©ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS
Publicado no ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS N. 98 Nov/Dez. 2000
A
SOLTURA DE AVES CONTRIBUI PARA A SUA CONSERVAÇÃO?
Anita
Wanjtal 1 e Luís Fábio Silveira 2
Freqüentemente
vêm à tona a reivindicação de que as aves que se encontram em cativeiro
deveriam ser libertadas. Esta opinião inspira grande simpatia, mas tenta
induzir ao leigo a impressão de que esta “libertação” contribui para a
recuperação da espécie e dos ecossistemas. Esta prática, na verdade, pode
resultar em conseqüências desastrosas para a própria ave libertada, para a
preservação de sua espécie e para o ecossistema na qual foi realizada a
soltura, não atendendo a nenhuma das alegações que motivam as
bem-intencionadas pessoas e organizações que a fazem.
Para
analisar as conseqüências de tal ato e seus possíveis efeitos sobre as
populações locais, há a necessidade de diferenciarmos o ato de soltura, que
raramente vem acompanhado de critérios ou de acompanhamento posterior, de um
ato de reintrodução, cujo trabalho exige método e monitoramento.
As
solturas ocorrem em quantidade até hoje no Brasil. Este ato é praticado, na
maioria das vezes, pelo poder público, através das Polícias Florestais e
mesmo do IBAMA, mas criadores também a realizam. A soltura é simplesmente o
ato de libertar indivíduos em áreas “escolhidas” (através dos mais
variados critérios) para que os mesmos tenham alguma chance de sobrevivência
fora das condições de cativeiro. Apesar do grande apelo popular e da
significativa atenção dada pelos meios de comunicação, as solturas de aves
(recém ou não) apreendidas nunca têm seus resultados adequadamente
conhecidos. Um dos maiores riscos associados a esta prática é a disseminação
de zoonoses, com a possível extinção local das espécies contaminadas.
A
reintrodução, em um sentido amplo, é o ato deliberado de soltar animais na
natureza com finalidades específicas e controladas. O principal objetivo é o
de auxiliar na conservação; deste modo, a reintrodução não deve ser
realizada apenas para dar um destino às aves confiscadas ou dispor do excesso
de exemplares reproduzidos em cativeiro.
Os
projetos de reintrodução devem ser submetidos e aprovados pelo IBAMA, que necessariamente deve ser bem informado de todos os seus passos,
acompanhando os sucessos e os fracassos. Projetos que visam reintroduzir
espécies em hábitats fora da sua área de ocorrência original não devem ser
aprovados. Para que este tipo de projeto tenha sucesso é necessário que exista
um programa de acompanhamento de longo prazo, onde se verifique cuidadosamente
os efeitos pós-reintrodução, sendo imprescindível que existam recursos
financeiros garantidos por vários anos, já que estes projetos costumam ser
bastante caros (Sanz & Grajal, 1998).
Existem
algumas condições nas quais a possibilidade de reintrodução pode ser
considerada:
a.
extinção: reintrodução de uma espécie em uma localidade onde houve
desaparecimento da mesma. Neste caso a área de ocorrência atual é ampliada,
aumentando a chance de sobrevivência desta espécie e de outras cujo ciclo pode
ser dependente;
b.
em populações naturais depauperadas, com a finalidade de aumentar sua
densidade, variabilidade genética e corrigir eventuais distorções casuais de
proporção sexual;
c.
em casos excepcionais quando o hábitat remanescente no local de ocorrência
não oferece as condições necessárias para a manutenção da espécie, e
existem outros locais que apresentam potencial (área, composição e
condições climáticas, etc.) para a sua manutenção e que podem ser também
considerados, desde que situados dentro do perímetro da sua distribuição
histórica.
Um projeto de reintrodução é um sucesso quando resulta numa população auto-sustentável.
É importante averiguar também se os fatores que concorreram para a extinção local foram controlados, verificando, por exemplo, se o local escolhido foi recuperado e adequadamente protegido, se os predadores exóticos foram eliminados e se houve modificação da atitude da população humana residente na área. Esta população ainda deverá ser, obrigatoriamente, muito bem informada sobre todo o processo de reintrodução, e, de preferência, engajada no projeto.
