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REPRODUÇÃO DE BICUDOS E DE CURIÓS

Aloísio Pacini Tostes – Ribeirão Preto-SP

© ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS 

 

Toda  a sociedade deve proteger o meio ambiente. Este é um compromisso para com o futuro. Ou praticamos isso ou inviabilizaremos a continuidade da vida na terra. O  setor público deve fazer a sua parte,  promovendo ações contínuas  que visem a preservação de tudo o que existe na natureza. Seria ótimo que fosse  sistematizada a prática do repovoamento e a demarcação crescente de novas áreas públicas de preservação. 

No que diz respeito aos pássaros canoros nativos brasileiros, em especial ao bicudo e curió,  nós, como seus admiradores,  temos que protegê-los de todas as formas e batalhar para evitar a sua extinção. Temos que lutar por isso, porque são as duas melhores formas de garantirmos a sobrevivência das aves: 1- A conservação do estado silvestre das aves e a biodiversidade nos Parques Nacionais e áreas ainda intocadas; 2- A criação em larga escala no ambiente doméstico.

Está provado, de forma notória, que canários domésticos, periquitos australianos, calafates, manons, agapornis, loris, diamantes de gould, calopsitas e tantas outras, são aves criadas em cativeiro há anos – com formas inexistentes em estado silvestre - e que só sobrevivem, aos milhões, inclusive no Brasil, devido ao carinho e à dedicação dos passarinheiros.

Com efeito, as espécies estarão preservadas,  de todas as formas, à medida que o homem se interesse por elas - como é o caso do bicudo e do curió. Mas o maior trunfo é,  sem dúvida,  a  seleção genética na obtenção de linhagens de alto nível. Ela  é a  garantia de que não haja mais interesse por exemplares silvestres, de muito menor qualidade no aspecto da capacidade de repetição, da beleza física  e de canto duvidoso.

As técnicas estão se aprimorando e, a partir dos anos 80, os procedimentos científicos de manejo estão sendo repassados e dominados por grande  parte de passarinheiros. O gaiolão é o ambiente mais utilizado  pelos criadores para exercerem o processo de reprodução. É a melhor forma, porque assim se poderá  manipular as aves, controlar a temperatura, ventilação e umidade do criadouro com muito mais eficiência.

Há inúmeros modelos dessas gaiolas. A preferência deve ser dada às fabricadas totalmente com arame, pois é a mais higiênica e de mais fácil controle de doenças. Se visitarmos os grandes criadouros de canários, o que se verá é o uso dessa  forma de criadeira e eles têm mais de 180 anos de prática na criação doméstica, portanto muita experiência para recomendar a gaiola de arame puro. Quando se quiser desinfetar uma gaiola de arame puro, basta submetê-la a um calor de 120 graus centígrados por alguns minutos  ou imergi-la em uma solução com os melhores desinfetantes.

O tamanho ideal da gaiola é: 58 cm x 28 cm x 36 cm, podendo haver variações conforme a disponibilidade de espaço; a de criação de curió pode ser ainda menor, tipo 50 cm x 28cm x 36cm,  sem problemas. É obrigatório que haja uma divisória no centro, para o caso em que se deseje  isolar o casal ou os filhotes. Essa forma de separa­ção é muito usada, também, no momento da cópula, para evitar eventuais agressões. É fundamental a utilização de uma capa protetora que irá isolar cada gaiola de contaminação da outra, bem como acomodar melhor a fêmea pois ela não terá mais o ponto de fuga e ajudará na eliminação do estresse, criando-se um nicho para ela.

A utilização do gaiolão favorece o sistema que adota  a fêmea chocando e tratando  dos filhotes sozinha. Pode-se aproveitar, também, um macho para cerca de 5 a 10 fêmeas. Ele só será colocado na hora da cópula, quando a fêmea estiver receptiva e “abaixando”.

O gaiolão ideal pronto para procriar terá:

- quatro portas. Duas na parte baixa, a 10 cm de cada lateral e duas na parte alta, a 2 cm da lateral;

- dois passadores na parte alta das testeiras laterais;

- duas aberturas para comedouros externos;

- uma banheira (retirar diariamente após o banho);

- um bebedouro de  50 ml;

- um ninho de arame, forrado com bucha vegetal;

- uma capa de pano (ou plástico) no fundo, nas laterais e no teto, e

- dois poleiros o mais distante possível um do outro, um de 5 mm.

- a fêmea não poderá encostar a cauda na grade.

