Fábrica de canários dos Irmãos Stern *

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de abril de 1948, Vol.77, pág.475-476

"Mas, meus irmãos, se é possível vender dezenas de milhares de canários por ano nos Estados Unidos, que é que me impede de criá-los em quantidade proporcional?"- perguntou Gustav Stern a seus dois irmãos. Max e Siegfrield meditaram sobre a pergunta. Nenhum deles tinha ainda a produção em massa.

A criação e o treino de pássaros de canto era principalmente um "hobby" ou um "biscate" - mesmo na Europa, que sempre fora a principal fonte de produção. Poucos profissionais podem criar mil canários por ano.

Uma inovação de métodos, no entanto, já se fazia esperada. Era preciso dar alma nova a essa atividade antiga. Foi por volta de 1936 que Gustav Stern fez a tal pergunta aos irmãos. Convém notar-se que já pairava no ar a ameaça da guerra. O espírito arguto de Gustav lhe dissera que, em breve, os criadores alemães deixariam de fornecer os pássaros que vendiam deste lado do Atlântico.

Max e Siegfried tinham vindo da Alemanha alguns anos atrás. No decorrer desse lapso de tempo o mercado canaricultor de Nova Iorque tinha tomado considerável impulso, quase duplicado em suma. Gustav ficara na terra natal para comprar e despachar os pássaros. A presença de Hitler, no entanto, tornava a sua um tanto quanto insegura.

Os três irmãos conseguiram então, onze anos depois, encontrar uma solução para aquela pergunta feita há tanto tempo. A transformação de um passatempo do Velho Mundo num "big business" exigiu tempo, dinheiro, perseverança e, naturalmente, um cuidadoso trabalho de pesquisa científica. Os resultados finais formaram um volume enorme de conhecimentos, muitos deles abrangendo outros campos completamente inesperados. Basta dizer que contribuíram valorosamente ao combate que nossos médicos dão à malária, uma das mais difundidas e custosas moléstias a afligir este mundo. O sucesso dos irmãos Stern marcou também a mudança definitiva do centro de canaricultura da região do Harz, na Alemanha, para um grande arranha-céu americano. Marcou também o estabelecimento da mais original linha de montagem que possa existir. E da mais musical, sem dúvida alguma.

O enorme aviário que eles mantêm , perto de Denville, Estado de Nova Jersey, onde cerca de 65.000 canários saem anualmente das cascas de ovos, é o que Gustav chama "uma loja que, fechada permanentemente, está sempre aberta". A ninguém, com exceção de alguns empregados, é permitida a entrada. E isso há mais de oito anos. Um cartão delicado, mas bastante positivo, colocado logo à entrada, diz: "Não recebemos visitas. Desculpe-nos". A exclusão de visitantes exclui também a entrada de germens que poderiam aproveitar a ocasião para infeccionar os pássaros. A experiência é que os obrigou a tal prática. Uma epidemia quase os levou à falência. Salvo-os um famoso patologista especializado em aves: o Dr. F. R. Beaudette.

A FÁBRICA DE CANÁRIOS ocupa três andares de um prédio, local anteriormente ocupado por uma fábrica de meias. Milhares de gaiolas, desenhadas de modo a permitir fácil limpeza, estão dispostas em prateleiras situadas ao longo das paredes dos três pavimentos. Aparelhos de esterilização e outros de aspecto estranho - máquinas da nova indústria - são vistos em todos os cantos. O "imperador" destes barulhentos domínios é o nosso conhecido Gustav Stern. Secundam-no Jacob Hisch e Willie Odenwald. Hirsch, germano-americano, é o gerente. Odenwald, um homem calmo e criador paciente, veio com Gustav da Alemanha em 1936. Deu seu nome à empresa, que é conhecida como a Odenwald Bird Company.

