Criando besouros para alimentar aves

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© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de dezembro de 1948, Vol.78, pág.726

De Piracicaba-SP, o Sr. L. G. E. L. escreveu-nos a seguinte carta:

"Necessito muito de conhecer algo a respeito do inseto da ordem Coleóptera, a que se dá o nome vulgar de "Larva japonesa", em alusão à sua suposta origem, que se diz ser do Japão. É um besouro preto, desprovido da faculdade de voar, cujas larvas, cilíndricas, envernizadas, constituem excelente alimento para aves. Os afeiçoados a pássaros canoros utilizam-nas para fornecer a sabiás, melros, guassus etc., fazendo-lhes muito bem. Considero um ótimo alimento para essas aves, pois, além de torná-las muito mansas, substitui os insetos de que normalmente se nutrem quando em condições naturais.

Desejo muito obter a sistemática desse inseto, biologia, origem exata etc. Há alguma revista ou publicação que trate desse assunto? CHÁCARAS E QUINTAIS, em seus longos 38 anos de proveitosa existência, publicou algo sobre isso?

Dizem que cada besourinho fêmea dá origem a mil ovos. De fato eles eles aumentam muito, mas, será tanto assim?

Certa vez dispus-me a verificar eu próprio esse fato, dispondo os besouros em latinhas, cada um numa. Por acaso poderia topar com uma fêmea recém fecundada, que me pudesse esclarecer a sua grande prolificidade. Mas a minha vida atribulada, a falta do material necessário, fizeram-me esmorecer. Para inteirar-me disso tudo, ouso pedir o vosso auxílio. Espero que o inseto a que me refiro seja vosso conhecido, pois é comum.

Tenho utilizado essas larvas para pintos, com ótimo resultado. As criações são feitas em caixas de madeira, forradas com papel e munidas de uma faixa metálica escorregadiça, que percorre todo o contorno interior. Isso é para impedir as larvas e besouro de galgarem o alto das paredes internas, podendo mesmo escapar, se o caixote não for fechado. De vez em quando ficam com a "mania" de subir. São terríveis roedores de panos, principalmente flanelas e casimira, de modo que não convém deixar as larvas chegarem a locais onde se guardam roupas. Alimentam-se de farelo de trigo (é o meio onde se desenvolvem), pão, mandioca, castanha etc."

De acordo com o pedido do Sr. consulente, enviamos ao nosso bondoso amigo e colaborador Dr. Dario Mendes, de quem devemos a classificação de quase todos coleópteros da nossa coleção - os besouros enviados para obter a determinação digamos "oficial" dos insetos. O prestimoso chefe da Seção de Entomologia do Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícolas do Ministério da Agricultura, assim se manifestou a respeito:

"O material enviado consta de larvas, ninfas e adultos de um coleóptero Tenebrionidae, provavelmente Tenebrio molitor L. Os insetos adultos chegaram em mau estado de conservação, quase deteriorados; com um pouco de paciência consegui recompor alguns para exame. O Tenebrio molitor L. é um inseto europeu; e, conforme o Catálogo de Juny, cosmopolita. Em 3-1925, portanto, há mais de 23 anos, alguém importou essa espécie da Europa para o fim de alimentar aves. Nessa época apanhei, desse material, uns 6 exemplares, que conservo na coleção da Seção. Comparando o seu material com o da coleção, verifiquei tratar-se da mesma espécie, isto é T. molitor L. 1758.

Embora não tenha bibliografia disponível para uma determinação exata, pode-se concluir, sem receio, tratar-se da espécie citada, em virtude da comparação com o material europeu, existente na coleção desta Seção."

 

O Besouro Moleiro, Tenebrio molitor, é o "mealworm" dos norte-americanos (verme da farinha. A gravura representando A larva, B crisálida e C adulto, reproduzimos do folheto nº 195 do Ministério da Agricultura dos EE.UU., interessante monografia sobre o "besouro moleiro", hóspede dos moinhos de trigo da velha Europa, e já criado no Brasil, especialmente para alimentar sabiás e rouxinóis engaiolados.

 

A CHÁCARAS E QUINTAIS publicou em 1910, no seu fascículo de fevereiro, à página 43, um artigo ilustrado sobre este útil besouro, muito limpo e asseado, descrevendo com pormenores como criá-lo e até onde, naquele tempo, seria possível encontrar uns casais do bicho a fim de que qualquer leitor pudesse iniciar tal original criação. Efetivamente esta criação tomou incremento e, sugiram numerosos admiradores, e um deles, em 1939, cujo nome de momento não nos ocorre, estreou a criação do tenébrio moleiro para se alimentarem com as suas larvas, centena de pintos. É o que está fazendo ainda hoje o nosso consulente de Piracicaba. De uns tempos para cá não ouvimos mais falar de tal criação que - com a falta de farinha de carne, - devia ser de novo adotada, até em grande escala. E chegamos à conclusão que neste assunto de se criar Tenebrio molitor o mais difícil é encontrar quem forneça os casais do besouro. Quem sabe se o atual consulente de Piracicaba não se dispõe a fazer tais fornecimentos?

(Ortografia atualizada)

© CHÁCARAS E QUINTAIS, 15 de dezembro de 1948, Vol.78, pág.726


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Última modificação (
Last modified): 31 outubro, 2004