O local onde se desenvolverá o ciclo reprodutivo deverá ser muito claro com boa circulação de ar e a temperatura deverá estar permanentemente entre 25 a 33 graus centígrados e a umidade entre 50 e 60% para evitar fungos. O segredo de tudo está aí. Deve-se ter todo o cuidado com a temperatura e umidade. A boa produtividade está intimamente ligada a estes dois fatores. O ambiente deve ser ventilado, porém sem correntes de ar. No caso de queda brusca na temperatura exterior, feche as janelas e procure utilizar filtro artificial para despoluir o ar do interior do criadouro. Pode-se, também, melhorar a luminosidade e a quantidade de horas úteis com lâmpadas bio-lux® que substituem a função do sol. Isso é importante porque se sabe que o aumento da claridade poderá aumentar a produtividade e está intimamente ligado à libido das matrizes. Utiliza-se muito acordar as fêmeas uma hora mais cedo, para estimulá-las.

Os gaiolões serão dispostos em prateleiras afastadas da parede, no mínimo  20 cm, e suspensos da prateleira 10 cm. Na fase da reprodução as fêmeas, em hipótese alguma, poderão avistar-se. Os pés traseiros das gaiolas estarão dentro de uma cantoneira que servirá de trilho para travar e dar mais segurança no processo de retirada do fundo e afastamento lateral de cada gaiola nos eventuais momentos de cópula da fêmea.

O ambiente deverá estar ainda preparado para ter:

- saída para o ar quente na parte mais alta do ambiente;

- entrada de sol da manhã;

- entrada de ar rente ao chão, permanentemente aberta; 

- sistema  de telhado que proteja as gaiolas da chuva;

- piso de preferência de pedra ardósia para isolar a umidade; 

- mescla do telhado com telhas transparentes para aumentar a  claridade;

- sistema de vitrôs ou aberturas para circulação do ar e proteção contra entrada do vento frio;

- pode-se utilizar sistema de exaustores que aproveita a energia eólica;

- torneiras com filtros e pias próximas das gaiolas;

- medidor de umidade; 

- termômetro para medição da temperatura;

- vedação para entrada de insetos e roedores;

- todo cuidado com o ataque de fungos por causa da  umidade excessiva e

- sistema de escoamento de água nas eventuais lavagens do piso.

Tudo deve estar bem limpo: o ambiente, a gaiola, a comida, o ninho, os poleiros.

Um dos cuidados primordiais é a lavagem das mãos de quem trata. Usar sempre água e sabão sistematicamente, pois a forma mais freqüente de contaminação se dá pelas mãos do tratador. Está provado que a grande maioria das infecções é disseminada pelas mãos e muitos criadores ainda não se conscientizaram disso. Lavar as mãos é, portanto, uma das melhores formas de profilaxia de doenças num criadouro. Alguns já estão utilizando luvas que facilitam a lavagem mais amiúde. Rotineiramente terá que se fazer a higiene completa de todos os materiais utilizados. Não permitir, de forma alguma, a entrada de insetos, roedores e animais de estimação (cachorros etc.) no recinto de criação, notadamente onde estão os ninhos. Isso inviabiliza totalmente os resultados. Cuidado com a possível entrada de pássaros soltos, como pardais, rolinhas etc. Freqüentemente eles portam piolhos e outros parasitas e poderão ser focos de uma infestação no criadouro. Como já dissemos, a higiene é o segredo do sucesso na criação. Nunca descuide disso. Seja perfeccionista nessa parte. Periodicamente, também, deve-se fazer a desinfeção de todas as instalações. Utilize os melhores desinfetantes/fungicidas do  mercado, mas troque o princípio ativo a cada dois meses, alternando entre amônia quaternária, cloro, iodo e formalina (usando sempre a proporção de 1 a 2%  e muito cuidado com o cheiro forte). Infelizmente, porém, sabemos que uma desinfeção perfeita só é conseguida com o calor de mais de 100 graus centígrados durante algum tempo, especialmente por causa da coccidiose. Atenção, porque qualquer desinfetante ou lança chamas só funciona se removermos todas as matérias orgânicas do recinto com água e sabão.   

Todo cuidado com a infestação de piolhos e ácaros e, principalmente, com os produtos que são usados para eliminá-los, pois têm efeito mais nocivo que os próprios microorganismos. Nunca pulverize inseticida dentro do ninho; use somente aqueles que tenha a certeza de sua atoxidade para as aves,  principalmente  filhotes - os piretróides,  por exemplo. Finalmente, para os médios e grandes criadores, um bom lembrete: não deixem  de fazer a fumigação anual para controlar os fungos no ambiente.