O principal problema que hoje em dia aflige a "fábrica" de Denville é o de conseguir que de 10 a 15.000 canários selecionados e temperamentais "aceitem" o acasalamento uma vez por ano, a fim de que mantenham sempre alta a quota de filhotes. Além disso os pássaros devem ser colocados em grupos distintos, o dos machos e o das fêmeas, escolhendo então os machos com aptidão para o canto.

A época mais trabalhosa do ano é a que começa no seu primeiro dia. Um casal geralmente cria três ninhadas entre fevereiro e julho. Cada ninhada, em média, de cinco ovos. O período da choca é de quatorze dias aproximadamente. Chegando à idade de quatro semanas os pássaros já podem ser separados dos pais, que se preparam para novo trabalho semelhante.

Quando os canários atingem sete dias de idade, o aspecto deles não é lá que se diga elegante ou atraente: entretanto, um macho aos sete meses já é tão maduro para cantar divinamente!

 

Durante o acasalamento um grupo de quinze a dezoito moças se faz necessário para enfrentar o trabalho. Trocar alimento e água leva tempo, mas o verdadeiramente importante é o exame constante dos ovos que estão sendo chocados. Uma ficha em casa gaiola marca o dia em que os ovos foram postos e a data em que começaram a ser chocados. De acordo com essas indicações Hirsch e sua assistente, Mary Clarck, fazem com que o corpo de funcionários se mantenha ocupado nessa verificação.

A.N.

* Na conhecida revista semanal POST, apareceu em data recente uma interessante reportagem da autoria do sr. Arnold Nicholson, intitulada "Canários produzidos em série" contando a história de três alemães, importadores de canários de antes da guerra, que se transformaram em criadores em terras ianques, organizando uma verdadeira fábrica de canários. Graças à dedicação do nosso colaborador sr. J. Rocha, afeiçoado canaricultor bandeirante, podemos oferecer aos leitores esta empolgante história.

(Ortografia atualizada)


© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de maio de 1948, Vol.77, pág.576-578

Pela primeira vez foi iniciada a irradiação pelo microfone do canto de canários, o que incentivou de maneira estupenda o comércio de canários na Norte - América

    MODERNIZANDO A PRODUÇÃO - Os ninhos são cuidadosamente observados com o auxílio de pequenas portas situadas na parte posterior da gaiola. Basta a luz de uma lanterna portátil para que os olhos entendidos digam se os ovos são férteis ou não. A lanterna age, portanto, como um fluoroscópio. Os ovos que apresentem falas são imediatamente trocados por outros, tirados de outras gaiolas. Nem por isso, mesmo que o ninho fique vazio, se retira a fêmea. Muito pelo contrário até. Isso a induzirá a botar outra vez. O mesmo processo se utiliza para os filhotes. Se um ou dois morrem, providencia-se imediata substituição. É claro que precisam ser da mesma idade. Os mais velhos os impediriam de se alimentarem.

    Os Stern pensaram há alguns anos atrás que lhes seria possível chocar e criar artificialmente seus canários. Com o uso de incubadores, que tão maravilhosamente se prestam à criação de galinhas, e de uma alimentação especial a simplicidade seria atingida. Verificaram que seria preciso virar diariamente os ovos, o que dava um trabalho insano. A incubadora foi posta de lado. No que se refere à alimentação, no entanto, o caso foi diferente. Canários, como pombos e muitos outros pássaros, digerem parcialmente e regurgitam o alimento que dão a seus filhotes. Gustav e um químico amigo seu, Dr. M. L. Isaacs, atualmente Deão do Yeshiva College de New York, passaram meses estudando a composição química desse alimento pré-digerido. Chegaram mesmo a matar e dissecar alguns pássaros já inúteis e analisaram a fórmula desejada. Experimentando-a, na prática, conseguiram pleno êxito.

    "Experimentamos num só" - diz Gustav - "mas conseguimos provar que poderia ser feito. Mas que foi caro pra chuchu, isso foi".