Os responsáveis pelo projeto devem assegurar-se de que as aves reintroduzidas apresentam as melhores condições possíveis para poderem sobreviver no local escolhido e que as mesmas apresentam as condições potenciais de adaptação a eventuais modificações no ambiente. Para tanto as aves devem apresentar-se saudáveis, não portando nenhum microorganismo patogênico e devem estar aptas a procurar naturalmente alimentos e abrigos característicos de cada espécie, apresentando o máximo de variabilidade genética possível, através da utilização de todos os casais de fundadores disponíveis e da reintrodução de número igual de filhotes por casal. A presença de um veterinário especializado em animais silvestres é fundamental neste processo, e a sua opinião deve ser observada, mesmo incorrendo em atrasos no cronograma do projeto.
Além
disso, antes de iniciar o projeto, deve-se conhecer muito bem os hábitos da
espécie que se deseja reintroduzir, através de intensa pesquisa sobre a
história natural e as interações com outras espécies. Estes dados podem ser
obtidos através de consultas à museus, literatura especializada e,
principalmente, em sérios trabalhos de campo. A identificação do hábitat
adequado para a reintrodução exige informações ecológicas detalhadas sobre
a história natural e o tamanho mínimo da área que cada indivíduo ocupa. De
preferência as pesquisas prévias de campo devem ser realizadas em unidades de
conservação (UC’s), obviamente naquelas onde a espécie escolhida para a
reintrodução ainda ocorra e onde pode ser encontrado um ambiente mais próximo
do original. As pesquisas em UC’s são também importantes porque as
possibilidades de ocorrências de problemas que inviabilizem as pesquisas
(desmatamento ou caça) são menores.
A
espécie reintroduzida deverá ser monitorada e as conseqüências desta
reintrodução devem ser periódica e criticamente avaliadas, com registros
cuidadosos sobre reprodução, aumentos ou diminuições da população
reintroduzida e os efeitos da reintrodução sobre o ecossistema. Os resultados,
positivos ou não, relativos a cada um dos eventos da reintrodução deverão
ser tornados públicos através de publicação em periódicos científicos
reconhecidos, para permitir um aprimoramento dos nossos conhecimentos.
O sucesso dos programas de reintrodução tem sido maior quando as aves
têm a sua origem na natureza (processo conhecido como translocação; Griffith et
al., 1989) do que nos casos em que nasceram, foram criados ou tiveram alguma
passagem pelo cativeiro. A diferença tem sido atribuída a deficiência
comportamental destas últimas, contudo, parte deste insucesso pode ser também
devido à menor adaptabilidade genética e principalmente às doenças
adquiridas em cativeiro.
Uma das formas de reintrodução que tem se revelado promissora é a
reintrodução de ovos, ou mesmo filhotes, em ninhos encontrados na natureza,
dando a oportunidade de aprendizagem com os pais adotivos e recebendo a
proteção destes. Para espécies ameaçadas a oportunidade de se realizar tal
programa é muitas vezes prejudicada pela falta de casais adotivos, que deverão
ensinar aos filhotes o comportamento típico de cada espécie. A adoção por
parte de espécies próximas é possível, mas é pertinente lembrar que algumas
características importantes poderão ser perdidas, como a correta escolha do
parceiro para reprodução. A experiência acumulada neste sentido é ainda
escassa.
No Brasil, as solturas (muitas vezes chamadas de “reintroduções”)
de aves têm sido realizadas tanto por indivíduos quanto por órgãos públicos
ou ONGs. Os resultados a médio ou longo prazo raramente têm sido documentados.
Dos poucos exemplos brasileiros melhor documentados podemos citar três
espécies de psitacídeos introduzidas no município do Rio de Janeiro (Sick,
1997): Diopsittaca nobilis e Brotogeris
chiriri, cujas populações se estabilizaram após a introdução (Pacheco
1994) e Pyrrhura cruentata, introduzida no Parque Nacional da Tijuca em
1969-1970, cuja população não se estabeleceu (Pacheco, 1988).
Entretanto, fora do Brasil, existem muitos exemplos documentados de
reintrodução que resultaram em sucesso e outros com resultados modestos ou
mal-sucedidos. O falcão peregrino (Falco
peregrinus; Barclay & Cade, 1983) e o condor da Califórnia (Gymnogyps californianus; Toone & Wallace, 1994) estão entre os
exemplos mais citados, uma vez que estas aves estavam à beira da extinção. Um
intenso programa de recuperação, de longo prazo, foi desenvolvido e obteve tal
êxito que hoje o falcão peregrino não consta mais entre as espécies
ameaçadas (Burnham, 2000). Outros bons exemplos são o de Falco punctatus, nas Ilhas Mauritius (Jones et al., 1995) e do papagaio das Ilhas Marguerita (Amazona
barbadensis, Sanz & Grajal, 1998).