A época mais apropriada para a criação, no Brasil, tem início em setembro e vai até o final de abril, sendo que o  melhor período é de dezembro, janeiro e fevereiro. É o verão, período de muita chuva e de muita claridade. A temperatura ambiente também é muito favorável. A grande maioria dos pássaros procria na natureza nessa fase do ano, para aproveitar todo o seu vigor e o favorecimento da natureza: mais sementes, brotos, insetos etc.

No entanto, em ambientes mais restritos e controlados, é perfeitamente possível que haja um extrapolamento, com a procriação sendo exercida o ano todo, em especial nos grandes criadouros, onde há sempre machos e fêmeas “prontos”, levando em conta a necessidade de uma boa produtividade.

Logicamente, uma fêmea só deverá criar até 4 vezes por ano, sob pena de esgotamento. Devemos ter todo o cuidado e respeitar essa limitação.

É preciso que todos os anos, de 6 em 6 meses, principalmente antes de iniciar a produção e antes da muda, que façamos uma profilaxia em nossas aves para que possamos nos prevenir contra as principais doenças que as atacam. Poderemos, então, seguir as orientações abaixo, a saber:

- nunca introduzir aves no plantel antes da muda ou da fase de reprodução sem a quarentena, pois são épocas de queda de resistência imunológica;

- durante a muda devemos usar complexos vitamínicos e  aminoácidos essenciais solúveis;

- durante a fase da lustração, ministrar vermífugo que deve ser repetido sempre após 15 dias;

- prevenir a coccidiose, primeiramente detectando as aves que têm problemas deste parasita, feito através de exames de fezes do plantel ou individuais.

- prevenir a salmonelose e outras moléstias -  preferentemente após fazer o antibiograma - com antibióticos de  largo espectro, tomando-se o  cuidado com dose,  toxicidade dos produtos e tempo de uso para não causar resistência bacteriana. Os criadores que não seguem essas regras de uso de produtos estão contribuindo para a perda do efeito  dos antibióticos.

Depois da aplicação dos remédios acima, sempre que possível sob a orientação de um ornitopatologista, ministrar um bom polivitamínico, até a entrada do pássaro em atividade. Depois desse procedimento, deve ser oferecido esse tipo de medicação de polivitamínico rico em vitaminas A, D, E e K em uma semana  por mês ou a cada dois dias por semana. Quando houver casos de problemas durante a reprodução, efetuar exames específicos para detecção do problema. Alguns medicamentos, tipo sulfa, matam filhotes e podem esterilizar machos temporariamente, além de muitos já não terem efeito sobre alguns agentes patogênicos. O recado final sobre tudo que foi escrito é: “quem tem higiene rigorosa não perde filhote

A alimentação básica do bicudo e do curió é a seguinte:

- grãos:

alpiste                       -          60% 

painço branco          -          15%

painço verde             -          10%

arroz em casca          -          15%

Obs.: As sementes devem ser de boa procedência, especialmente de safra recente. Sementes, mesmo bem acondicionadas, mas se velhas, não possuem as qualidades nutritivas e de apeticibilidade se comparadas com as sementes novas. Pode-se acrescentar pequenas quantidades de outros grãos, como girassol, perila, niger, aveia etc. Porque não se consegue mais evitar os fungos que já estão em seu interior, não se deve lavar as sementes. O que se pode fazer é limpá-las e abaná-las para retirar a excessiva  poeira. Cuidado com comida mofada, úmida ou mal armazenada; isto é uma das maiores fontes de doenças no plantel. Por segurança  adicione sempre  nos grãos  2 gramas de propionato de cálcio para 1 quilo de  grãos que ficarão armazenados.

Como complemento se dará,  servidos em potezinhos, para serem  renovados todos os dias:

 

- ração granulada;

- farinha misturada: 50%  fubazão; e

                                  50% ração de codorna  (cuidado com a umidade,           adicionar proprionato de cálcio à 1,5 gr. por quilo)

- mais a seguinte mistura :

                    areia                                     -          30%

                    cascalho                                 -          25%

                    farinha de osso                      -          15%

                    farinha de ostra                     -          20%

                    sal mineral p/aves                 -          5%

                    saibro (areia)                         -          5%

Em fase de reprodução, deverá ser ministrada ao plantel, além da alimentação básica, uma  especial que consiste simplesmente em uma broa de milho (farinhada caseira)  obtida da seguinte receita:

- 2 copos de fubá grosso;

- 1 copo de leite;

- 1 copo de açúcar cristal;

- 2 ovos;

- 1 colher de sopa de fermento;

- 1  pitada de sal.