    Maior sucesso realmente praticável foi obtido em outros campos. Os pequenos vasilhames destinados à água e à comida, por exemplo, devem ser mantidos constantemente esterilizados. São para isso recolhidos em bandejas e lavados e enchidos automaticamente, centenas de cada vez. Cada casal de canários tem dois ninhos de porcelana, melhor dito, duas cuiazinhas de porcelana servindo de ninhos. Isso porque freqüentemente só é possível retirar os filhotes quando a mãe tenha posto outros ovos e os esteja chocando. Enorme quantidade de fibra de juta, cortada em fios de uma polegada e meia, deve ser mantida sempre à disposição dos pássaros que vão aninhar. Cortá-los com tesoura seria um trabalho tremendo. Gustav idealizou um processo mecânico rápido e eficiente.

    A "fábrica" tem um sistema de controles automáticos para manter uma temperatura constante de setenta e três graus F. de outono até a primavera. As luzes são dispostas de tal modo que um estímulo de luz solar artificial pode ser dado aos pássaros a fim de apressar a época normal de acasalamento.

    Um painel elétrico, em cada andar faz com que a luz vá pouco a pouco diminuindo, como num cinema, a fim de evitar um choque brusco para os olhos dos pássaros. Importante também o controle da alimentação, que é gradualmente enriquecida desde umas quatro semanas antes do acasalamento. Sempre se coloca o macho na gaiola antes da fêmea. O caso contrário acarretaria uma atitude agressiva deste em relação à fêmea, tornando difícil o acasalamento. Um bom pai geralmente auxilia a alimentação de seus filhotes. Há porém muitos que simplesmente se colocam de lado, engordando cinicamente enquanto a fêmea faz todo o trabalho pesado.

A vantagem que há em preparar os machos para um acasalamento prematuro vem do fato constatado de que é mais fácil e mais lucrativo vende-lo por ocasião do Natal. Para que um pássaro esteja cantando sofrivelmente com sete meses de idade é preciso que seja chocado antes de abril.

Um sistema de auto-falantes conjugado a um microfone situado perto de uma janela batida de sol é o de que se utiliza a Odenwald Company para transmitir a todos os futuros cantores os maviosos trinados e flautas dos melhores pássaros que deram prêmios aos criadores do Velho Mundo. "Conservo dois ou três dos melhores cantores num quarto escurecido. Levo-os depois perto da janela ensolarada - diz Hirsch — e irradio o canto de um deles de cada vez. Ensina assim aos demais os segredos de sua arte, estejam onde estiverem".

Algo desapontante, porém, para Hirsch, os Sterns e Willie Odenwald e o canto que alguns canários, chamados "choppers" (tchau­tchau) produzem. Embora financeiramente sejam um grande sucesso, pois os americanos gostam de ouvir o canto alto, os ouvidos apurados dos especialistas se horrorizam com o barulho.

Os pássaros verdadeiramente valiosos são aqueles que exigem cuidado mais atento e demorado. Numa só palavra, os ROLLERS. A não ser em algumas comunidades germânicas, eles não são comuns nos Estados Unidos (Provavelmente o articulista não foi bem informado quanto a disseminação do "roller" em seu país. Cerca de uma centena de associações existentes, atestam o grau de desenvolvimento a que atingiu a cultura do "roller" na América, com milhares de amadores e inúmeros profissionais) onde abunda o "chopper", cujo canto a longo e barulhento. Tanto asses como os ROLLERS, no entanto, não dependem muito dos processos de criação. 0 treino é que importa. Um bom ROLLER, por exemplo, se é deixado na companhia de pássaros cujo canto é estridente e falho, dentro de pouco tempo cantará como eles. Por outro lado, é perfeitamente possível

Os canários mais custosos que Gustav Stern já exportou enquanto ainda vivia na Alemanha foram ROLLERS que tinham sido capazes de aprender o refrão de uma velha e característica canção alemã, a SCHIER DREISSING JAHRE BIST DU ALT, que, numa tradução um tanto descuidada viria a ser o seguinte: VOCÊ JÁ TEM QUASE TRINTA ANOS DE IDADE. O criador que os treinara lançara mão de um diapasão a fim de verificar a continuidade do tom. Assobiara pacientemente o refrão de hora em hora, dia após dia. E os exercitava num quarto onde a luz pudesse ser mantida suave. Os pássaros em questão foram vendidos na América por 75 e mesmo 100 dólares. Dava-se garantia contra qualquer irregularidade. "Tive de substituir dois deles" - disse Gustav pensativo.

