauta de cristal das matas,

        E que celebra a glória da manhã,

        Quem te ouvindo as cadências e volatas,

        Não cuida a flauta ouvir do grande Pã?

 

        Queixas da selva umbrosa e das cascatas,

        Saudades da caatinga e da rechã,

        Dissolves em noturnos e sonatas,

        Na basílica voz de Malibrã!

 

        E essa voz que, de sombra a luz se veste,

        Mais doce do que um verso de Virgílio,

        Que põe vozes do céu na avena agreste:

 

        Nem uma vez possui no mundo inteiro;

        É a voz da Pátria a soluçar, no exílio,

        Saudades do Nordeste Brasileiro!

    Sobre o SABIÁ-GONGÁ ou de LARANJEIRA - Turdus rufiventris juensis - Corâ -, diz R. von Ilhering: "verdadeiro cantor é o SABIÁ DE LARANJEIRA, de barriga vermelha e por isto, também chamado em guarani, SABIÁ PIRANGA".

    Pela opinião do velho mestre, se não podermos considerar esses SABIÁS como os melhores cantores, serão pelo menos muito afamados. Não sabemos também se Ilhering se referiu a outra espécie, Turdus rufiventris rufiventris - Vieil.

    Na Canção do Exílio, disse Gonçalves Dias, havendo até quem afirme que o poeta se referiu ao GONGÁ!

        "Minha terra tem palmeiras

        onde canta o sabiá".

    Certamente esse canto muito o impressionou. Não sabemos se é a razão do poeta localizar o SABIÁ em palmeiras.

    Quem nas palmeiras já ouviu cantar o SABIÁ, que francamente prefere viver nos arvoredos, nos pomares?

    O poeta Lausimar Laus Gomes, também pensou ouvir um SABIÁ cantando no alto das palmeiras e dedicou-lhe o seguinte soneto:

        Na primavera, oh! sabiá airoso,

        És sorriso nos lábios da palmeira,

        Tens dentro de tua alma cantadeira

        Uma ópera tão linda, que é teu gozo.

 

        Cantas de tarde, sabiá airoso,

        E eu quero ouvir-te a minha vida inteira

        Mas, pena que és como a lusão, financeira,

        Que canta só do alto do seu pouso.

 

        Tens medo que eu te conte a minha vida

        Que é como um sonho de árvore esquecida,

        Que anda nas trevas, procurando luz...

 

        Quando eu morrer, oh! sabiá famoso,

        Que tu, sempre a cantar, bardo ditoso,

        Venhas cantar também na minha cruz...

 

    O SABIÁ GONGÁ é comum no Nordeste e é grande caçador de pequenos insetos e vermes o que faz esgravatando o chão, pulando em muitas direções e sempre agitando as asas e a cauda. Seu vôo é sempre oscilante. Sua cor dorsal é parda escura; pescoço cinzento sujo com estrias mais carregadas (nas fêmeas); peito, na parte superior, cinzento avermelhado e para baixo puxando a cor de ferrugem; bico amarelado escuro; olhos escuros, com auréola, às vezes bem amarela.

    Diz o nosso povo que este SABIÁ advinha chuva. E talvez neste dizer se tivesse inspirado Dom F. de Aquino Correa, quando escreveu:

        O SABIÁ

        Fins da seca. Em adusto e hirto pau do cerrado,

        Lá suspira um sabiá. Nos broncos arredores,

        Nem uma árvores em flor para seu ninho amado,

        Pois se o céu não dá chuva, a terra não dá flores!

        E hei-lo a cantar, pedindo a chuva ao céu que, empoado,

        Parece alheio e surdo aos seus doces clamores:

        Na atmosfera pesada e grossa, lado a lado,

        Fuzilam, sempre mais, os sóis abrasadores.

 

        Afia, de longe, em mornas baforadas,

        O bochorno que varre as últimas queimadas:

        Depois... a calmaria, e nem folha se move!

 

        E o triste do sabiá lá canta, canta, canta...

        Mas põe, na sua voz, tanta ternura, tanta,

        Que o céu, por fim, borbulha em lágrimas e chove!

 

    A época em que seu canto é mais delicioso é depois das primeiras chuvas, no início do onverno. O nosso povo traduz esse canto como dizendo:

        "Chove chuva

        pro capim nascer

        Para o boi comer,

        depois estercar

        e eu ciscar!

        e eu ciscar!

    Isso, naquela mesma entonação do furi-fuir-furi-furi que nada agradou ao grande naturalista Goeldi, quando o viu pela primeira vez.

    Há quem acuse esse SABIÁ de "ave nociva". Entre nós não há razão para isso. Se ele ataca alguns frutos, é porque muitas vezes já os encontra furados (manga, laranjas etc.).

    Ataca sim, o melão de São Caetano (Momordica carintia). Por estes frutos é de uma avidez extraordinária. Por eles é que tão facilmente cai em arapucas.

    Sempre prefere construir seu ninho em árvores frondosas e na bifurcação dos galhos. É bem construído. Com gravetos e fibras entremeadas de barro, constrói-o, dando a forma de pequeno prato de barro. Aí são depositados 3 ou 4 ovos de cor esverdeada, com manchas irregulares de cor ferruginosa. Sua postura é sempre no início do inverno, fevereiro a março.

    Muito comum também é o SABIÁ BRANCO - Turdus amaurochalinus - Canabis - considerado um bom cantor. É muito perseguido pelos caçadores, devido à sua carne saborosa, principalmente na época da frutificação da ubáia, fruta de que é muito ávido, engordando extraordinariamente.

    Apresenta no dorso, cor azeitonada cinzento; as coberteiras são amareladas; cauda cinzento escura; pescoço cinza com estrias pardas; peito cinzento bico amarelado; pés amarelos cinzentos; olhos pardos.

    Os SABIÁS são pássaros úteis, como grandes caçadores de insetos e de larvas, não somente para se alimentarem, como para os filhotes. Nos pomares, nos cafezais e nas matas poderemos observar com que elegância e agilidade agitam o folhiço em decomposição, com o bico e os pés à cata de bichinhos e larvas.

    Os pássaros verdadeiramente prejudiciais aos pomares, são geralmente aqueles que só ali aparecem nas épocas de frutificação. Os SABIÁS porém, ali permanecem e são sempre encontrados a saltitarem pelo chão, à procura de alimentos ou pousados nos galhos mais sombrios, modulando seu canto caricioso.

    O nome sabiá entre nós, e noutros Estados nordestinos é feminino, só raramente alguém pronuncia O SABIÁ. No Amazonas, esse nome é quase desconhecido. Lá é chamado Caraxué, que quer dizer: Pássaro chorão.

    Também, são chamados SABIÁS, representantes da família Mimídeos pertencentes ao gênero Mimus, pássaros de CAUDA COMPRIDA e também alguns representantes das famílias Fringilídeos e Cotengídeos.

    Os sabiás do gênero Mimus, não são propriamente cantores, poderíamos dizer: - gralhadores. - Em guarani são chamados PÓCAS, que quer dizer: barulhentos.

    Além dos sabiás, todos os pássaros são inspiradores de poesia e da música

(Ortografia atualizada)

© FAUNA, abril de 1954, N.4, pág 25-28, Ano XIII


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