  Obs.:  a) bater bem e colocar no forno por 30 minutos;

             b) tirar a casca torrada e secar ao sol, após passá-la em uma peneira de  separar arroz; e   

             c) conservar numa lata fechada e utilizar por 15 dias.

Uma segunda  forma seria a utilização de uma farinhada conforme abaixo:

Pode-se utilizar rações pré-fabricadas que tenham um nível de proteína acima de 20%- tomando-se  todo o cuidado com o pré exame antifúngico.        

Em qualquer dos casos, na hora de servir, adicionar à broa  um pouquinho de ovo cozido, no momento.  Deve-se, também, adicionar grãos  de alpiste, gergelim, painço e arroz “cateto” integral, cozidos separadamente por vinte minutos,  na hora. A proporção seria a seguinte: l quilo de broa, 3 ovos, 1 copo de grãos de alpiste e painço cozidos por 20 minutos. Lembrar que esta mistura fermenta  rapidamente, então, por garantia  contra os fungos que se formam, é melhor preparar o alimento, no mínimo, três vezes ao dia  na  hora de servir. Por segurança contra fungos, misturar 1 grama de “proprionato de cálcio” ou “Mold-zap®” para um quilo de qualquer alimento. Esse tipo de alimentação deve continuar até a idade de seis meses, quando os filhotes completam a primeira muda de penas. Em suma, faça você mesmo a farinhada ou tome todo cuidado com todas as rações existentes no mercado; só as utilize após exame negativo de fungos pois nem sempre elas estão isentas destes agentes  patogênicos.  

Obs.:  É importantíssimo que se incluam determinados produtos estimulantes na dieta alimentar das aves em processo de reprodução para  aumentar a fertilidade. A melhor forma de administrar é adicionar na água, na broa ou farinhada simultaneamente: Vitamina E, Selênio e Lisina que muito despertam a libido.

Temos que cuidar muito bem da água que servimos aos pás­saros. Deve ser limpa e potável, da mesma que bebemos. Cuidado, contudo, com águas excessivamente cloradas, pois podem causar distúr­bios digestivos graves. Todo o criador deve mandar examinar periodicamente  a qualidade da água a ser servida aos pássaros;  não é um exame caro. As caixas d’água devem ser lavadas de 6 em 6 meses. O melhor mesmo, é ministrar somente água filtrada aos pássaros. Eles são muito sensíveis a coliformes fecais; uma pequena quantidade é o suficiente para provocar uma epidemia de colibacilose em todo o criadouro.

Os recipientes a serem colocados com água   na gaiola devem ser dois, um  para bebedouro e outro para o banho. É obrigatória a troca diária da água, bem como da desinfeção semanal das vasi­lhas  com sabão e soluções desinfetantes próprias para objetos de uso alimentar. Muitos criadores trocam diariamente os bebedouros; um deles fica na água com o cloro desinfetando e o outro na gaiola, no outro dia, trocar. Em dias muito frios e úmidos não se deve colocar a banheira, principalmente para filhotes. Todo cuidado com a umidade que a água de banho pode causar; se for o caso,  troque o papel  do fundo da gaiola ou enxugue o fundo  logo em seguida.

O ninho deve ser de armação de arame e revestido com bucha vegetal (Luffa cylindrica), dessas que se usam para o banho humano. Esse material é excelente,  pois  permite a passagem de ar e da umidade, não machuca os pés dos filhotes, é  lavável e se assemelha muito ao aspecto das raízes de capim que as fêmeas usam na natureza.

O ninho terá que ser lavado e desinfetado, obrigatoriamente, a cada chocada, se possível com calor em estufa a 100 graus centígrados. Suas dimensões  são basicamente: - bicudo: de 6,5 a 7 cm de diâmetro e de 4,5 cm de profundidade no centro - curió: 5 a 6 cm de diâmetro e 3,5 cm de profundidade no centro. Observe o tamanho da fêmea ; ela vai ficar muito bem acomodada  se encostar o peito na lateral e a cabeça na borda do ninho. Daí  porque se poderá variar o tamanho do ninho para adequá-lo às dimensões de cada uma.

Não esqueça de  pendurar  bastante raiz de capim e pedaços de fibras de sisal (Agave sp) para estimular  a fêmea.

É fundamental que se retire todo esse material após o quinto dia do choco para não enroscar os pés e provocar a eventual quebra de ovos.