Na terra natal o processo de que se utilizava para incrementar a venda dos pássaros era o de organizar festivais de canto nas pequenas cidades do interior. Como era comum, com o encontro de criadores rivais, muito naturalmente se acendia o espírito de competição. Aumentava o interesse popular e o lucro era considerável.                                                   -

    Havia depois festas a bailes para homenagear o vencedor. E os vencedores eram geralmente sapateiros, comerciantes, homens do povo que aproveitavam suas horas de lazer com o pequeno aviário que mantinham num quartinho qualquer de suas casas.

    Os Sterns não herdaram de antepassados o gosto pela criação de canários. Simplesmente decidiram-se a experimentar o negócio. Seu pai era um fabricante de tintas, com alguns recursos, na cidade de Fulda, perto de Frankfurt. Foi Max o primeiro a embarcar para os Estados Unidos em 1926, falando muito pouco inglês, mas determinado já a revolucionar o mercado com suas inovações de produção em série. Gustav, enquanto isso, se transformou numa espécie de agente de compras, enviando ao irmão a quantidade de pássaros que fosse pedida, fosse ela qual fosse.

    Por ocasião de 1936, quando Gustav também se foi para a América, o mercado canaricultor já estava em suas mãos, através da firma que fundaram, denominada HARTZ MOUNTAIN PRODUCTS COMPANY OF NEW YORK. Pela primeira vez iniciaram a venda de pássaros pelo reembolso e tentaram com sucesso a venda em grandes lojas. Pela primeira vez, ainda, foi iniciado um programa radiofônico através duma cadeia de estações, com irradiação de discos e do canto de canários presentes às exposições como verdadeiros artistas que eram. O sucesso não se fez esperar. Nem Max nem Siegfried tinham imaginado que a venda dos próprios canários fosse superar tão depressa a dos artigos relacionados ao "hobby" tais como sementes, gaiolas e mil outras coisas.

A.N.

(Ortografia atualizada)


© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de junho de 1948, Vol.77, pág.700-703

Gustav Stern e Willie Odenwald começaram a criação em massa com 1.500 pássaros, numa casinha de campo em Ramsy, estado de Nova Jersey. Novo sucesso e lucratividade. No ano seguinte compraram a fábrica em Denville, a que já nos referimos. Gustav, ao realizar o negócio, pediu particularmente ao banco, através do qual tinha feito a aquisição, que não divulgasse o assunto. O segredo é a alma do negócio, já diz um velho ditado. Além disso, a experiência tida na Alemanha mostrava que o bom êxito muita vez depende, em se tratando de canaricultura, da ausência de publicidade.

Apesar dessas providências, constatou com desprazer que na terra natal já estavam os criadores muito bem informados de seus planos. Uma guerra secreta lhe foi movida, caracterizando-se pela extraordinária dificuldade de conseguir licenças de exportação, principalmente para fêmeas. A situação lembrava uma das lendas concernentes à origem dos canários.

Como o próprio nome já diz, os pássaros são originários das ilhas canárias. Descendem de uma raça de pequenos passarinhos de cor esverdeada e de canto muito inferior. Criadores do oriente, região onde primeiro se iniciou o treinamento de aves canoras, já conheciam os canários há milhares de anos, muito antes deles penetrarem no hemisfério ocidental. Uma das variações sobre o tema em questão, isto é,  de como e quando foram os canários introduzidos no mundo ocidental, diz o seguinte: viajava um navio rumo ao oriente médio levando, entre outras coisas, alguns canários já treinados. Ocorreu então um naufrágio. Parte dos destroços deram à praia da Ilha de Elba. Entre eles - verdadeiro milagre - alguns desses pássaros. E assim, pela Itália, penetraram os canários na Europa. Outra variação, certamente mais romântica, conta-nos que alguns monges espanhóis foram os primeiros criadores. Por centenas e centenas de anos conservaram os segredos do treinamento de canto, deixando sair do mosteiro apenas os machos, nunca as fêmeas. Um dia, porém, com a fuga ou roubo de uma delas, acabou-se o monopólio dos frades.

