A relação homem-animal

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Francesco Chieppa

©UCCELLI - Nov.2002-pág. 40-42; Dez.2002.

A Pet therapy": significado, origens, múltiplas aplicações. Um claro exemplo de pet therapy: a espantosa história de Robert Stroud (Elementos de Zooantropologia).

A inter-relação homem-animal pode ser considerada um binômio ancestral, cuja origem se perde nas “noites dos tempos”.

O homem, desde a gênese tem explorado o ambiente natural com um olhar particularmente atento e interessado para as outras formas de vida animal do Planeta. As primeiras expressões humanas de arte gráfica representavam animais. As figuras de paredes do Paleolítico mostram uma grande variedade de animais e quase nunca espécies vegetais.

O homem troglodita manifestava uma tendência ao travestitismo e ao hibridismo na forma animal, comportamentos tribais que ainda sobrevivem – em arcaicas expressões propiciadoras – junto a diversas civilizações primitivas.

O progresso da humanidade e os próprios acontecimentos históricos que têm marcado o destino dos povos, têm freqüentemente implicado uma determinante presença do animal.

Um exemplo disso tudo: a invenção da roda que permitiu o transporte e aumentado a rapidez de todo trabalho humano. Na sua primeira acepção o conceito da roda está intimamente ligado àquele dos animais de tração (bovino, eqüino).

Os animais condicionaram o êxito dos muito acontecimentos bélicos do passado. Pense nos elefantes de Pirro chamados “bois lucanospelos romanos que tiveram na província lucana o impacto com o mastodôntico paquiderme, a sua presença desconhecida acarretando morte nos primeiros encontros com o exército cartaginês, taticamente superior graças ao emprego do exótico mamífero

A épica cavalaria napoleônica, constituída por corcéis fortes e velozes foi protagonista de tantas vitoriosas campanhas do imperador transalpino.

A lenda do olho do Capitólio é atribuída aos mitos anseriformes o mérito de ter salvado o Capitólio das invasões dos Galos.

Grande parte da simbologia e da metáfora presente e passada refere-se ao mundo animal. A raposa é sempre símbolo da esperteza e astúcia. A pomba é mensageira da paz. O touro representa força e virilidade. O cordeiro é símbolo cristão da mansidão. A tartaruga está associada ao conceito de lentidão e desajeitamento.

A relação homem-animal tem evoluído nos milênios através de três fases destacadas:

Primeira fase: Concepção arcaica do animal.

Nesta fase o homem tinha através do animal uma ligação que poderíamos definir como mágica-totêmica. O ser não humano era assimilado a uma entidade divina (culto pagão de alguns animais junto aos antigos egípcios). O animal foi percebido como uma divindade iniciadora de estirpes. A esta concepção arcaica se relaciona a presença de símbolos animais na antiga heráldica.

Segunda fase: Concepção econômico-funcional do animal

Neste período histórico se afirma o conceito do homemdominus”: mestre, favorito também de certa teologia cristã, afirmativa de uma Natureza constituída por um conjunto de elementos considerados a serviço das necessidades materiais do ser humano.

O animal nesta fase é considerado “útil” – mediando um neologismo de origem anglo-saxônica, atualmente um tanto em voga em matéria econômico-financeira – produtores de carne, leite, , pele, ovos, força de trabalho.

Portanto se afirma o repugnante conceito de uma besta total e indiscriminadamente a serviço das necessidades humanas.

Terceira fase: Concepção ética do animal

Corresponde à visão do animal que se tem no período histórico.

A criatura não humana, graças aos progressos da biologia, etologia, medicina veterinária, não é mais considerada como no passado: “corpo vil”, mas ser sensível, em condições de percepções conscientes de prazer e dor. Nasce uma legislação de tutela dos animais em todos os países mais evoluídos.

O animal torna-se depositário de direitos elementares. É uma questão ótica ético-filosófica que se insere no atual conceito de pet-therapy, que o animal passa a ser considerado também como distribuidor de benefícios psico-sociais.

O homem primitivo vivia na savana, em pequenos núcleos familiares nômades. Dedicava-se inicialmente à caça e depois ao pastoreio. A sua ligação com os animaisúnica fonte de sustentaçãoera estreitíssima. Os nossos antigos progenitores tiveram mais contatos com o mundo animal que com os próprios conspecíficos.

O homem contemporâneo é parte integral de um mecanismo produtivo freqüentemente bem mais exasperado, fora do qual está mais e isolado.

A progressiva urbanização e o desaparecimento da antiga civilização rural, o relegou a viver em ambientes metropolitanos caóticos e estressantes. Aumenta o número de solteiros, das famílias sem filhos, ou com filho único. Cresce de modo exponencial o exército de animais considerados “de companhiaque compartilham a nossa existência nas residências de hoje

Quanto ao Pet: significa literalmenteanimal de afeição predileto”, não é bem uma descoberta mas, através da aproximação do animal de companhia o homem renova no seu novo contexto de vida uma antiga ligação desejada essencialmente em nível inconsciente.