Cuidado, porque quase sempre, quando as fêmeas estão em processo de fazer ninho, carregando  raízes no bico, coincide com o momento certo para se colocar o macho para acasalar. Não se colocando o macho  na  hora certa pode-se  perder a  respectiva postura e ocorrerem ovos brancos.

Na relação sexual entre o casal, o macho estufa as penas, mostra-se garbosamente, levanta as asas e canta o mais bonito que sabe. A fêmea abaixa  as asas e fecha os olhos. Em seguida ele, batendo as asas, voa acima da fêmea e, colocando os pés nas costas dela, faz com que, durante 1 segundo, haja o contato das cloacas. Dessa forma, o esperma penetra no organismo da fêmea e fica retido no oviduto até  fecundar os ovos.

Provavelmente é um dos itens mais complicados na criação em ambiente doméstico,  mormente  de bicudos, por causa da agressividade de certas fêmeas. Cada uma é de um jeito: umas batem no bicudo, outras são mais mansas. É fundamental que se conheça o procedimento de cada uma no momento da cópula. Cada macho também tem um tipo de reação e uma maneira de acasalar.  Fique muito atento,  conheça o melhor possível cada um,  macho e fêmea, faça anotações. Nunca coloque machos inexperientes com fêmea  agressivas; para facilitar a cruza, às vezes funciona retirá-las do ambiente e tentar a cópula em local afastado de sua respectiva morada.

Além de toda a dificuldade, ainda é muito comum a esterilidade momentânea ou definitiva, principalmente nos machos. Por isso, só coloque machos para copular quando estiverem com muita saúde e com a muda bem “seca” e  as penas da  borda  da cloaca (espigão) visíveis e arreadas. Caso aconteça ovos brancos (não fertilizados) verifique a saúde dos pássaros e administre vitamina E, selênio e Lisina. A cópula mais eficaz é a do segundo dia, à tardinha, na antevéspera do primeiro ovo. Sempre que colocá-los juntos, na mesma gaiola, gaiolão ou viveiro,  observe constantemente o comportamento do casal  para interferir, em caso de necessidade. Outra forma boa de cruzar é ao clarear do dia, na hora que os machos  acordam;  nesse  momento  eles  estão muito propensos a galar, porque no mato  fazem  isso todo dia  a  esta hora. Muitos criadores deixam  o passador aberto  à  noitinha  para fechá-lo  assim que clareia o dia.  Só faça  isso com machos  bem  experientes. Nunca deixe a  fêmea  “pegar” o macho e vice-versa, antes ou depois da gala. Isto pode inviabilizar definitivamente o cruzamento que se deseja fazer e não esqueça de anotar o nome do casal,  o dia e a hora do cruzamento. O livro de anotações deve ser constantemente utilizado. Há  fêmeas que ficam “abaixando” sem botar  por vários dias; pode ser problemas com a alimentação ou com a saúde da ave. Ocorre muito quando  o procedimento se refere à primeira postura da temporada.

Para quem usa gaiolões, o melhor é:

- usar um macho para várias fêmeas (mais ou menos 5);

- deixar o respectivo separador na posição de fechamento, se for preciso;

- colocar a gaiola do macho ao lado do gaiolão da fêmea com os  respectivos passadores abertos;

- é comum a fêmea escolher o macho pelo canto ou pelo aspecto físico. Afaste os machos não utilizáveis na reprodução.

- antepor entre o macho e a fêmea uma divisória para que não se vejam   até o momento certo;

- certificar-se de que a fêmea está mesmo receptiva e “abaixando”. No primeiro dia, às vezes, ela ainda não aceita.

- só retirar a placa separadora quando a fêmea “abaixar”, isto é,  ficar na posição de receber a cópula do macho;

- após o acasalamento, fechar imediatamente o separador do meio do gaiolão, colocando um pássaro de cada lado, para não acontecerem desentendimentos entre eles;

- lembrar que uma só cópula, se for no momento certo, dá para fertilizar  até três ovos e

- só colocar o macho para copular 2 vezes por dia, uma de manhã, bem cedinho,  e outra à tardinha.

 

Obs.:  Há machos que  não podem ficar perto de  fêmeas que estão “pedindo gala”, ficam chocos ou  passados de fêmea e aí recusam temporariamente  fazer a cobertura. Afaste-os do criadouro e  traga-os  somente no momento da gala.