Apesar da boicotagem dos criadores rivais da terra natal, Gustav Stern conseguiu adquirir as fêmeas de que tanto necessitava. Utilizou-se, para isso, do seguinte estratagema: Captando a simpatia de alguns agentes importadores de Londres, que mantinham contacto com os alemães há muito tempo, conseguiu que eles encomendassem as fêmeas em seus nomes respectivos. É preciso que se diga o porquê desse comércio. Os agentes importadores, por sua vez, vendiam as fêmeas aos de rua. Recebendo geralmente pássaros de colorido brilhante, ainda que não canoros, fácil era colocá-los junto ao povo. Os vendedores de rua chegaram, durante certa época, a vender milhares e milhares de fêmeas; entre tão grande quantidade não foi fácil a Gustav, com sua experiência, escolher o que de melhor havia. E partiu no Queen Mary, rumo aos Estados Unidos, com 10.000 pássaros!

Esse número, no entanto, não é de espantar. Nos anos anteriores os Sterns estavam importando em média 25.000 por ano. O que não podia prever, porém, era a perda da quase totalidade desses 10.000. Tudo correu bem na viagem, tudo correu bem inicialmente na "fábrica" em Denville. Pouco depois do começo do ano, machos e fêmeas que se achavam em gaiolas separadas, a fim de evitar conflitos, foram acasalados. 7.500 famílias ao todo, selecionadas entre o que de melhor havia em pássaros importados e aqueles já nascidos em território americano.

Começava já a estação de choca quando a epidemia começou. Wille Odenwald e Jacob Hirsch descobriram logo de que se tratava. SCHNAPPKRANKHEIT (BOUBA) - disseram eles a Gustav, que também suspeitava disso. Já a conhecia na Alemanha, ocorrendo quase sempre com pássaros chegados de longas viagens. Nenhum deles, porém, mencionou qualquer meio ou remédio para se debelar a moléstia.

E começaram a morrer os pássaros. Cem numa semana, mil na outra, seguindo a sinistra marcha da epidemia de gaiola a gaiola, de viveiro a viveiro. Gustav, desesperado, buscou toda a possível informação em bibliotecas, institutos, universidades. Nada encontrou. Aterrorizado, recorreu em última instância ao seu amigo, Dr. Isaacs, professor de química na Universidade de Columbia. Chegaram à conclusão de que a origem da epidemia muito provavelmente estaria na alimentação. A "fábrica" em Denville se transformou então num grande laboratório experimental, em que centenas de testes de dieta cientificamente controlados, eram feitos em câmaras absolutamente separadas umas das outras.

Por ocasião do outono restavam apenas 1.500 canários dos 15.000 originais. Gustav, que tinha passado dias e noites em Denville, numa inútil tentativa de descobrir a causa da epidemia, resolveu nomear alguns agentes na Holanda a fim de que comprassem o maior número possível de reprodutores. Pretendia assim reiniciar as atividades interrompidas. Desse modo conseguiu, tendo ainda o auxílio de criadores locais, reunir outros 7.500 casais. Mas, no que se referia às conclusões sobre causa e cura da epidemia, estava ainda na mesma. Foi então que uma das auxiliares mencionou o fato de seu pai, que era criador de galinhas, ter passado por situação semelhante e encontrado auxílio efetivo dos especialistas do New Jersey State College of Agriculture, na cidade de New Brunswick.