É o indissolúvel atavismo relacionado com o mundo animal, revisitado e revivido na chave moderna. A pet-therapy leva sobre esta contínua exigência do homem e sobre o seu papel regulador, extensivo e tranqüilizador no nível psíquico, em termos de satisfação de uma necessidade natural. O homem contemporâneo, na busca da aproximação de um pet, tende à “infantilização” pelo animal de companhia. Através da seleção, tem miniaturizado muitos dos animais que os circunda, conferindo a diversas raças portes somáticos permanentemente infantis, em grau de reforçar a ligação de adoção por parte do homem.

O termo Pet therapy  é de origem anglo-saxônica. Também se tem notícia de um emprego terapêutico dos animais em muitas formas de patologias humanas do comportamento a partir de 1700; todavia deve-se ao psiquiatra e pesquisador Boris Levinson a primazia da terminologia , avançada em 1961 com a publicação do trabalhoThe dog as co-therapist”. O termo Pet tem um significado ambivalente que pode ser traduzido comoanimal de afeição predileto”, como também comoacariciar, afagar”. Tal ambivalência de expressão é todavia explicada pela essência do método. Em época mais recente, tem-se notado que a definição de “Pet therapy” torna-se inadequada que não compreende o uso dos animais comumente definidos como “de renda”(herbívoros domésticosaves de corte), positivamente usados nas experiências deste método.

Portanto fez a hipótese de se substituir o velho histórico termo por um mais adequado comoAtividades com o auxílio de animaisou mesmoTerapia desenvolvida com uso de animais”. A pet therapy é um método suave, sem efeitos colaterais e pode ser considerada uma co-terapia, quando empregada na forma de patologia psíquica e física.

O princípio do método leva em conta a capacidade do animal de evocar emoções comunicativas no ser humano. Estabiliza – em outros termos – uma sólida ligação empática entre o homem e o animal, capaz de comunicações afetivas, em base a um processo de identificação que lega o paciente humano ao pet. A Pet therapy é um método claramente multidisciplinar que requer a intervenção de especialistas de diferentes ramos: o médico, o psicólogo, o médico veterinário, a fim de avaliar a indicação do uso do método no paciente humano e o tipo de animal a ser utilizado no programa de recuperação.

 O uso do animal como co-terapeuta não põe problemas éticos, com exceção para a golfinho-terapia que suscita algumas perplexidades em relação ao uso de mamíferos aquáticos em regime de estreita catividade. A Pet therapy torna-se de fato eficaz, somente quando o animal está em grau de expressar o natural e apropriado repertório etológico, sem ser forçado ou obrigado a isso. A constante consulta ao médico veterinário permitirá o perfeito estado sanitário do auxiliar não humano, pressuposto essencial para que possa desenvolver plenamente o papel de reabilitação que é solicitado sem constituir ao mesmo tempo um potencial veículo de transmissão de doenças (zoonoses) ao paciente.

Quando se fala de uso de animais de estimação com finalidade puramente terapêutica geralmente se refere aos "humanizáveis" cães, embora também outras espécies domésticas sejam suscetíveis de emprego com ótimos resultados.

Os campos de aplicação da pet therapy são muito vastos e vão desde a terapia de reabilitação para pacientes com distúrbios  físicos ou comportamentais, à prevenção de estados depressivos e de patologias cárdio-vasculares, e até como à pura e simples função de formação e educação das crianças em idade evolutiva.

A pet therapy tem se revelado eficaz no tratamento do autismo. Nestes pacientes com graves distúrbios da esfera afetivo-relacional, o cão co-terapeuta (e a golfinho-terapia) tem permitido freqüentemente grandes progressos clínicos. Na realidade o mamífero doméstico suscita na criança com autismo um processo indicativo - através do estabelecimento entre os dois de uma comunicação "coerente" não verbal, do tipo mímico-gestual, semelhante àquele que acontece entre a gestante e o recém nascido - adquirindo o animal o papel de "sujeito transacional" entre mundo interior e exterior da criança inválida, contribuindo para restabelecer a homeostasia de relação gravemente comprometida pela psicose. Sempre na idade evolutiva o animal de companhia de jogos estimula a percepção do próprio corpo e da própria individualidade, educando o filhote de homem à biodiversidade, à alteração e infundindo na criança segurança, capacidade criativa e imaginação, melhoramento da comunicação não verbal, mímico-gestual; recusa de todo racismo e artificialismo. Crianças crescidas longe dos animais freqüentemente serão mais sujeitas à zoofobia e zoomania, ansiedade, insegurança.

A introdução de pets nas classes de ensino obrigatório melhorou o nível de atenção e de rendimento dos alunos, reduzindo o fenômeno de desvio e de abandono escolar. O emprego de animais em hospitais em algumas áreas da pediatria influencia favoravelmente o restabelecimento de muitas doenças, reduzindo o tempo de hospitalização.