Depois da gala, a fêmea bota o primeiro ovo, em geral no segundo dia. O outro ovo virá num intervalo de 24 horas. No ambiente doméstico, por causa da alimentação privilegiada, existem fêmeas que quase sempre botam 3 ovos. Nesta fase bebe muita água e procura alimentos ricos em cálcio; muita atenção para esses fatos. Se a fêmea estiver com dificuldade para botar (ovo atravessado), dê-lhe imediatamente água com açúcar. Caso haja ocorrência de ovo mole (sem casca), ministre meia colher de café de bicarbonato de sódio em bebedouro de 50 ml, durante 24 horas até a bota do segundo ovo.

Algumas  deitam  no ninho já no primeiro ovo. Retire com cuidado este ovo e substitua-o por um indez até a postura do segundo para que os filhotes nasçam juntos. Após isto, não deve  mais  ser  incomodada. Se os ovos estiverem férteis, lá pelo sétimo dia eles ficam escuros e opacos; se estiverem transparentes após o oitavo dia é indício de que estão gorados. Alguns criadores antigos, para ter certeza sobre a fertilidade do ovo após o décimo dia,  esquentavam água a 37 graus  e  colocavam para  boiar; caso o ovo se movimentasse o filhote estaria vivo. O mais correto é o uso de ovoscópio, ou uma pequena lanterna que ajuda a perceber o embrião dentro do ovo. Quando  por algum motivo um ovo se trinque, tente tampar a fratura com gesso; assim ele estará mais protegido contra  a entrada  de micróbios. Neste período, a comida terá que ser seca  para evitar mal  estar e o incômodo dos gases intestinais.  Muitas fêmeas, por vários motivos, não iniciam a incubação, especialmente as de curió e as novas de bicudo. Os principais motivos disso são: fêmeas novas, gaiolas em locais não adequados e devassados, espanto e susto, luz acessa durante a noite e apagada abruptamente, ciúme do macho, piolhos no ninho e diarréia na fêmea. Passe, então, os ovos para outra fêmea, para uma chocadeira artificial ou arranje ama-seca, podendo ser manon  (Lonchura striata, pássaro com aptidão em chocar ovos de outros) para esta tarefa.

No décimo-segundo ou  décimo-terceiro dia de incubação nascem os filhotes. Aí começa a fase em que todo o cuidado é pouco. Não movimente outros pássaros por perto, não chame gente estranha para ver os filhotes e tampouco mude a rotina de procedimentos com que a fêmea está acostumada. Evite falar com tom de voz alto  perto das fêmeas com filhotes novos, mormente nos primeiros 6 dias. Não a deixe ver, de forma alguma, outra fêmea, senão ela mata seus próprios filhotes. No início,  ela alimenta um pouquinho de cada  vez e os filhotes se desenvolvem muito. Cuidado quando a fêmea não estiver sobre o filhote durante o dia. Nesse caso o filhote tende a esfriar, não fará a digestão, pára de pedir comida e acabará adquirindo infecção e morrendo  em seguida. Arranje uma gaiola-enfermaria ou uma estufa  com temperatura controlada a 33 graus Celsius, coloque-o ali e a cada uma hora leve-o para respectiva gaiola para  ser tratado pela mãe. Vá repetindo o procedimento até superar o problema até o décimo dia. Observe, também, se a mãe deita sobre os filhotes à tardinha; caso contrário, recolha-os a um lugar aquecido, preferencialmente à gaiola-enfermaria ou estufa antes referida  e só os reponha ao ninho  na manhã seguinte, bem cedo.

Atenção total  para a higiene e evite o contato com a umidade excessiva. É comum o contágio dos filhotes por fungos e ácaros  e bactérias. O  ataque de fungos provoca a  abrição de bico, de elevada mortalidade, especialmente do quarto ao oitavo dia de vida. O fungo provoca depressão e a coccidiose e outras bactérias, especialmente a Escherichia coli entram  matando os filhotes  que ficam com o abdômen  inchado sem  conseguir evacuar. Para ajudar,  desinfete o ninho a  cada dois dias com sulfato de cobre, e, se  possível, utilize também calor a 100 graus Celsius. Não  se deve esquecer de manter todo o controle possível sobre os fungos, nas sementes, na  farinhada e no ambiente

Observe, por períodos muito curtos,  o desenvolvimento dos filhotes, notadamente das fêmeas  noviças no mister. Troque os filhotes de mãe, se necessário. É preciso que sejam observados pelo menos 4 vezes ao dia, e em qualquer sinal de alteração, atue imediatamente.  Se a mãe  estiver com as penas molhadas em volta  do pescoço, é sinal que os filhotes  estão num  processo de diarréia; procure saber o que é, principalmente quanto à fermentação  do alimento servido, interfira imediatamente. Ë muito comum, também, que de uma hora  para outra venham a entrar em situação de emergência  e de risco de vida; mormente do terceiro ao oitavo dia de vida, o intestino paralisa, o pescoço se afina e o bichinho falece rapidamente.  Isso pode acontecer  por falta de calor da mãe ou fome, como também porque estão infectados ou doentes, quase sempre por fungos. É muito comum a fêmea arrancar canhões de penas dos filhotes; para tentar resolver esse problema, cubra o ninho com um círculo de tela de forma que ela não consiga atingir o corpo do ninhego, ou transfira para uma ama-seca imediatamente, ministre comida rica e minerais para ela.