Como exemplos de resultados um pouco mais modestos podemos citar o ganso
nene (Branta sandvicensis, Black &
Banko, 1994), no Havaí, o papagaio de Porto Rico, (Amazona
vittata) em Porto Rico (Wiley et al.,
1992) e o kakapo (Strigops habroptilus)
na Nova Zelândia (Wiley et al.,
1992); no entanto a tentativa de reintrodução do estorninho de Bali (Leucopsar
rothschildi) na Indonésia, resultou em fracasso (van Balen & Esepak,
1994).
Até o presente momento existem poucos exemplos de reintrodução bem
sucedida no Brasil. Diversos programas estão em curso, porém seus resultados
ainda não estão disponíveis. Entre eles, podemos citar a reintrodução do
mutum do sudeste (Crax blumenbachii),
realizada pela Fundação CRAX (Azeredo, 1996), a maracanã (Propyhurra
maracana), realizada pelo Comitê de Recuperação da Ararinha-Azul e a de
duas espécies de cracídeos (Penelope
superciliaris e P. obscura),
realizada pela CESP, em Paraibuna, após reflorestamento da área devastada para
construção de uma usina hidroelétrica. Os dados de DNA relativos ao grupo em
cativeiro da CESP e das aves recapturadas na região da reintrodução sugerem
que a população que se estabeleceu no local é derivada das aves introduzidas
(Pereira e Wajntal, 1999). Contudo, faltam informações relativas a densidade
populacional, capacidade de sustentação da área, número de casais que estão
se reproduzindo e outros parâmetros que poderiam ser extremamente importantes
para orientação de outros programas de reintrodução de cracídeos.
Indivíduos de espécies ameaçadas de extinção são preciosos e não
devem servir de “pilotos de teste” em programas de reintrodução que não
cumpram os requisitos sugeridos acima. Estes exemplares podem ser mantidos e
multiplicados em cativeiro enquanto as pesquisas sobre biologia e a escolha dos
hábitats adequados ainda estão em curso. Os mesmos só devem ser libertados
após todas as condições para a reintrodução terem sido observadas.
As estimativas sobre a taxa anual de extinções de espécies resultantes
das ações antrópicas mostram que estamos vivenciando um momento não muito
diferente das grandes catástrofes que resultaram no desaparecimento da quase
totalidade das espécies como as que ocorreram na transição do Período
Cretáceo para o Terciário. Não sabemos ainda até que ponto é possível
destruir sem que a interação entre os seres vivos seja irreversivelmente
quebrada. É muito importante que se criem mais reservas, e que as mesmas sejam
efetivamente protegidas e, de preferência interligadas com outras áreas
preservadas.
Não basta apenas interromper o acelerado ritmo de devastação atual, é
preciso reunir esforços para tentar reverter o que de outra forma será
irreversível. É preciso plantar, proteger ecossistemas, criar corredores e,
cada vez mais, reintroduzir espécies.
Para
tanto, precisamos conhecer e saber avaliar as conseqüências de nossos atos
presentes e futuros para poder estimar os riscos e benefícios decorrentes.
Entender melhor as espécies, sua biologia, sua distribuição presente e
passada, sua história. Um dos problemas que surgem em relação às solturas
não monitoradas é que elas não trazem nenhum conhecimento sobre as
conseqüências causadas e impedem o conhecimento da verdadeira história da
espécie e do ecossistema que ela ocupa. Portanto dificultam a reconstrução e
podem ser um fator importante para acelerar o processo de extinções em
cascata.
O nosso
dever deve ser o cuidar para conservar as aves livres na natureza, reconstruir
os hábitats degradados e reintroduzir de forma responsável, impedindo atos que
possam ameaçar os ecossistemas existentes, como as solturas na forma em que
são realizadas atualmente.
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1
– ANITA WANJTAL: Departamento de Biologia, Instituto de Biociências da
Universidade de São Paulo. Caixa Postal 11 461, CEP 05508 – 090, São Paulo,
SP. e.mail: aniwa@usp.br
2 – LUÍS FÁBIO SILVEIRA: Departamento de Zoologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Caixa Postal 11 461, CEP 05433 – 970, São Paulo, SP. e.mail: lfsilveira@uol.com.br. Bolsista FAPESP (processo 99 / 12326 – 9).
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