Foi uma mão na roda. O Dr. F. R. Beaudette, renomado patologista de avicultura, seria, sem dúvida, a única pessoa a saber dados concretos sobre a "GASPING DISEASE"(BOUBA). Muito conhecidas eram as experiências sobre febre para-tifóide, em que usara canários. Do contato de Gustav com Beaudette nasceu uma admiração recíproca. O primeiro pela sabedoria do cientista, este pela capacidade de organização do canaricultor. Beaudette viu logo as imensas possibilidades que a pesquisa da manifestação epidêmica dariam a todos os hospitais, laboratórios, principalmente levando em conta o fato de que canários são tão usados em experiências como os coelhos, cobaias e ratos brancos. Nas pesquisas sobre malária, por exemplo, os cientistas preferem os canários a qualquer outro tipo de animais, pois as reações que neles se verificam são aproximadamente as mesmas notadas no gênero humano.

"Não sei nada de positivo ainda sobre a origem da moléstia nem sobre seu tratamento, mas tentarei com prazer chegar a uma conclusão definitiva"- disse Beaudette a Gustav.

O primeiro passo foi impedir a entrada a todo e qualquer visitante. Depois, isolar alguns quartos o mais completamente possível, o que aliás, já tinha sido recomendado pelo Dr. Isaacs. Isso em 1940. Os relatórios mostram que de 40.000 pássaros de propriedade do Sterns apenas 7.000 chegaram à maturidade. No cenário internacional, a Europa completava o seu primeiro ano de guerra. No aspecto financeiro, canários que antes eram vendidos a cinco dólares, passaram a valer o dobro. Fácil de imaginar, portanto, as perdas astronômicas da "fábrica" em Denville.

Beaudette tratou logo de conseguir o mais possível de literatura especializada. "E não havia quase nada", diz o cientista. E prossegue: "Mas consegui, afinal, um dado importante. Dois cientistas alemães, ligados à I.G. Farben, tinham comunicado uma forma de "Varíola", causada por um vírus, que afetava os canários. Deduzi logo do texto do comunicado que tinham deparado com essa epidemia ao prosseguirem as experiências com os medicamentos anti-maláricos fabricados pelo referido trust de indústrias químicas. "Para Beaudette era também óbvio que alguns pássaros de Gustav tinham contraído Varíola. Isolados estes dos demais-atacados pela misteriosa SCHNAPPKRANKHEIT - providenciou uma colheita de material infeccioso de ambos os grupos. E verificou, com grande surpresa, que Varíola e SCHNAPPKARANKHEIT eram nada mais nada menos que uma coisa só.

A Varíola das aves era muito conhecida por Beaudette. O primeiro passo dado pelos avicultores é o de vacinar sua criação a fim de protegê-la. Seguindo esse caminho, o cientista tratou de descobrir um tipo semelhante de cavina para os canários. Levou meses - é lógico - nessa procura. Era preciso encontrar uma vacina que não fosse nem virulenta demais nem de suavidade ineficiente. Determinada a idade adequada para a vacinação e estudados todos os demais pormenores anos se passaram com perspectivas gradativamente melhores. Em 1941 somente 40% dos canários sobreviveram à moléstia ou à vacina. Atualmente, 94% podem ser considerados imunes à varíola.

Os canários de Denville são os únicos no mundo todo que podem ter essa garantia. Mister se faz notar que não foram apenas os Sterns os beneficiados.  Os cientistas norte-americanos tiveram esse inestimável auxílio no início da guerra, que lhes permitiu salvar milhares de soldados distribuídos pelas zonas tropicais maláricas. E começou assim um campo inesperado para as atividades da "fábrica" de Denville. Os hospitais e laboratórios começaram a pedir grandes quantidades desses canários à prova de epidemias de varíola, para suas experiências e fabricação de vacina.

Os canários da Fábrica Stern em caixas contendo 12 cabeças, levando água e grãos suficientes para cobrir a jornada.

(Ortografia atualizada)


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