Muitos criadores estão adotando, com excelentes resultados, o procedimento de ajudar na alimentação, diretamente no bico dos filhotes, com o uso de uma seringa graduada, ou de um palito, desde o primeiro dia de vida. Utilizam a farinhada tipo Energette® ou Babyzoo® ou  mesmo alpiste batido no liqüidificador até virar pó com farinhada também moída. Administre pequenas doses dessa mistura assegurando-se de que ela esteja em estado pastoso, não muito mole; todo cuidado com a contaminação e fermentação. No caso de alguma infecção, muito bom também é um pouquinho de antibiótico na água de beber da  mãe, depois de fazer o antibiograma das fezes ou  de materiais do criadouro, sempre que possível com a orientação de ornitopatologista.

Na oportunidade, oferecer a farinhada umedecida  em pequenas quantidades às 7, 10, 14 e 16 horas. Toda a vez  prepare-a na hora.

Lavras de tenébrio (Tenebrio molitor) poderão ser adicionadas à alimentação na  razão de 5 unidades pela manhã e pela tarde; não dê mais do que isso, porque pode matar os filhotes por causa da difícil digestão. Pode ser utilizada a “praga da granja” que é menor e muito mais digestível para os filhotes, notadamente para curió;  neste caso pode-se aumentar o número de larvas, até 20 de cada vez. Importante lembrar que produto que contenha os aminoácidos essenciais solúveis, colocado na  água de beber, poderá diminuir a administração de  insetos vivos. Se não fosse proibido no Brasil, outro alimento muito salutar aos filhotes nos primeiros dias de vida seria a administração da semente de cânhamo porque ela é muito rica em gordura e proteínas. Ótimo, também, servir angu feito com um pouquinho de sal, em potezinho separado, à disposição das fêmeas,  assim poder-se-á adicionar ali um pouco de vitaminas e cálcio.

A fêmea precisa – para evitar a diarréia - muito alimentar os filhotes com grãos, principalmente o alpiste de muito boa qualidade. Caso ela não aceite bem a broa, salpique-a  dentro do ninho, em cima dos filhotes, bem como no meio do comedouro de sementes;  a tendência é  ela  começar  a aceitar esse  tratamento. Os filhotes devem sempre estar com o papo cheio, principalmente na hora de dormir. Procure saber por quê o problema está acontecendo; não espere nada. Veja se a mãe está aceitando bem a alimentação administrada. A verdade e o segredo de tudo é: o filhote não pode passar fome ou frio; se isto estiver acontecendo,  auxilie a fêmea imediatamente, não espere nem um pouco. Aja o mais rápido possível.

Muitos filhotes, quando saem do ninho, não  abrem o bico para a fêmea tratar;  nesse  caso, trate-o diretamente com ajuda de seringa ou palito  até que ele passe a ingerir a comida recebida de sua mãe. Muita gente que cria em viveiros retira a fêmea com os filhotes  um dia antes  de eles saírem do ninho e os coloca nas gaiolas porque é muito  mais seguro o tratamento no ambiente mais restrito. A mãe voltará para o viveiro assim que for separada deles.

Em geral, quando os filhotes completam 10/15 dias, as  fêmeas entram em processo de preparação para nova nidificação; por isso todo o cuidado para não perder a cópula daquelas que estão separadas do macho. Observe a exigência  da perfeita condição de higiene do novo ninho.

No décimo-terceiro dia eles deixam o ninho, ocasião em que a fêmea poderá já estar no processo de nova postura. Não há nenhum problema nisso; a mãe choca e trata dos filhotes com proficiência e bons resultados. Outras recomendações: 

- Com cuidado, sem nenhum problema,  pode-se manusear os ovos e os filhotes e até trocá-los de ninhos e de mãe.

- Obrigatoriamente, faça periodicamente exames nos materiais de seu criadouro, tipo antibiograma e negativo de fungos e ácaros.