A relação homem-animal oferece a vantagem de ser isenta de confrontos, não competitiva, não verbal e, assim, totalmente isenta de mensagens contraditórias; relaxante e conciliadora. Qualquer relação entre humanos - familiar e amigável - impõe sempre um ter que  confrontar com o conspecífico e, em tal sentido, sempre gera de uma parte, embora mesmo mínimo, estresse. A proximidade dos animais preenche o sentido de solidão das pessoas sós: crianças órfãs, presos, velhos. É um estímulo à socialização com outras pessoas que também possuam animais. Estimula o jogo, reduz a agressividade, tem favoráveis efeitos reguladores sobre a fraqueza cardíaca e pressão arterial. O prof. Aaron Katcher em "Interrelation between pets and people" destaca o potencial normotensão/hipertensão que os cães podem ter durante o acariciamento por parte do homem. A presença de aquários nas salas dos consultórios dos dentistas causam relaxamento nos pacientes provocando efeitos ansiolíticos e hipotensores, comparáveis aos primeiros estádios da hipnose.

Nos indivíduos mais jovens a posse de um pet  ativa antigas emoções e renova o interesse pela vida; estimula o exercício físico - sobretudo quando o animal de companhia é um cão - faz o velho se sentir ainda útil e indispensável para alguém. O animal é uma preciosa ajuda terapêutica e re-educativa para pacientes com deficiências físicas. Crianças e adultos diminuem os acidentes neurológicos ou traumáticos do aparelho esquelético. O jogo com o animal e o ter que cuidar dele favorecem uma espontânea atividade motora reduzindo a hipertonia muscular espástica. A hipodromo-terapia é uma forma de pet therapia de indiscutível eficácia, em grau de determinar melhoramentos clínicos em pacientes com debilidades físicas ou psíquicas.

A presença de um animal num ambiente  carcerário tende a reduzir a conflitualidade entre detentos que cuidam do próprio pet, reduz a freqüência de suicídios, melhora a cooperação entre os detentos e guarda carcerária. Já em 1983 Pethes tinha notado durante uma pesquisa estatística feita e ma Hungria que eram raros os episódios de auto-lesões em comunidades com presença de animais. Nos Estados Unidos uma norma de 1978 permite a introdução de pequenos animais de estimação nas prisões (aves, répteis, anfíbios, peixes ornamentais). Sempre nos Estados Unidos este tipo de experiência teve um precedente nos anos vinte. Refiro-me a história humana de Robert Stroud, homicida e protagonista de crimes bárbaros, condenado ao enforcamento e depois perdoado em 1920 pelo presidente Wilson que comutou a sentença capital que havia sido condenado, para a pena de isolamento permanente. Depois de várias transferências Stoud fica na prisão de Alcatraz, localizado na homônima ilha, na baia de São Francisco (Califórnia).

Um dia o preso, no horário de banho de sol no pátio a ele reservado achou um filhote de pardal no chão, frio e quase morrendo. O recolheu, cuidou dele conseguindo salvá-lo e fazê-lo crescer. Depois pediu e obteve da direção da penitenciária consentimento para criar na cela alguns casais de canários e daquele momento Stroud manifestou uma verdadeira e própria metamorfose. Aquele homem rude e sanguinário se transformou - quase que por um encanto - em um delicado e apaixonado estudioso da biologia das aves, chegando a se tornar em poucos anos um ornitófilo de fama mundial! Particularmente versado nos estudos e nas observações científicas sobre patologias das aves de gaiola, Stroud mandou imprimir - como autêntico auto-didata - dois tratados de ornitopatologia: "Diseases of Canaries" (Doenças dos Canários)  e "Stroud's digest of bird diseases" (Resumo das doenças das aves por Stroud). Robert Stroud morreu na penitenciária de Alcatraz em 21 de novembro de 1963, com a idade de 73 anos, depois de ter passado no isolamento 53 anos de sua vida, confortado somente pela grande paixão pelo mundo das aves e da sua alegre, multiforme e multicolorida vizinhança.

A história do condenado passarinheiro ("birdman") americano subiu aos clamores da crônica internacional depois da realização do filme "O Homem de Alcatraz", dirigido por John Frankeimer, com o mítico Burt Lancaster no papel de Robert Stroud, filme que obteve uma indicação para o Oscar.

Concluindo podemos afirmar otimisticamente que os animais estão documentadamente em condições de melhorar a qualidade de vida do homem e até mesmo, auxiliar a cura de patologias de várias naturezas. Para a Federação Ornitofílica Italiana, deve ser reconhecido o mérito de estar sempre atenta e sensível a este tema emergente, fornecendo uma contribuição de destaque à sua divulgação e promovendo, ao mesmo tempo, interessantes momentos de aprofundamentos, debates e reflexões. Isto é, ao meu ver, uma confirmação positiva para a abertura da política federal e social e às problemáticas que, através do amigo mundo animal, investem necessidades e expectativas da sociedade atual. Um posterior elemento de crescimento e afirmação do nosso antigo Sodalizio que com quase 20.000 associados e 250 associações se coloca hoje com o título, entre as maiores instituição não governamentais sem fins lucrativos da Itália: parte integrante das suas camadas sócio-culturais.

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Tradução: PSF

©UCCELLI - Nov.2002-pág. 40-42; Dez. 2002 (apresentado sob autorização do autor Francesco Chieppa).


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Última modificação (
Last modified): 26 setembro, 2003