-   As anilhas de 2,3 mm (curió) e 3,2 mm (bicudo)  de diâmetro, serão colocadas no décimo dia de vida; este é o melhor momento. Aconselha-se que as anilhas sejam personalizadas porque é a marca de cada criador e ajuda muito na divulgação da respectiva criação. Não os anilhe no dia que estão para abandonar o ninho para não provocar a saída do filhote antes do momento certo. Isso pode provocar um estresse irreversível  na ave e torná-la assustada e problemática para o resto da vida. Outro cuidado é ter  as mãos limpas, como já foi ressaltado, e as próprias unhas aparadas para realizar o anilhamento e não contaminar os filhotes com vírus ou bactérias. Não é necessário nenhum tipo de óleo para ajudar na operação.

- É preciso que se isolem os filhotes mais velhos do contato com o ninho, através da divisória central da gaiola ou, no caso de viveiro, colocando-os em uma gaiola menor, de maneira que os pais possam tratá-los pela grade. Isso porque costumam incomodar muito a mãe, tirando-a do ninho, quebrando os ovos ou matando os irmãos mais novos com profundas bicadas.

- Todo o ciclo explicado até agora pode se repetir por 4 e 5 vezes, no máximo. Assim, uma fêmea poderá produzir, se bem tratada, até 12 filhotes por temporada, sem nenhum prejuízo à sua saúde.

- O filhote será separado dos pais por volta dos 40/45 dias, idade em que já pode comer sozinho, embora se precise  tomar cuidado especial com a sua saúde e alimentação. Para evitar o estresse, não deve ser separado de seu irmão de ni­nho. Isso pode ajudar positivamente no amansamento, na formação de sua personalidade, porque seu mano é uma companhia, um amigo e será bom para a qualidade das crias. Ótimo também que se ajude nos três primeiros dias do desmame, administrando soro hidratante na água de beber. Se ele ficar “chorando” insistentemente, pegue-o na mão e alimente-o direto no bico com ajuda da seringa graduada ou volte-o para a mãe mais alguns dias. É necessário que se continue ministrando aminoácidos essenciais solúveis diariamente e polivitamínico 3 vezes por semana até que termine a muda de  ninho, aos  seis meses de idade. Nesse período recomenda-se, também, que o filhote fique resguardado e mantido em locais onde não haja umidade, corrente de ar e ambientes infectados;  todo cuidado com fungos.

- Quanto à sexagem é muito difícil nos filhotes de 2 a 3 meses; a única maneira segura seria através do DNA; já há tecnologia para se fazer este tipo de sexagem. Outro método que está sendo desenvolvido é a observação que se pode fazer traçando uma linha  reta passando por baixo do bico de cima em direção dos olhos, no macho ela passará por baixo do olho e na fêmea irá de encontro com o centro da cavidade ocular.  Dizem, também, que o pássaro macho, ainda no ninho,  tem a largura  das costas mais estreita do que da fêmea. - Após a muda de seis meses, pode-se começar outra fase de manuseio dos filhotes, separando-os um em cada gaiola. Inicia-se, então, o treinamento para acostumá-los com capa, passeio a brejos, volta de carro e tentativas de acasalamento. Tudo isso com muito cuidado para não ir além dos limites, causando transtornos psíquicos irreversíveis. Temos sempre que lembrar da condição de jovens, que ainda estão entrando na adolescência.

- O bicudo vive mais, por isso demora mais para aprontar. Assim, só está plenamente desenvolvido aos 6 anos, e o curió já aos 4 anos. Isso porque,  até essas idades, para participarem de torneios, terão muito mais chances de se tornarem verdadeiros campeões.

- Outro item importante é descobrir bem cedo, pelas evidências a­presentadas, qual é a aptidão de cada um. Se tem fibra, se tem um bom canto e se é repetidor. - É fundamental que se respeitem as ca­racterísticas de cada pássaro para se conseguir um pretenso cam­peão do tipo especial que se pretende produzir.

- Sabe-se, entretanto, que a maioria  dos filhotes não dará satisfação plena as expectativas  do criador, daí a grande importância da aplicação sistemática da seleção genética até com a utilização de consangüíneos.

- Para criar filhotes existem muitas e muitas variáveis que somente a experiência, ao longo de muitos anos, poderá chegar  a cada criador; só então serão relacionadas e seguidas as próprias e mais convenientes rotinas  para o sucesso da criação.

   E.mail: lagopas@mandic.com.br

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Última modificação (
Last modified
): 26 setembro, 2003